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Postado em 12-11-2009
Arquivado em (Artigos, Gilson) por vitor em 12-11-2009 01:29

Cuidado com o bolinho
BOLINHO
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CRÔNICA/ COMIDA TÍPICA

BOLINHO FAJUTO

Gilson Nogueira

Bolinhos boiam em uma pequena bacia de alumínio sobre o balcão de madeira de um quiosque de concreto e tijolos aparentes, quase em frente ao local de saída dos passageiros que desembarcam dos aviões que chegam ao Aeroporto Internacional Deputado Luis Eduardo Magalhães. Por Aeroporto Dois de Julho e Aeroporto de Ipitanga este equipamento da capital dos absurdos também é conhecido. Alô, alô Dois de Julho, quero seu nome de volta, no espaço que é seu, urgente!!!

O cheiro do azeite de dendê do bolinho que acaba de ser fritado impregna o ar de Bahia. Narinas abertas, porta de entrada do olfato, o cheiro viaja nas vias do cérebro e estimula-me o desejo de comer um deles. Com camarão e pimenta, que é como baiano que é baiano gosta, sem negócio de vatapá, salada e outros complementos que fazem do bolinho sanduíche de feijão. Modas do tipo, muitos filhos da Terra da Felicidade abominam. Aliás, baianos da gema de araque preocupam-se mais com a quantidade dos complementos do que com o bolinho como um todo saboroso.

A “baiana” gentilmente atende meu pedido. A ânsia de devorar o quitute faz-me pedir desculpas ao motorista que havia ido apanhar-me no Dois de Julho, ou melhor, no Luis Eduardo, ou…Ofereço-lhe um. O motorista não quer. Pago quatro reais, pelo bolinho, à “baiana”, e entro no carro. Sapeco a primeira mordida, na iguaria, e sinto que sua aparência me engana.

Por conta do camarão aferventado que o acompanha, o bolinho não me inspira confiança. A fome e a saudade de minha terra se misturam e fazem-me embarcar na hipótese de uma possível infecção intestinal, por engolir aquele camarão escuro, com pinta de terrorista.

Vou em frente. Nhac. nhac, nhac, nhac. Não sinto o gosto característico do bolinho. Tem mais, ele parece ter sido feito no óleo de soja, suponho. Alguma coisa impede sua massa de apresentar o gostinho característico. Pesada, bruta, sem gosto de feijão fradinho, é a massa. Como gosto não se discute, desisto de comê-lo e o guardo para atirá-lo na cesta de lixo. A Avenida Paralela não merecia aquele bolinho, apesar da merda que ela está, com seu engarrafamento que parece conduzir ao inferno.

O bolinho que conheço desde criança, quando os saboreava, ao pé do tabuleiro de Maria, no Relógio de São Pedro, após as aulas no Ginásio de São Bento, é outro. Ah, o nome dele é acarajé. Isso, a-ca-ra-jé! Ou acará! Ele é a marca da afroreligiosidadeculturalgatsronômicabaiana, ícone do povo que é de santo e de Bahia sem dendê no sangue, apenas, na frigideira. Dendês no sangue, alcunha nascida da verve do jornalista Tasso Franco, para esses enganadores da baianidade.

O bolinho que boiava na bacia deveria estar sendo vendido por uma baiana do acarajé autêntica, em seu traje de soberana no reino das delícias da comida de origem africana, em tabuleiro de madeira, ou de ouro, se possível, simbolizando, na principal porta de entrada da cidade, a magia desta terra que encanta os que a conhecem e a admiram por sua riqueza cultural, por sua alegria sincera, por seu povo festeiro, por sua forte participação na Independência do Brasil, por ter sido ela sua primeira capital.A Bahia com H, como canta João Gilberto.

Ao chegar na garagem de casa, o motorista, enquanto entregava-me as malas,educadamente, pergunta ! E aí, doutor, não gostou do acarajé?”

Não.

“ Pois é, os turistas, que não conhecem acarajé, acham uma delícia!”

Tudo bem, meu caro. Eles, os gringos – e não gringos – e os responsáveis pela gestão do turismo no Estado. Esses, por estar o acarajé sendo apresentado dessa forma, aos que chegam à Bahia , não estão nem aí, nem vão chegando, para absurdos como o do acarajé sendo vendido como se fosse um bolinho qualquer.

“ Boa noite”

Boa. Cuidado com o camarão !

Gilson Nogueira é jornalista

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Comentários

Regina on 12 novembro, 2009 at 2:01 #

Eita, amigo Gilson, voce voltou sapecando!!!!!
Mas esse acaraje ai da foto me deixou com agua na boca, tomara que a baiana se manque e acerte no camarao. Beijos.


Olivia on 12 novembro, 2009 at 11:00 #

Viva Otávio Mangabeira: Pense num absurdo, na Bahia tem um precedente.


Leleto on 12 novembro, 2009 at 12:27 #

Otávio Mangabeira já está mutio cansado, revirando no túmulo, de tanto citarem sua frase. Será que não tem uma verve neste estado que não crie outra frase?


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