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Postado em 17-11-2009
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 17-11-2009 15:05

Emanoel Araujo: abatido pela burocracia
Earaujo
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Deu em Terra Magazine

A revista digital Terra Magazine acaba de postar nesta terça-feira, 17, entrevista com Emanoel Araujo, 69, na qual o consagrado artista plástico baiano confirma que a sua exposição “Autobiobragia do gesto” esbarrou no muro da burocracia dominante da Secretaria de Cultura do Estado, e sucumbiu a golpes de “deselegância” e “amadorismo” da turma comandada por Marcio Meireles. Prevista para ocorrer a partir de novembro, a mostra não será mais realizada, revela o artista.

O périplo de Emanoel Araujo pelos corredores estatais não se encerrou no momento em que se ofereceu o dinheiro a prazo para a efetivação da mostra de um dos mais conhecidos e respeitados artistas baianos. Na semana passada – revela Terra Magazine – para o desespero final de Emanoel Araújo, exigiram-lhe “diploma de artista”. Sob o risco de provar quem era e o que fizera nos últimos 45 anos, o idealizador do Museu Afro Brasil abandonou o projeto. Irritou-se com o “amadorismo” da Secretaria da Cultura da Bahia.

Nascido em Santo Amaro da Purificação, com a mesma garra e vocação polêmica de outros conterrâneos famosos, como Caetano Veloso ou a matriarca Dona Canô, Araujo não deixa barato as ofensas que afirma ter sofrido ao longo de largos meses de contato com os encarregados da cultura local atualmente. Abre o jogo e conta tudo, tintin por tintin, na conversa com o reporter Claudio Leal, publicada na TM ( terramagazine.terra.com.br ). Marcio Meireles rebate e a polêmica está criada. Bahia em Pauta reproduz a seguir.

Vale a pena conferir

(Vitor Hugo Soares)

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Marcio Meireles: papelada legal
Meireles
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CLAUDIO LEAL

Prevista para ocorrer a partir de novembro, a exposição “Autobiografia do gesto”, do artista plástico Emanoel Araújo, 69 anos, empacou em burocracias do governo da Bahia e não será mais realizada. Isso é o rótulo do desentendimento. Na relação com a Secretaria de Cultura, ele provou “deselegância” e “amadorismo”, como define a natureza dos impasses.

Em 27 de outubro, o Palacete das Artes Rodin Bahia, em Salvador, abriu a exposição “Auguste Rodin, homem e gênio”, com 62 esculturas em gesso do artista francês, cedidas em comodato. Emanoel Araújo recebeu o convite para expor, paralelamente, a retrospectiva dos seus 45 anos de carreira. “Honroso e bem-vindo o reconhecimento de minha importância para o museu”, conta o artista.

Em 2002, ele idealizou o projeto com o diretor do Museu Rodin de Paris, Jaques Vilain, que estava em visita à Bahia.

– Me convidaram para a exposição e eu tratei de fazer os orçamentos. Chegamos a um valor, depois de muita batalha, de R$ 200 mil. Muitas idas e vindas de documentos, e eles não puderam passar para mim os recursos de 200 mil reais. Queriam que eu arranjasse uma produtora. Arranjei a produtora. Só que, para a produtora, eles deram uma notícia que achei um pouco estranha: dar 30% agora, 30% na abertura da exposição e 40% no final.

Araújo relata que isso inviabilizaria os gastos com transporte, seguro, passagens, catálogo, convite e folder – dependentes de pagamentos à vista. Cerca de 35 esculturas seriam transportadas. “Muito barato”, diz o artista, que conseguiu obter preço de custo com algumas empresas de São Paulo. A proposta de três parcelas o assustou.

– Pagar desse jeito, pra um Estado que todo mundo reclama porque não recebe, fica muito desconfortável pra mim. Uma produtora não pode pagar do bolso dela – critica, em conversa com Terra Magazine.

O diretor teatral e secretário da Cultura da Bahia, Márcio Meirelles, argumenta que as exigências nascem dos marcos legais. A papelada seria indispensável para a liberação de recursos e “o pagamento só poderia ser feito parceladamente, o que ocorre mesmo no carnaval”. Diz Meirelles:

– O Estado, como Estado, tem regras e marcos legais, porque senão a gente viveria em um Estado de barbárie. Não funciona assim e não deve funcionar. Uma pessoa com a excelência dele, com concepção de mundo e batalhas vencidas, não tem paciência pra lidar com essas coisas. Gostaria que fosse diferente – lamenta.

Baiano de Santo Amaro (BA), Emanoel Araújo é formado pela Escola de Belas Artes da Bahia. Curador-chefe do Museu Afro Brasil, em São Paulo, organizou, recentemente, a exposição “A minha casa baiana”, com o acervo do jornalista, poeta e colecionador Odorico Tavares, pernambucano radicado em Salvador.

DIPLOMA NO GUICHÊ

O périplo pelos corredores estatais não se encerrou no momento em que se ofereceu o dinheiro a prazo. Na semana passada, para o desespero final de Emanoel Araújo, exigiram-lhe “diploma de artista”. Sob o risco de provar quem era e o que fizera nos últimos 45 anos, o idealizador do Museu Afro Brasil abandonou o projeto. Irritou-se com o “amadorismo” da Secretaria da Cultura da Bahia.

