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Postado em 05-12-2009
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 05-12-2009 00:10

Jose Mujica: Uruguai em mãos maduras
jmujica

Lucia Topolansky: senadora e primeira dama
Luruguai

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ARTIGO DA SEMANA

BRISA NO CORAÇÃO

Vitor Hugo Soares

Mesmo com todo barulho dos escândalos, que cada vez mais rolam por aí – do “Expresso da Propina”, na Bahia, ao “Mensalão do DEM” de imagens e diálogos deslavados do governador José Roberto Arruda (DEM) e seus cúmplices no governo do Distrito Federal – assumo como propósito da semana a leitura de “Histórias de Canções”, de Wagner Homem, relatos sobre as origens das composições de Chico Buarque de Holanda.

O autor reproduz as letras e relata suas origens desde “Tem mais Samba” (1964) e “Pedro Pedreiro” (1965) (as primeiras criações), até as mais recentes “Sempre”, composta para o filme “O maior Amor do mundo”, de Cacá Diegues, e “Subúrbio”, ambas de 2006. O livro é precioso presente antecipado de Natal. Curto agora suas páginas como um daqueles usurários ingleses dos contos natalinos de Charles Dickens. Gente que guardava fortunas em baús e porões e tiravam o sono de muita criança e adolescente no passado, mas que diante dos tipos que se vêem nesses dias tenebrosos – na política, nos negócios e nos governos – não assustam mais ninguém.

De repente interrompo também a leitura que me cativa, ao ver de relance duas imagens na página aberta do jornal à minha frente. São, respectivamente, do presidente recém eleito pela Frente Ampla do Uruguai, Jose “Pepe” Mujica , e de sua mulher, Lucia Topolansky, a senadora mais votada no pleito da semana passada, que irá dividir sua combativa atuação de militante política e parlamentar com as tarefas protocolares de primeira dama, a partir da posse do marido , ano que vem.

As fotografias estão nas paginas da Folha de S. Paulo. Ilustram matérias da correta, atraente e completa cobertura das eleições na pequena e fascinante República Oriental da América do Sul – como os uruguaios gostam de chamar seu país. Textos assinados pela enviada especial do jornal paulista a Montevidéu, Silvana Arantes, cuja leitura dá enorme prazer pessoal e profissional. Uma brisa no coração do jornalista.

Nas imagens Pepe Mujica e Lúcia aparecem cada um de seu jeito próprio. Ambos, porém, se assemelham muito com um daqueles simpáticos, interessantes e sempre participantes idosos que o visitante habitual de Montevidéu – como este que vos escreve -, encontra nas ruas, esquinas, restaurantes, cafés, teatros, cinemas ou no “footing” nas ramblas de Pocitos ou lojas da capital uruguaia.

Na foto da Folha, Mojica, 75, está cercado de fotógrafos, repórteres e eleitores. Veste um surrado e antigo casaco de “cashemere” com cara da “Magdalena”, a antiga e famosa fábrica de agasalhos uruguaia. Parece um daqueles “tios do peito”, que quase todo mundo tem. A senadora Lucia, 65, cabelos encanecidos, riso franco, palavras firmes de quem pensa e sabe das coisas da vida e do governo em um país com um dos mais elevados níveis educacionais do continente e uma das mais baixas taxas de corrupção de seus políticos e dirigentes.

Sim, a futura primeira dama do Uruguai fala: “Sou uma militante política e tenho compromisso com meu eleitorado, mas não tenho problemas com a questão protocolar. É uma desgraça que se tem que cumprir. Não há nenhum problema nisso, me tomará o tempo necessário, mas minha principal tarefa estará no Senado”, adianta Lucia. E que perfeita simbiose dos dois com o país cujo comando eles acabam de conquistar!

Sinto-me preso, sem poder trocar uma leitura pela outra, e resolvo seguir dividindo a atenção entre o livro e o jornal.

Estou na página 66 do livro de Wagner Homem. O autor conta a história de “Bom Tempo”, a cantiga maravilhosa daquele torcedor do Fluminense: “Satisfeito, a alegria batendo no peito/ O radinho tocando direito/ A vitória do meu tricolor”. Vibro intensamente como se fosse o próprio personagem da fantástica canção.

Mas, diante das fotos de Pepe Mujica e Lucia, troco de emoções. Estou convencido de já ter encontrado estes dois em minhas muitas andanças por Montevidéu dos anos 70/80, ou mais recentemente. Talvez na frente daquele quiosque ao lado do Balfer Hotel, na movimentada esquina da Calle Cuaréim com a Avenida 18 de Julio, onde comprava com Margarida os jornais do dia, e o jornalista Paulo Valente, ou o coronel Dagoberto Rodrigues (ambos no exílio) aproveitavam para pedir ao “garoto Tupamaro” que nos atendia, “notícias do movimento que os diário não davam mais”, temerosos da repressão e horrores da “Operação Condor”, que então corria solta por toda América do Sul.

Sopro e brisa no coração. “Meus olhos molhados. Insanos dezembros / mas quando me lembro são anos dourados”. Pulei para a página 242 de “Histórias de Canções. Wagner Homem conta uma história de 1986, quando nasceu a arrebatadora música encomendada pela Globo a Tom e Chico Buarque para uma das mais inesquecíveis séries de televisão já produzidas no Brasil.

Dou mais uma olhada nas imagens do Uruguai estampadas na Folha. Intimamente desejo sorte e sucesso a Mujica e Lucia. E fecho o livro e o jornal para poupar o agitado coração.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Olivia on 5 dezembro, 2009 at 8:24 #

Belíssimo e comovente artigo. Vida longa e muita sorte a Lucia, Mujica, Vitor e Chico. Também quero enviar meu axé para Morales, lá na Bolívia – amanhã é seu dia de festa, tenho certeza.


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