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Postado em 08-11-2009
Arquivado em (Artigos, Claudio) por vitor em 08-11-2009 23:10

“Seu” Magno:”prazer da política verbal”
Magno
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PERFIL

ORA, MAGNO BURGOS

Claudio Leal

Nunca vi Magno Burgos pela primeira vez. O personagem se enroscou à primeira infância como o amigo de meu avô Luiz, ambos enredados em confabulações políticas na sala de visita. Havia na casa do Bonfim o uísque de “seu Magno”, sagrado e lacrado. No carrinho de bebidas, ninguém ousava sorvê-lo. E até se defenderia a inviolabilidade do gelo.

Esse tratamento antigo, “seu”, ressoava as docilidades da Santo Amaro dos maculelês e dos canaviais, transferidas aos modos urbanos da Bahia. Vitor Hugo Soares sorria ao ouvir “seu Magno”. Talvez lhe remetesse às cerimônias da pequena Glória, nas barrancas do São Francisco, onde a civilidade era também diversa.

No Bonfim, se o tempo me refluísse, surpreenderia Magno inteiramente “seu”: a camisa mal abotoada, a fumaça serpejante do cigarro, o uísque na mesa de folhas de tabaco. Sentado na ponta do sofá – evitava o recosto –, iniciaria a argumentação com um questionamento: “Mas, rapaz, o que esses cabras pensam?”. O tom pausado e veemente desenovelaria os fatos da semana ou da última executiva do partido. “Não é não, Magno”, ouviria o avô na contradita.

Às vezes interrompia os meus deveres escolares para assistir aos dois no teatro da grande política, a que ainda se praticava ao lado de Antonio Guerra Lima, Chico Pinto, Fernando Sant’Anna, Inácio Gomes, Jorge Medauar, Rômulo Almeida, Sérgio Gaudenzi, Ulysses Guimarães, Virgildásio Senna, Waldir Pires, tantos homens.

Entrevistar os políticos contemporâneos, por imposições do jornalismo, magoa as heranças dessa arquitetura de vozes, que me impunha o compromisso com o homem, a vida e os calores de um debate, e bem pouco com os delírios do poder. Penso na letra de uma música de Chico Buarque, “Trapaças”, composta para Ulysses Guimarães na campanha de 1989. Ela recupera o sentido dessa arte da conversa entre os egressos do MDB (mais lá atrás, PSD e PTB), com mil intenções escamoteadas por gentilezas mútuas, regada a idealismos passionais, mas nada ingênuos: “Contigo aprendi/ A perder e achar graça/ Pagar e não dar importância/ Contigo a trapaça/ Por trás da trapaça/ É pura elegância”.

Como era elegante esse jogo de acenos. Magno Burgos transmitia o prazer da política verbal, do manejo adequado do humor, da língua, nas situações mais tensas. Suas tribunas: os cafés e os bares. Havia a lenda do terceiro uísque. Depois dessa dose, ele elevava a polêmica às alturas, fazia provocações sarcásticas. Pude comprovar que isso não passava de uma lenda. Magno polemizava somente a partir do primeiro copo. Nos últimos anos, nem precisaria beber. Balançava a cabeça, como quem abatia a estupidez no ar, dava um riso nervoso e indagava: “Você não está vendo que não sou nenhum idiota? Ora, senhor”. Irredutível em suas teses para ser generoso em todas as coisas vãs.

A quem acompanhou a paixão diária pelos destinos brasileiros, ouvindo-o cantarolar Ary Barroso depois de um debate ferrenho, a insinuar o valor da amizade acima das opiniões, a morte de Magno Burgos enternece, num desconsolo. Nele transparecia o mais próximo amigo dos filhos Daniel, Cristiano e Leonardo, pela jovialidade da interlocução, sempre sábia e repleta de lugares-incomuns. Ao contrário de Mallarmé, leu todos os livros e não tinha a carne triste. “Melhor andar à toa do que ficar parado à toa”, dizia, lembrando a frase do pai, antes de propor uma água de coco.

Se você tivesse o jornalismo por ofício, como este escrevinhador, Magno encarnaria o vulto do poema de João Cabral de Melo Neto, “A Willy Lewin morto”, dedicado ao intelectual pernambucano, decisivo em sua formação (apresentou-lhe os poetas surrealistas): “Se escrevemos pensando/ como nos está julgando/ alguém que em nosso ombro/ dobrado, imaginamos…”. Ele materializava esse fantasma da escrita, o homem que prelê o que fazemos, pairando sobre nosso ombro, de quem buscamos “o sim e o desagrado”.

