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Postado em 19-11-2009
Arquivado em (Artigos, Gilson, Multimídia) por vitor em 19-11-2009 10:41

Oceania: bar e templo

Oceania

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CRÔNICA/ UM LUGAR

BEIJO NO CHÃO

Gilson Nogueira

O tampo de madeira escura da mesa vazia à minha frente nivelava-se com o alto da balaustrada e com a linha do horizonte feito de azul de céu e mar. Era um sábado de chuvisco e sol. E de uma lágrima invisível a escorrer sobre a mesa para cair no chão. Não havia notado a coincidência das linhas da mesa, da balaustrada e do horizonte, enquanto atirava-me nas ondas das lembranças da juventude, na perspectiva de sair dali depressa para não ter que ficar abraçando quem não via.

Na última vez que estive naquele bar, o mais bem localizado do Farol da Barra, deixei um abraço de despedida preso ao guardanapo como parte da gorjeta. A felicidade continua lá, ainda que solitária, nas vozes da última farra que ficou no ar.

Por aquelas bandas balneárias do Farol, o Privé, que não existe mais ( foi lá que tomei meu último uísque de solteiro e que surgiu-me a idéia de fundar o Vat 69, o primeiro bloco de carnaval a deitar, em plena folia, na Avenida Sete de Setembro), era o mais forte concorrente do Bar Oceania.

Ah, o Privé, pedaço de Búzios, em Salvador, lugar tão gostoso de beber o pôr-do-sol, devidamente acompanhado, com gelo no copo, quanto seu filé au poivre, superado, mais tarde, pelo do Berro D`Água! Ah, o Berro, outro ponto maravilhoso da boemia soteropolitana, de vida mundana na totalidade dos seus prazeres!

A vida era o suspense da tanga, o debruçar-se no balcão até a última gota de poesia, a certeza do não morrer tão fácil. Na escuridão, havia estrelas, ainda, a nos fazer caminhar sem medo. O Clube Cabana da Barra, que conserva sua classe, desde que foi construído pela Marinha do Brasil, fica no meio do caminho do ontem Privé e do hoje Boteco do Farol, que, especula-se, deverá voltar a ser chamado pelo antigo nome, Bar Oceania, localizado embaixo do edifício que leva o batismo continental e que funciona, na minha imaginação, ali, como sentinela monolítico em defesa dos encantos da Cidade de Salvador da Bahia.

Metrópole que, infelizmente, tornou-se, por inércia dos seus governantes, vítima da brutal transformação de hábitos e costumes imposta pela violência urbana. Salvador que vê seus espaços de amizade, de confraternização, de festa sem patrocínios, de aconchego, levado na base dos dengos todos que emanam do coração da sua gente, do melhor samba de roda do mundo, serem fechados por falta de público, de pessoas que gostariam de cantar até o sol raiar , mas que são obrigadas a ficar trancafiadas, em casa, com medo de morrer na rua.

É grande a vontade de cantar, de novo, aquela música deixada no Oceania.

Gilson Nogueira é jornalista

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Comentários

Regina on 19 novembro, 2009 at 17:07 #

Vat 69, era esse o nome do nosso bloco, que eu estava tentendo me lembrar e que vc foi o fundador. Saindo do beco da Saude para as pracas, arrebentamos… Que saudade daqueles carnavais!!!!!!


Gilson Nogueira on 19 novembro, 2009 at 23:37 #

Regina querida, haja saudade!!! Nosso Vat, comunidade de malucos beleza que descaretou o Carnaval da Bahia, era, na verdade, o beco que saia para se encontrar com a avenida. Literalmente. Fizemos história, querida. Arrebentamos, como se diz, por aí, a boca do balão! Lembro de você , de sua irmã Biga, do seu mano Chico, com aquela mortalha preta e branca, sendo saudados , na praça, pelo poeta maior da Bahia,enquanto Zé Bubu, em águas, ameaçava ficar nu, em cima de um Karman Ghia, dizendo-se Adão no Paraiso. Aqui, agora, uma notícia para os vatianos da vida! Embalado pelas lembranças memoráveis daqueles anos rebeldes, estou começando a escrever, com as tintas do coração saudoso dos velhos carnavais, o que foi o Vat. Há, amiga, mil e um fatos fatos, em desfile, na passarela do tempo, para serem narrados, no livro, como, por exemplo, o dia em que fomos expulsos, à noite, da cantina da Escola Politécnica, na Federação, para irmos ensaiar, em seguida, na Avenida Garibaldi, tocando os tambores que tomamos emprestado do museu do extinto Quebra Flandre, cordão carnavalesco do bairro do Tororó, núcleo dêenealítico do verdadeiro Carnaval da Bahia, que não mais existe, sob a batuta do saudoso Fialuna. O Vat, antes de tudo, simbolizou a alegria, o amor, a paz, a união da juventude sadia que ia ás ruas de Salvador, exclusivamente, para brincar. Isso, brincar,coisa que, hoje, lamentavelmente, quase, não se vê mais, por aqui. O confete e a serpentina, símbolos da festa, parece, foram proibidos de entrar no salão. Aliás, onde está o salão? Quem calou a orquestra? Um beijo, Regina, Vat, Vat, Vat, Vat 69, Vat, Vat, Vat, não é mole, não; quem quiser, saia da frente, quem ficar, passe pa-traz, pois o Vat é o quente, Vat é bom demais!!! Lembrou?


Regina on 20 novembro, 2009 at 16:26 #

Se lembrei!!!!!!!!!!! To chorando, mas eh de alegria!!!!!! Quero ter o livro qdo ficar pronto.


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