dez
04
Postado em 04-12-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais, Multimídia) por vitor em 04-12-2009 09:03


===================================================
Deu na Tribuna da Bahia (edição 02/12/2002)

PONTO DE VISTA/MEMÓRIA

Caruru de Iansã

Consuelo Pondé de Sena

Com a festa de Santa Bárbara tem início o Ciclo das festas populares da Bahia. Representa a entidade máxima do trovão, dos raios e das tempestades. Sincretizada como Santa Bárbara, na devoção católica, Iansã é um orixá muito festejado na Bahia, terra de todos os Orixás do Panteón africano.

Não me lembro de ter tomado conhecimento ou participado de caruru de Santa Bárbara ou de Iansã, mas que gosto da festa, sei que gosto. Gosto que me enrosco, como diz o vulgo. Sabia, no entanto, desde priscas eras, que no Mercado de Santa Bárbara, na Baixa dos Sapateiros, o caruru corria solto, agregando pessoas das classes populares, que também participavam da procissão. Era uma festa da qual não participava a “elite” de Salvador.

Santa Bárbara era natural da Ásia Menor, tendo vivido na Nicomédia, antiga Província Romana da Bitínia, sendo filha de um senhor muito rico, que a isolou do resto do mundo, em função da sua extraordinária beleza. Mártir da Igreja Católica, por ter abraçado essa religião, morreu no dia 4 de dezembro, sob o reinado do imperador Maximiano, tendo o seu culto passado a ser difundido entre os cristãos, a partir do século IX.

No Candomblé, Iansã é mulher de Xangô, contra quem teria, inclusive, uma guerra. De igual modo a seu lado combateu em muitas oportunidades. Do mesmo modo que Xangô controla os raios e tempestades e reina nos dias de quarta-feira, tendo igualmente as suas mesmas cores-vermelho e branco. Traz nas mãos um rabo de bode, a que se denomina eirú e uma espada de cobre desafiadora. Sua saudação é Eparrei! Guerreira sem igual, também era caçadora desassombrada, razão pela qual é identificada como Santa Bárbara dos povos cristãos.

Segundo Waldir Freitas Oliveira: na Bahia já teve Santa Bárbara, capela própria, no antigo Morgado de Santa Bárbara, instituído em 1641, pelo casal Francisco Pereira do Lago e Andresa de Araújo, na Cidade Baixa, no local onde depois surgiram os Mercados de Santa Bárbara e São João, entre a antiga Rua das Princesas e a subida da Ladeira da Montanha”.

Posteriormente esses prédios foram destruídos por incêndios nos derradeiros anos do século XIX, sendo o mais assustador o ocorrido no dia 3 de dezembro de 1898, restando apenas ruínas e a imagem de Santa Bárbara, razão pela qual foi transferida para a Igreja do Corpo Santo, no dia 16 de outubro de 1938.

Inexiste informação sobre a data em que a imagem passou da Igreja do Corpo Santo para o Mercado da Rua da Vala (Baixa dos Sapateiros), inaugurado em 28 de fevereiro de 1874, em começos do século XX batizado de Mercado de Santa Bárbara. Consta que a imagem passou algum tempo na Igreja do Passo, de onde saía anualmente em procissão até aquele mercado. Assim, a cada 4 de dezembro, depois da celebração da missa solene, ali permanecia exposta durante todo o dia para receber a visita dos fiéis. Em 1946 teria sido abrigada no mercado, ficando num altar especialmente feito para ela. Dali foi, no entanto trasladada, por decisão dos comerciantes do mercado, em 1987, para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, onde teria sua segurança garantida e permanece até os nossos dias.

Padroeira dos bombeiros, todos os anos recebe homenagem da briosa corporação. O grande romancista baiano, Jorge Amado, inspirou-se em Iansã para escrever seu admirável livro “O Sumiço da Santa: Uma História de Feitiçaria”.

Para os baianos, de todas as categorias sociais, Santa Bárbara e Iansã são uma coisa só. A santa do hagiológico católico veio da Turquia, passando por Portugal e Espanha até chegar à nossa terra. A santa negra veio de Irá, na África, e aqui se tornou tanto dos baianos quanto dos descentes dos africanos.
Como tudo na Bahia, a convivência entre os representantes das duas raízes distintas é mansa e pacífica.

Be Sociable, Share!

Comentários

Olivia on 4 dezembro, 2009 at 11:15 #

Eparrê Iansã! Que ela nos proteja, sempre. Hoje é sexta-feira, dia de Oxalá. Já pensou essas duas entidades juntas em um só dia, proteção pouca é bobagem !!! Se for possível, vistam branco e vermelho.


Rubens Neuton on 4 dezembro, 2009 at 13:29 #

Maria Bethânia e Consuelo Pondé, dois icones da Bahia, numa homenagem mais do que justa a Santa Bárbara, símbolo da religiosidade popular que só o sincretismo baiano sabe reverenciar tão bem. E, aliando-se às merecidas reverências, o Bahia em Pauta, em cima do lance, não deixa passar despercebido mais esse belo exemplo de manisfestação popular, que se mantem presente muito mais pela vontade do povo baiano do que pelo compromisso oficial com as tradições culturais do nosso estado.
Que a nossa santa guerreira, rainha dos raios e das tempestades, use a sua poderosa força para conter a sanha dos corruptos da politica brasileira e nos mantenha capazes de continuar acreditando em tempos melhores e combatendo tamanha degeneração. Viva Santa Bárbara, eparrê iansã… Nos proteja e nos ajude a banir os insensatos e nos livrarmos de tanta revolta, frustração e desapontamento.


Regina on 4 dezembro, 2009 at 15:40 #

http://www.youtube.com/watch?v=uMFhby_jMt0&feature=related

Oya/Iansã
Orixá feminino dos ventos, das tempestades e do rio Níger que em iorubá significa Odò Oyá. Foi a primeira mulher de Xangô e tinha um temperamento ardente e impetuoso e é o único orixá capaz de enfrentar e dominar os eguns (espíritos dos mortos) devido a seu caráter guerreiro. Os/as filhos/as desse orixá são audaciosos/as, poderosos/as e autoritários/as.

Epahey Oyá e Epahey Yansã!!!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • dezembro 2009
    S T Q Q S S D
    « nov   jan »
     123456
    78910111213
    14151617181920
    21222324252627
    28293031