E havia a indicação de livros, de artigos, de revistas. Seus duelos livrescos com Guerrinha: Eça e Machado, estilo e conteúdo, Balzac e Flaubert. Lembro-me de ouvi-lo aconselhar meu pai: “Chegou a hora de você ler Heródoto”. Indicou-me “A curva da estrada”, do romancista português Ferreira de Castro. A curva do livro era a que se insinua ao político em fim de carreira, tentado a trair os princípios. A sabedoria da renúncia ao poder – o que o estimulava a comparar o personagem Soriano a Chico Pinto, precocemente afastado da política. Corri os alfarrábios da Praça Tiradentes, no Rio, em 2005. Lá estava o volume de Ferreira de Castro, em edição portuguesa, com a aquarela difusa na capa: braços levantados, homens engalanados, a bandeira vermelha. Meti o livro na mala e fui ali perto ao lançamento de José Saramago, “As intermitências da morte”. Vendo-me sobraçar o romance do outro português, pedi-lhe a opinião. Folheou “A curva da estrada”, risonho.

– Líamos muito há uns anos. Mas hoje está um tanto superado.

Ferreira de Castro antecipou um desencanto com o socialismo quando Saramago ainda estava investido de ilusões ideológicas. Magno divertiu-se com a reação do Nobel de Literatura, mas reafirmou o valor do livro para qualquer homem público.

O comportamento que mais o irritava era ver alguém se declarar “sem lado” (Olívia Soares lembrou esse aspecto no necrológio). Uma tarde presenciei seu ataque a um desconhecido contrário à tríade MST-Lula-Esquerda, mas disposto a pairar sobre o PT e o PFL. “Pare de dizer que você não tem um lado”, reagiu Magno. “Um fascista e um comunista se conhecem de longe. Você é um fascista, eu sou um comunista, nunca vamos nos entender!”. Pegou os jornais, “boa tarde, meu filho”, e foi embora. Minutos depois, espreitou a mesa e me surpreendeu novamente sozinho. “Era só pra me livrar daquele chato. Eu não agüento, não…”.

Agora que a morte nos impõe um sentimento uniforme, elaboro mil teorias para explicar essa existência tão original, firme na subversão do cotidiano pelas leituras de contracorrente, inversas às dos jornais. Apesar de ele ter sido vereador em Londrina, vislumbro em Magno um daqueles personagens de Balzac, prenhe da História e ocupado nos desvios da corte, entretanto mais interessado nos bastidores, certo de que o poder absoluto lhe valeria menos do que a observação livre da comédia humana. Preferiria freqüentar as tertúlias da marquesa de Listomère do que integrar o governo de Napoleão. Não serei incompleto: Magno desejaria a companhia de Napoleão num jantar da marquesa. Era um afinado conhecedor do corso, de Balzac e dos pais fundadores dos Estados Unidos.

Quem lhe saboreou as frases? “Há uma grande diferença entre os homens da minha geração e a garotada que foi para a luta armada. Quando nós acordamos para a política, caímos numa democracia, a de 1946. Os garotos da guerrilha, quando despertaram para política, caíram numa ditadura, a de 1964. É bem diferente.” Numa crítica ao caudilho gaúcho: “Brizola é aquele tio que conquistou o direito de mijar na sala”. Antecipando-se ao desconcerto de um amigo quase obrigado a aplaudir o discurso de uma adversária: “Não precisa aplaudir essa não. Deixa comigo. De palmas eu sou ótimo!”. E mais: “Se ele for candidato ao Senado, votarei no suplente”. Meu irmão, Luís, outro interlocutor contumaz, testemunhou sua proeza de preservar, durante décadas, a primeira e a última página de “Thais”, romance de Anatole France: “Naquele tempo o deserto era povoado de anacoretas”, desatou a ler de dentro.

O escrever tem as danações de apaziguar Magno, trancafiá-lo em julgamentos lineares, em sentenças sobre sua ausência nos cafés. Somos trezentos, trezentos e cinqüenta, e nada alcançáveis por palavras. Bem mais inglório o desafio da escrita quando o ausente é uma presença em nós refletida, na incerteza do sim, do desagrado e do silêncio. Ora, senhor.

