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Postado em 06-11-2009
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 06-11-2009 23:22

Memórias de Nery: política e polêmica
SNery
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ARTIGO DA SEMANA

“O QUE FICOU DO QUE PASSOU”

Vitor Hugo Soares

Na apresentação do livro “Dias Idos e Vividos”, a antologia do escritor José Lins do Rego (publicada in memoriam), uma citação de Goethe veste com perfeição e elegância a figura do escritor nordestino de obra universal: “Eu não tenho feito outra coisa, na vida, que tirar proveito das coisas vividas”.

Difícil achar palavras mais apropriadas para iniciar este artigo sobre dois assuntos vinculados entre si e que calam fundo na formação e nos sentimentos do autor destas linhas: o aniversário do “Diário de Pernambuco”, o mais antigo jornal da América Latina, neste sábado, 07; e o lançamento nacional de “A Nuvem – O que ficou do que passou” , livro de memórias do jornalista baiano Sebastião Nery, na segunda-feira, 9, em Recife – um explosivo e denso depoimento político e pessoal. “Espremi minha vida”, confessou Nery esta semana, em reveladora e polêmica entrevista à revista digital Terra Magazine.

“Os dois eventos fazem Recife ferver nestes dias quentes de pré-verão”, informam amigos queridos que conservo na Veneza Brasileira, em telefonemas generosamente convidativos. É quase certo que o aniversário do DP e o livro de Nery farão ferver também a política nacional nestes e nos próximos dias: de Salvador a Brasília e Minas, e do Rio a São Paulo.

Desde o começo desta semana, quando li a entrevista do veterano jornalista Sebastião Nery ao jovem repórter Claudio Leal (baiano de Itapagipe), bateu uma vontade danada de voltar e estar na capital pernambucana. Vontade tão intensa quanto a que experimenta nos tempos de infância e juventude. Então viajava léguas para brincar nos carnavais de Capiba e Nelson Ferreira.

O fato é que conservo marcas profundas de quem nasceu em uma cidade da margem baiana do Rio São Francisco (Abaré), a poucos quilômetros da pernambucana Cabrobó, marco zero das obras de engenharia do faraônico, bilionário e polêmico projeto de transposição das águas do rio, tocada pelo governo Lula, que há poucos dias andou por lá “fiscalizando”, com a ministra Dilma Rousseff debaixo do braço..

Bem perto fica também a cidade de Santo Antonio da Glória, pertinho dos rugidos da cachoeira de Paulo Afonso. Em Glória, no tempo da construção da primeira grande hidrelétrica da CHESF no Nordeste, passei os melhores anos da infância, olhando para Pernambuco, na outra beira do rio. Acordava diariamente com a casa da família sintonizada na Rádio Jornal do Comércio “falando para o mundo”. Notícias de Miguel Arraes, de Agamenon Magalhães, de Francisco Julião, de Cid Sampaio, das grandes pelejas eleitorais para governador do Estado ou presidente da República.

Depois vinham os frevos de Capiba, os baiões geniais de Luiz Gonzaga, o relato dos fatos do dia na polícia e na política, os casos da gente elegante e na “última moda do “Ricife”. Chegava também da margem oposta do Velho Chico, o Diário de Pernambuco, jornal aguardado na cidade com tanta expectativa quanto o exemplar semanal da revista O Cruzeiro, também dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, como o DP, que vinha do Rio de Janeiro para a casa de Seu Mendes, o distribuidor local.

Neste sábado, o Diário de Pernambuco, idealizado pelo comendador Antonio José de Miranda Falcão, festeja 184 anos de vida e presença marcantes, com merecida pompa e circunstância. O mais antigo jornal da América Latina – foi fundado a 7 de novembro de 1825 -, é um exemplo raro de longevidade e coerência com a sua história e os princípios liberais que sempre defendeu.

O DP – constato agora – não parou no tempo nem dormiu enquanto os fatos e as mudanças no mundo e no Brasil passavam em sua porta, como fizeram grandes jornais do passado, hoje mortos e enterrados, ou quase moribundos. Atualizou-se sempre, “sendo esse constante empenho um dos trunfos de sua longa vida”, leio em sua edição on-line. Dispõe atualmente de um dos mais avançados parques gráficos do País e ostenta ainda outro importante título: é a mais antiga publicação do mundo editada em língua portuguesa, segundo informa o seu site na Web.

De ponta a ponta exibe uma história fascinante de lutas, erros e acertos na construção de um jornal que faz 184 anos, e caminha com passos firmes para festejar os 200. Pernambuco tem motivos de sobras para ferver e frevar neste aniversário de seu diário. E a Bahia vai estar bem representada na festa.

Na segunda-feira, 09, em Recife, Nery lançará como parte das comemorações, “A Nuvem – O que ficou do que passou” (Geração Editorial), o livro que – como assinala Terra Magazine na apresentação da entrevista de dos mais polêmicos jornalistas do País – condensa 50 anos de vida profissional e política. A aventura se inicia no internato de seminarista, na Bahia, e se estende até os anos 90.

“Nesse rastro de evocações”, surgem os presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, os ditadores do regime militar, Tancredo Neves, José Sarney e Fernando Collor. Além da drástica e dramática narrativa do rompimento com Leonel Brizola, quando o gaúcho o colocou diante de um dilema impensável para Nery, que acumulava sua atividade jornalística com a de combativo e combatido deputado federal: largar o jornalismo para permanecer em um dos cargos de comando nacional do PDT de Brizola, que o baiano então ocupava.

E mais não conto para não tirar a graça e quebrar o suspense. Quem desejar saber mais leia o livro ou vá à festa do Diário de Pernambuco, para beber diretamente da fonte. Agora o que faço é uma saudação comovida ao DP, “madeira que cupim não rói”, como o bloco do Recife cantado no frevo lendário de Capiba.

Bravo!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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