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Postado em 11-11-2009
Arquivado em (Artigos, Claudio) por vitor em 11-11-2009 13:46

Bar em São Paulo ontem: luz de vela.
BRAZIL-BLACKOUT/

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Deu em Terra Magazine

A dupla afinada de repórteres da revista digital Terra Magazine, Claudio Leal e Diego Salmen, caminha na escuridão da madrugada de São Paulo, na noite do apagão no País, e revela o que pouca gente e praticamente nenhum veículo de comunicação noticiou – pelo menos com tanto talento, bom humor, perspicácia , visão crítica e – como de hábito – talento jornalístico.

Confira o texto que Bahia em Pauta reproduz, postado no day after do blecaute em TM (http://terramagazine.terra.com.br) (Vitor Hugo Soares )

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Claudio Leal e Diego Salmen

Sabem os paulistanos que andar a pé pelas ruas da capital durante a noite não é tarefa das mais seguras – esteja o flaneur na Cracolândia, nos Jardins ou Itaquera. Sem luz, a experiência pode variar entre um ato de valentia, onde todos são suspeitos em potencial, ou uma caminhada agradável. O atrativo, porém, é o mesmo: a penumbra.

Na Avenida Paulista, a queimação de maconha corre em liberdade, nos grupinhos que se sentam em frente a estabelecimentos comerciais fechados. Nas beiradas do Parque Trianon, o infatigável “trottoir” dos michês. Quatro garotos de programa zanzam na noite escura da alma.

Tradicionais pontos noturnos fecham as portas. Na praça Vilaboim, em Higienópolis, a banca de revistas 24h encerra o expediente. Coisa igual ocorreu somente em 2006, na noite dos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital). A lanchonete Fifties, na mesma praça, resiste ao apagão.

Na rua Haddock Lobo, outra baixa para a turma da ressaca. A padaria Bela Paulista, também 24h, suspende os trabalhos. Padeiros e atendentes ficaram à porta, num papo amistoso. Infortúnio semelhante ao de outras casas de pasto na rua Augusta.

De nome sugestivo, o Corujão é um dos poucos sobreviventes. Mesas espalhadas na calçada, reunia alguns dos zumbis dispersos na região. A geladeira estava desligada, apesar do boteco ficar bem de frente a uma sub-estação de energia.

– Tem cerveja quente aí?
– Só gelada.
– Mas como?
– Energia solar.
– Manda duas.

Nunca antes na história deste País houvera um apagão com tão poucas velas. Bem executado, o atendimento é realizado com o auxílio das luzes de telefones celulares. Casais e amigos se divertem.

– Se eu tivesse no Congresso, tinha luz nessa porra!

O relógio marca 00h09. Volta ligeira da luz.

– AEEEEE!

Cinco segundos depois, trevas novamente.

– AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!

Na esquina da Augusta, o rádio do carro irradia o embaraço do governo, porta-mala aberto.

– 20% da nossa energia vem de lá… 80% do Sudeste sofre com o apagão…

De outro carro, um grito a ser decifrado:

– Olha a mulher dando a luz ali!

O sumiço da energia redime o rádio como principal meio de informação na capital paulista. Porteiros, pedestres, motoristas colados no aparelho.

– A linha de transmissão… Desde 2007 se alerta o governo da existência de riscos na linha de transmissão…

Na rua Peixoto Gomide, o bar apinhado de gays notívagos, sentados no chão ou escorados na parede. Um grupo de seis pessoas forma uma roda, abastecida por cerveja, embaixo de uma árvore. A única mulher diz aos “miguxos”:

– Não tenho nenhum problema em namorar gays. Mas o cara precisa avisar! Já namorei muitos “bi”, meu. E já fiquei com mulher…

Uma da manhã, dezesseis funcionários do Hospital Sírio-Libanês fumam na saída da rua Barata Ribeiro. Os enfermeiros e a palavra repetida:

– Itaipu…

Os rostos iluminados apenas por farois. Viaturas deslizam no asfalto e lançam as luzes giratórias nos edifícios. O trabalho da polícia parece ter se intensificado para evitar que a cidade se transformasse em mote de livro para José Saramago. Em uma hora, mais de 10 viaturas cruzaram o caminho da reportagem. Felizmente, não houve enquadro.

Em alguns pontos da cidade, iluminações misteriosas, como na Rua Cel. Xavier de Toledo, na Estação da Luz e em hoteis e hospitais. Destaque para o prédio da Fiesp, cujas luzes natalinas reluziam despreocupadamente na Av. Paulista. Situação excepcionais, porém.

Largo do Paissandu, Consolação, Praça do Correio, Avenida Tiradentes, Pinacoteca, Batalhão da Rota, Praça Santos Dummont, Terminal Santana, Jardim São Paulo. Tudo no mais absoluto breu.

Caminhões avançam cruzamentos, sem sinalizações ou buzinas. Semáforos agora são meras convenções sociais, que oscilam entre a educação escandinava de alguns motoristas às tentativas de atropelamento. No centro, a linha 107P/10 acelera rumo à zona norte da cidade. De um passageiro:

– Hoje vai ser difícil para as putas ganharem dinheiro. Como vão mostrar o corpo?

Na Avenida Voluntários da Pátria, farois de carros denunciavam o vai e vem das garotas de programa, aparentemente despreocupadas com a falta de energia. Às 1h30, as luzes dos prédios começam a piscar, na Avenida Nove de Julho. Fez-se a luz. Do lado Centro, meia hora depois, ainda prevalece a escuridão. O mesmo na zona norte.

Enquanto isso, autoridades buscavam solucionar o apagão que atingiu 18 Estados e o vizinho Paraguai. Falha na transmissão? Explosão de gerador? Terrorismo? Sabotagem de Fernando Lugo? Quem apagar a luz por último é a mulher do padre.

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Comentários

Mariana Soares on 11 novembro, 2009 at 16:48 #

Claudinho e Diego, que texto maravilhoso! Quanta realidade e verdade em palavras tão leves e fáceis de digerir, apesar do real motivo que os levaram a este passeio na noite paulista que, apesar de escura, nos é mostrada com tanta luz e claridade por vocês!!! BRAVO!!! PARABÉNS!!!


olivia on 11 novembro, 2009 at 17:06 #

Nem um lanchinho na Bela Paulista amigos? Que horror!!!


Diego on 11 novembro, 2009 at 17:16 #

A última vez que alguém me fez um elogio assim foi quando minha mãe disse: ‘filho, você é lindo’. Devia ter uns dois dias de vida. Brigadíssimo! 🙂


Lu on 11 novembro, 2009 at 22:04 #

Achei lindo. Gosto de apagões. São momentos que nos fazem refletir sobre essa falsa normalidade urbana. Não sabem todos que o artificial é e será sempre frágil diante da força da natureza?


felipe on 12 novembro, 2009 at 9:01 #

legal a reportagem. mas como culpar o governo pro um acidente???/


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