Claudio Leal, jornalista , mora em São Paulo e trabalha na revista digital Terra Magazine.

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Comentários

rosane santana on 8 novembro, 2009 at 23:27 #

Claudio,
Belissimo! ^Seu^Magno deve estar orgulhoso de voce. Obrigada por me presentear com essa leitura antes de dormir. Tudo vale a pena se alma nao ~e pequena, ja disse Fernando Pessoa. Seu texto ~e um voo nas alturas. Voce certamente anda preenhe das leituras e das conversas com seu Magno e aquele time de 1.a da politica, que seu avo faz parte.


Luiz Nova on 9 novembro, 2009 at 0:20 #

Cláudio, me contive para não fazer comentários, até o momento em que li seu texto. Explico: “seu” Magno era daquelas figuras que impunha respeito a todos, como seu avô é. Não está em pauta concordar ou discordar politicamente. É outra a questão. Estas pessoas impoem um silencioso respeito e a manutenção da distância considerada regulamentar, a quem é “capiau”, como eu. Foi assim que me comportei nos mometos em que o via passar pelo Shopping Barra. Nestas condições, seu texto me fez compreender que o silênco, agora, é injusto com quem se manteve honesto, por entender que este é o único capital que vale a pena. O “seu” Magno era desse tipo. Não é justo que não deixe isto registrado.
abraço, Luiz.


Ivan de Carvalho on 9 novembro, 2009 at 2:39 #

Lindos. O artigo e “seu” personagem. Teve boa razão para que lhe dessem o nome de Magno.


Ceci on 9 novembro, 2009 at 6:58 #

Lindo, amigo. Que ele vá com Deus.


inacio gomes on 9 novembro, 2009 at 8:36 #

Chico Pinto; Jaime; Ronilda; Lapa e agora Magno. A resistencia sem a qual os pragmaticos de hoje não estariam no poder. Pragamaticos que em sua maioria não llhe foram dar o adeus. Foi uma lição, um prazer e uma honra conviver com você.


Olivia on 9 novembro, 2009 at 9:22 #

Quantas vezes ouvi “ora senhor” ao final dos embates mais acalorados no “senadinho” do Shopping Barra. E quando ele pegava seus pertences – jornais, revistas e remédios e saía arfando, “assim não dá”, tá demais… São tantas as lembranças. Bela homenagem, Claudinho. Seu Magno tinha um orgulho danado de você. Vou imprimir e entregar a cada “senador”, pois, exceto Guerrinha, Ivo e mais uns dois, eles resistem ao computador. Viva Seu Magno, sempre.


Leleto on 9 novembro, 2009 at 10:06 #

Com esse artigo nada mais deve ser escrito sobre seu Magno. Pela pouca convivência que tive com ele no “Senadinho” essas palavras é um breve relato, porém denso, desse que podemos realamente chamar de comunista, na mais absoluta acepção da palavra.
Parabéns Claudinho.


Cristiano burgos on 9 novembro, 2009 at 13:39 #

Prezado Claudinho,
Em nome da família e de meus irmãos, principalmente, só posso dizer muito obrigado pelas deliciosas palavras sobre o bom e velho Magueu, meu pai.
Olivia está certa quando observa da enorme admiração dele quanto ao grande jornalista que é e será, sempre.
Muito obrigado.
Cristiano Burgos


Marcos Vinícius on 9 novembro, 2009 at 14:24 #

Não tive o privilégio da companhia de Seu Magno, mas, pelos relatos a seu respeito e pela sua história rendo minhas homenagens a este bravo Homem. Parabéns, Claudinho, belíssima homenagem.


Daniel de Castro Burgos on 9 novembro, 2009 at 14:45 #

Claudinho,

Belo texto, a adimiração de meu pai por você era recíproca a sua por ele. Sempre me dizia “este menino é muito preparado, vai longe”.
No seu texto fica claro o quanto você o conheceu, o escutou e o absorveu, o que mostra o grande observador que você é. Traduziu meu pai de forma magnífica.

Obrigado Amigo,

Um abraço fraterno

Daniel


Omar Torres on 9 novembro, 2009 at 15:19 #

Para quem, como eu, ainda sonha e luta para transformar sonhos em realidade, ter convivido com a sapiencia, a integridade, a resistencia e a coerencia de Magno Burgos, Luis leal, Fernando e demais Santanas, Carlinhos Marighella, Emiliano José, Rômulo e Eduardo Almeida, Ênio, Waldyr, Euclides Neto, João Saturnino e outros grandes homens, dá um orgulho danado e uma enorme vontade de abraçar e agradecer a Claudinho, ainda que não o conheça pessoalmente, mas acredito que é um dos nossos.


