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Postado em 18-11-2009
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 18-11-2009 16:51

Este editor do Bahia em Pauta recebeu da Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas um honroso convite para participar da Sessão Solene na qual se fará a entrega da Comenda Ledo Ivo aos escritores Leda Almeida e Carlito Lima. A solenidade ocorrerá com a presença do patrono, poeta Ledo Ivo. Haverá uma apresentação teatral de poemas e textos de Ledo Ivo pelo grupo dos atores Homero Cavalcanti e Ronaldo Andrade.

Dia: 18 de novembro de 2009.

Hora: 16:00 hs.

Local: Plenário da Assembléia

Praça Pedro II – Centro – Maceió
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Comentário: Deus e todos os orixas da Bahia sabem como gostaria de estar presente na festa da tarde desta quarta-feira, na capital alagoana, para levar pessoalmente o meu abraço mais forte e aplaudir o escritor, cronista e blogueiro Carlito Lima, na hora da colocação no peito do velho Capita, este alagoano fora de série – como escritor e figura humana – da comenda tão merecida.

Como, infelizmente, não será possível , guardo o abraço pessoal e a generosa promessa de farra em Maceió ao lado de Carlito, Duque de Jaraguá – que acaba de lançar “As Mariposas Também Amam”, inperdível livro de crônicas – para outra vez.

De Salvador, onde Carlito Lima viveu, terra que ele ama intensamente, baterei palmas , e sei que não o farei sozinho. O jornalista e blogueiro Chico Bruno e o artista plástico Angelo Roberto – o da “Bahia de Todos os Ângelos”, belo capítulo de seu fantástico livro de memórias, que recomendo a todo mundo que ama a boa leitura -, seguramente farão o mesmo esta tarde.

Mando, além disso, as palavra do artigo que no Carnaval de 2008, tão contente e emocionado quanto hoje, escrevi sobre Carlito Lima

(Vitor Hugo Soares, editor)

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Carlito Lima em Maceió
Calima
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Para Carlito Lima

VIA NORDESTE

Vitor Hugo Soares

Antes da cantora Ivete Sangalo pespegar aquele beijo de faz-de-conta na boca do atoleimado apresentador da TV Bandeirantes, para um Brasil inteiro de audiência, eu já estava a quilômetros de distância da folia de Salvador. Cortava estradas e braços de rios no Nordeste, a caminho de Maceió, a capital alagoana onde o carnaval se resume a um ou dois mascarados, extraviados provavelmente dos desfiles do Galo da Madrugada, ou do Madeira do Rosarinho, em Recife e Olinda.

Quando entrei na Linha Verde, rumo a Aracaju, primeira etapa na rota de fuga, nem desconfiava da presença na “cidade da Bahia” – como dizia Jorge Amado – da bela Naomi Campbell. Segredo bem guardado, ela desembarcou no Curuzu a convite bem remunerado do publicitário Nizan Guanaes, para fazer marketing e emprestar charme internacional ao desfile do bloco afro, Ilê Aiyê, “o mais belo dos belos”.

À noite, vi de longe, pela TV, as lágrimas que escorriam dos olhos comovidos da “top” britânica. Senti uma pontada de quase arrependimento pela ausência, arrefecida em seguida com a explicação da modelo: “estou muito feliz no meio da minha gente”. Recuperado do rápido ataque de nostalgia, lembrei: estava nas alagoas de Graciliano Ramos, de “Caetés”, de Djavan, da “farinha boa”, e de Cacá Diegues, de “Bye, Bye, Brasil” e de “Deus é Brasileiro”.

Portanto, tinha muito para ver e aprender. Não poderia me deixar impressionar por tão pouco. Ainda assim, devo esclarecer: deixar Salvador nesta época é coisa que faço raramente, a não ser por cansaço ou tédio. Amo o carnaval da Bahia na receita original de sua fantástica mistura, embora reclame do excesso de botox e de cirurgias plásticas que têm alterado a face de uma das mais extraordinárias festas populares do País, a título de “profissionalização” e “autofinanciamento”.