– Uma coisa amadora, muito sem nexo. Porque se você convida um artista, é preciso que tenha estabelecido as coisas desde o princípio. Tinham pedido minha empresa, minha documentação, certidões negativas, e até que eu fosse ao ISS me inscrever. Até isso eu fiz (risos). Não consegui fazer tudo porque eles queriam, num guichê, que eu levasse o diploma de artista. E eu disse que artista não tem diploma! – protesta.

O secretário Márcio Meirelles afirma que não sabe “exatamente quais foram as exigências de papéis” ou “se o diploma de artista é uma metáfora dele para dizer que foi exigido uma documentação que comprove a notoriedade”, mas alega se tratar de uma exigência jurídica, para fundamentar a ausência de licitação.

– Deve ter sido feito isso, mas qualquer artista contratado pelo Estado tem que ter a comprovação. A gente tem que comprovar a notoriedade dele para contratar sem processo licitatório. Então, quem contatou a produtora dele, certamente nossa Diretoria de Museus, deve ter pedido alguns documentos. Mas nada foi feito pra ofendê-lo, apenas dentro dos procedimentos normais, legais, que a gente tem que seguir mesmo sem concordar.

Meirelles relata um encontro com Emanoel Araújo logo no primeiro conflito com os nós burocráticos. “Nós estamos aqui pra buscar uma solução. Não existe um problema. Você é uma solução”, teria dito ao artista.

Num diálogo recente, segundo Emanoel, Meirelles lhe pediu para conversar com o diretor de museus, Daniel Rangel. “Aí eu falei pra ele: ‘Você que tem que ligar. Ele não é meu subordinado’. Ficou calado”, conta.

“MONTAGEM AMADORA E DOMÉSTICA”

Ex-diretor do Museu de Arte da Bahia e da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Emanoel Araújo não camufla a indignação com o que chama de “deselegância”: “É a primeira vez que isso acontece na minha vida. E já sou um senhor” Garante que “não há mais clima” para retomar as negociações com o comissariado baiano.

– Uma coisa desrespeitosa, não pedi a eles para expor. É lamentável, tanto quanto essa exposição que está aí no Museu Rodin. Uma montagem amadora, doméstica… Está longe de ter um caráter internacional. É uma pena – alveja.

O secretário da Cultura discorda dos adjetivos usados para julgar a exposição “Auguste Rodin, homem e gênio” e defende o projeto da montagem no Palacete das Artes (a consultora científica do projeto na Bahia é a professora Heloísa Helena Costa).

– Evidentemente, se fosse feita por ele (Emanoel) ou a equipe dele teria outra orientação estética e conceitual. Mas foi feita por profissionais locais, o que acho importante também, porque é um processo de qualificação, de reconhecimento da existência de profissionais locais que podem dialogar com essa obra. O pessoal da comissão francesa e do próprio Museu Rodin aprovou o projeto museográfico. Não acredito que o Museu Rodin de Paris aprovasse um projeto que não dialogasse com o acervo.

Criticado também por artistas de teatro, música e literatura, além de produtores, pela condução da secretaria na Bahia, Meirelles detalha as dificuldades para trazer as esculturas ao palacete:

– Toda essa demora levou praticamente três anos e meio. Estive lá na França, estive com a embaixada aqui, demonstrei interesse em continuar com o projeto. Estive lá pessoalmente e conversei com o museu. Um processo muito longo, burocrático, com a França, com o governo francês. E eu acho que Emanoel também não suportaria… – mordisca o secretário.

Meirelles não considera justo que Emanoel se queixe de maltratos. “Não entendo ele dizer que foi maltratado. Eu era o representante do governo. Não o trataria mal de maneira nenhuma”, sustenta, para voltar a seduzir: “É um guerreiro. A minha admiração por ele é incondicional e indestrutível.”

Na quinta-feira, 19 de novembro, Emanoel Araújo vai discursar na inauguração do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), em Salvador, onde organiza a exposição “Benin está vivo e ainda lá – ancestralidade e contemporaneidade”. Há a expectativa de que solte as suas refinadas chispas contra a política cultural baiana.

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Comentários

Alcimar Azevedo Maia on 17 novembro, 2009 at 20:20 #

Como dizia o Governador Otavio Mangabeira: pense no absurdo, na Bahia há precedente. Seu Meireles tambem apresentou atestado de artista?


Diane oliveira on 18 novembro, 2009 at 12:33 #

Até o mundo mineral sabe da incompetência do governo Wagner e seu secretariado que destroí a Bahia e sua capital.
O secretário de turismo, então , é uma piada.


vagner santos on 18 novembro, 2009 at 17:50 #

amador, incompetente e deselegante são adjetivos que bem cabem ao secretario Marcio Meirelles e a como ele tem tratado a cultura e os artistas baianos, na ego-trip que só beneficia o seu teatro, o Vila Velha, um espaço privado, a propósito.


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