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Postado em 04-11-2009
Arquivado em (Artigos, Olivia) por vitor em 04-11-2009 18:33

Bahia em Pauta reproduz a seguir, neste 4 de novembro de homenagens em Salvador e em várias partes do País, pela passagem dos 40 anos da morte de Carlos Marighella, o texto produzido pela repórter Patrícia França, publicado no jornal A TARDE, edição do último domingo. Passado, presente e futuro neste relato sobre a vida, lutas e legados (intelectual inclusive) de um revolucionário baiano do tamanho do Brasil.Colaborou Maria Olívia. Confira.

Túmulo de Marighella em Salvador
tumartighella
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MEMÓRIA

“Não tive tempo para ter medo”. A frase gravada na lápide de mármore desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e que está exposta no túmulo de Carlos Marighella, no Cemitério Quinta dos Lázaros, resume a trajetória de luta e ideal libertário do líder comunista baiano assassinado no dia 4 de novembro de 1969, em São Paulo, numa emboscada das forças repressoras do regime militar. A figura humana em posição de luta e cinco projéteis de escopeta cravados na altura do peito – formando a constelação Cruzeiro do Sul, que também consta no centro da bandeira brasileira – completam a criação que denuncia a perseguição aos que lutaram contra a ditadura militar em defesa da democracia.

O tombamento como patrimônio da municipalidade do túmulo concebido por Niemeyer é um dos muitos atos que estão sendo programados em Salvador, São Paulo e no Rio de Janeiro para relembrar a passagem dos 40 anos de morte de Carlos Marighella. As atividades serão abertas nesta quarta-feira, data em que o ex-deputado comunista tombou assassinado no centro de São Paulo, com a inauguração de uma placa na Alameda Casa Branca.

Foi neste local que Marighella foi surpreendido por uma operação comandada pelo então delegado do Dops (Departamento de Ordem e Política Social) Sérgio Paranhos Fleury – conhecido pela crueldade com que perseguia opositores do regime militar. Manifesto As pichações que hoje desfiguram a obra do arquiteto Oscar Niemeyer, comunista e igualmente perseguido pelos militares, reforçam a importância das homenagens que instituições como Tortura Nunca Mais, Memorial da Resistência, governos da Bahia, de São Paulo e Rio de janeiro e Secretaria Nacional de Direitos Humanos, além de camaradas de luta, como Luís Contreiras e Fernando Santana, prepararam para homenagear Marighella.

Um documento intitulado Manifesto em Memória de Carlos Marighella está circulando na internet e tem a adesão de nomes como Fábio Konder Comparato, jurista e professora da USP; o escritor Fernando Morais; Frei Betto e Leonardo Boff; cineasta Sílvio Tendler, Wagner Tiso e o crítico Antônio Cândido. As homenagens ao herói da resistência se estenderão até o dia 10 de dezembro.

O advogado e ex-deputado estadual Carlos Marighella Filho, que só aos 8 anos de idade conheceu o pai, forçado que foi a viver na clandestinidade, o define como uma pessoa “desassombrada” e de “ação”, características que o próprio Marighella revelou ao dizer, numa entrevista concedida em 1968, que não teve tempo para ter medo. Comunista como o pai e também vítima da repressão – foi torturado pelo coronel da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra e condenado com 14 comunistas baianos pela Lei de Segurança Nacional –, Marighella Filho revisita a memória e fala do pai, que se tornou militante do PC aos 18 anos e fez da poesia a arma de luta pela liberdade.
A primeira prisão de Marighella foi consequência de um poema tecendo críticas ao interventor da Bahia, general Juracy Magalhães, em 1932. Obrigado a interromper os estudos por conta da militância, vai para o Rio de Janeiro. Em 1936, é preso novamente, depois passa seis anos no presídio de Fernado de Noronha. Marighella Filho lembra que um jornal da época, estampando a foto do pai com um outro comunista, ambos com hematomas no rosto, trazia a seguinte manchete: “Em nome da boa profilaxia social, a polícia do Rio de Janeiro acaba de prender dois homens afetados de comunismo”. “Toda aquela violência contra um poeta era justificada, como se fosse uma doença contagiosa” , lamenta o filho sobre o pai.

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Capa da revista no tempo da covardia
Vemarighella
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MEMÓRIA

POETA DESDE O GINÁSIO DA BAHIA

No Ginásio da Bahia ficaria notória a prova de Física que o estudante Carlos Marighella respondeu em 40 versos, cujo tema era “Catóptrica, leis de reflexão e sua demonstração, espelhos, construções de imagens e equações catóptricas”. Cursava, então, o 5º ano do Ginásio da Bahia, em 23 de agosto de 1929, aos dezoito anos. O tema da prova fora sorteado na sala de aula, antes do exame, um detalhe pouco conhecido. Marighella assim respondeu:


Doutor, a sério falo, me permita,
Em versos rabiscar a prova escrita.

Espelho é a superfície que produz, Quando polida, a reflexão da luz.
Há nos espelhos a considerar
Dois casos, quando a imagem se formar.

Caso primeiro: um ponto é que se tem;
Ao segundo um objeto é que convém.

Seja a figura abaixo que se vê,
o espelho seja a linha betacê.

O ponto P um ponto dado seja,
Como raio incidente R se veja.

O raio refletido vem depois
E o raio luminoso ao ponto 2.
Foi traçada em seguida uma normal
o ângulo I de incidência a R igual

Olhando em direção de R segundo,
A imagem vê-se nítida no fundo,
No prolongado, luminoso raio,
Que o refletido encontra de soslaio.

Dois triângulos então o espelho faz,
Retângulos os dois, ambos iguais.

Iguais porque um cateto têm comum,
Dois ângulos iguais formando um.

Iguais também, porque seus complementos
Iguais serão, conforme uns argumentos.

Quanto a graus, A+I possui noventa,
B+J outros tantos apresenta.

Por vértice opostos R e J
São iguas assim como R e I.

Mostrado e demonstrado o que é mister,
I é igual a J como se quer.
Os triângulos iguais viram-se acima,
L2, P2, iguais, isto se exprima.

IMAGEM DE UM PONTO

Atrás do espelho plano então se forma
A imagem, que é simétrica por norma.

IMAGEM DE UM OBJETO

Simétrica, direita e virtual,
E da mesma grandeza por final.

Melhor explicação ou mais segura
Encontra-se debaixo na figura.

A prova em versos rendeu a Marighella nota dez e ficou exposta no corredor do colégio até 1965, protegida por uma moldura envidraçada, como exemplo para os demais estudantes. O Ginásio da Bahia ficava no Bairro de Nazaré, hoje Colégio Central.

(Maria Olivia, jornalista)

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Comentários

Marcos Vinícius on 5 novembro, 2009 at 9:54 #

Tenho 25 anos e só agora tive o prazer e honra de conhecer um pouco mais deste bravo combatente das liberdades que honra o Brasil. Foi muito bom ler este poema/resposta de Carlos Marighella. Vida mais que longa ao Bahia em Pauta, sempre em frente!


Carlos Neto on 5 novembro, 2009 at 15:44 #

Parabéns ao Bahia em Pauta pelo resgate histórico. Viva Marighella, sempre! Sua luta e sua morte não foram em vão, hoje estamos mais livres para expressar nossas idéias e pensamentos graças a homens da sua envergadura moral.


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