É como se a folia baiana, famosa exatamente por sua fabulosa mistura de componentes culturais, nascida da espontaneidade participativa das ruas e das raças, se resumisse agora a um mero espetáculo de celebridades de fama duvidosa. Ou, pior ainda: simples questão de comércio, indústria e política, a que tudo parece se resumir, infelizmente, no Brasil dos dias correntes.

Desta vez, não resisti aos apelos do coração e da fadiga. Viajei para matar saudades nordestinas, principalmente do Rio São Francisco da minha meninice e adolescência. Navegar de balsa em sua foz, antes da anunciada transposição das águas já escassas – sabe-se lá para onde e para quem.

Rever Penedo, a incomparável localidade que extasiou Pedro II, na histórica passagem do Imperado por Alagoas, cujas marcas ainda se preservam nas ruas e pontos indispensáveis de visitação da cidade, neste período de celebração dos 200 anos do desembarque da Família Real no Brasil.

Até a placa da estrada de acesso a Palmeiras dos Índios, a cidade que um dia teve a felicidade de ter Graciliano Ramos – alagoano de Quebrânculo e maior referência estadual – como prefeito, é motivo de emoção renovada. Mais adiante, recordação do escritor e do seu conselho de que se deve escrever como as lavadeiras lá de Alagoas praticam o seu ofício. Vi algumas lavadeiras na beira do rio, nessa viagem. Elas executam seu trabalho ainda hoje, quase do mesmo jeito descrito por Graça.

“Começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem o pano, uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”, ensina o autor de “Infância”, em entrevista dada em 1948, que abre o site oficial do escritor.

] Os escritores nem sempre seguem as lições do mestre tão bem quanto as lavadeiras. Salvo algumas exceções, como Carlito Lima, que escuto com prazer e emoção no quarto do hotel, domingo de Carnaval, em uma entrevista à TV Assembléia, de Maceió. Ex-prefeito como Graciliano, criador, “com orgulho”, do carnaval de São Miguel, uma das únicas cidades onde se sente presença da folia de Momo na terra dos marechais, Lima é uma dessas figuras humanas surpreendentes e raras, a quem é fácil querer bem no primeiro contato.

Ex-capitão do Exército, engenheiro, boêmio, ambientalista, virou escritor e dos bons – aos 60 anos de idade. É o autor do livro “Confissões de um Capitão”, sucesso no país inteiro, com referências internacionais, considerado um dos melhores escritos sobre o golpe militar de 64. É um livro que todo mundo procura ansioso para ler, como fez o ator Antonio Fagundes, no Pontal do Peba, numa tarde de folga das filmagens de “Deus é Brasileiro”.

“Fagundes ficou encantado”, revela o diretor Cacá Diegues, com justo orgulho alagoano. O encantamento de que fala o cineasta se espelha nas histórias que Carlito Lima conta na entrevista à TV alagoana e escreve em suas crônicas.

Enquanto isso, as grandes emissoras do País se derramam em loas ao desfile do Galo da Madrugada, em Recife, às lagrimas de Naomi, no Ilê e às badalações dos camarotes. Na orla de Maceió como em todo percurso da via nordestina o que se escuta a todo momento é o sucesso “Beber, cair e levantar”, do baiano Marcelo Marrone, gravado por conjunto de forró em ritmo carnavalesco, que se eleva na contramão dos conselhos do Detran e do Jornal Nacional sobre a incompatibilidade da bebida com a direção.

Não adianta fugir: o carnaval resiste.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail:vitors.h@ig.com.br

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Comentários

rosane santana on 18 novembro, 2009 at 21:22 #

Vitor, muito lindo! Beleza pra se ler. Viva Carlito.


Carlito Lima on 20 novembro, 2009 at 23:27 #

OBRIGADO AMIGO VITOR HUGO, ASSIM É DEMAIS PARA MEU CORAÇÃO!!!!!!!!!!


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