Regina on 9 novembro, 2009 at 16:06 #

Claudinho:
Um grande homem nunca morre quando suas palavras e licoes sao absorvidas por novos grandes homens que os sucedem. Suas palavras, magistralmente redigidas, sao uma homenagem ao grande home que se foi e um reconhecimento de que sua historia, seus pensamento, sua luta gerou frutos.
Parabens! Sinto orgulho de saber que voce faz parte desse nosso grupo.


Luciano on 9 novembro, 2009 at 17:59 #

Estive umas duas vezes no “Senadinho” e tive o prazer de sentar à mesa (como fala Dudu) ao lado de Seu Magno. Parabéns Claudinho, e um forte abraço aos filhos de Magno, sua família e amigos.


Luis Leal Filho on 9 novembro, 2009 at 22:13 #

Você, Vitor e Olivia são jornalistas subversivos. Me retiraram da apatia ao retratarem e realçarem a personalidade de Magno Burgos, levando-me a sair da minha cripta. Faz tempo que não escrevo e não podia deixar de me atrever a escrever, novamente. Devo agradecer, antes de tudo, às generosas palavras de Vitor Hugo.

Depois verifico que Magno touxe à tona personalidades que merecem ser reverenciadas em vida, pela honradez e seriedade com que sempre pautaram suas atividades. Luiz Nova nos faz falta. Sentimos isto quando buscamos homens públicos dignos e coerentes. Não que eles não existam, ou não estejam atuando, mas pela falta que faz um deputado da estirpe de Luiz Nova. Também me toca fundo observar o conteúdo do que escreveu Ignacio Gomes, tão atuante na luta pela redemocratização do Brasil, quanto defensor de presos políticos.

Temos que reverenciá-los em vida. Ele cita, por exemplo, Dr. Jayme Guimarães, de quem já ouvi alguns esporros merecidos e cuja presença, em minha memória, vive. De Chico Pinto, tenho muitas recordações que ficam além dos bolinhos de arroz e da vitamina de abacate que tomávamos juntos, eu, ele e meu pai. Eu me deliciava por estar na Cubana, ouvindo dois “subversivos” dialogando sobre tantas coisas interessantes.

O rol de citados poderia ser muito mais elevado, mas seria cansativo para o nosso estimado Ignacio Gomes elenca-los, um a um. Poderia suscitar injustiças. Magno fazia parte de todo este rol de gente que nos faz relebrar fatos marcantes, desde o uísque aos livros que ele recomendava. Magno Burgos me trouxe muita luz.


Luis Leal Filho on 9 novembro, 2009 at 22:18 #

Agradeço, de modo especial, a Vitor Hugo, que foi muito generoso comigo. Você, Vitor, sempre nos enxerga com os olhos da bondade. Uma bela virtude!
Parabéns a todos !


Magali Leal on 10 novembro, 2009 at 16:08 #

Quando soube que Magno havia morrido, fiquei parada. Não senti nada.
Um filme passou pela minha cabeça.
Ele sempre fez parte de minha vida.
Quando digo sempre, é sempre, não existe noção de tempo nem espaço.
Foi dessa forma que pensei na morte de Magno. Como a pessoa que sempre foi na minha vida.
Como a pessoa que, ao pensar em sua morte, senti que nunca morreu.
Magno poderia até admitir a existência da morte porque não poderia contestá-la como o fim.
Mesmo depois dela, com suas caretas ao expor uma opinião, para mim, sempre incontestável porque as suas opiniões eram tão fortes e arraigadas a sua personalidade que eu tinha a impressão que não se conseguiria arrancá-las sem lhe tirar um pedaço, mesmo diante da morte, imagino quanta polêmica ele criou até ceder a esse momento. Ela (a morte) deve ter ficado confusa com suas argumentações.
Então ela(a morte) resolveu deixar Magno vivo para nós.
Magno é dessas pessoas que não “conseguem” morrer.
E você, Claudinho retratou “seu” Magno tão vivo quanto o que penso dêle, agora.


Carmela Talento on 11 novembro, 2009 at 10:53 #

Belíssimo texto em sintonia com a figura de Magno Burgos.


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