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Postado em 31-10-2009
Arquivado em (Artigos, Janio, Multimídia) por vitor em 31-10-2009 15:54

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CRÔNICA / LUGARES

Enquanto não chegar ao Leblon…

Janio Ferreira Soares

Recentemente estive no Rio de Janeiro, e a cidade continua linda e aparentemente tranquila. Pelo menos naquele pedaço que liga Copacabana, Ipanema e Leblon, sempre cheio de gente bonita e de dezenas de botequins frequentados por ubaldos e carusos, que tanto pode nos remeter a um fim de tarde em Itaparica ou a uma charge na primeira página de O Globo, quanto a uma novela de Manoel Carlos, aí dependendo do gosto do freguês.

O problema é o que rola no lado B da cidade depois que o Hotel Marina acende suas luzes e a Rocinha, Vidigal e adjacências também começam a piscar as suas num belo e assustador sincronismo, cujo resultado a gente só fica sabendo pelos jornais do dia seguinte. Aliás, a violência que acontece quase diariamente nas favelas do Rio me lembra aquelas chuvas de verão que inundam os fins de tarde de São Paulo.

Quem as vê pela televisão tem a impressão de que toda a cidade está um caos. Mas, para quem está na região dos Jardins ou na Av. Paulista, a realidade é outra.

É o que ocorre no Rio. Enquanto o couro come nos morros e favelas, as praias e bares da zona sul continuam lotados, nem aí pras balas traçantes que cortam os céus da Guanabara. E para a grande maioria que entorna um chope atrás do outro como se não houvesse amanhã, aqueles morros nada mais são do que uma espécie de mantenedores oficiais, cuja função é fazer chegar a eles o pó que inspira certos discursos repletos de sociologia barata e adornados por dialetos cheios de gírias e outros babados.

A propósito, Fernanda Torres escreveu uma genial peça que está em cartaz por lá, cujo título é Deus é Química. Conta a história de um casal (ela e Luiz Fernando Guimarães) que enquanto espera uma pizza acompanhada de 200 gramas de pó, assiste de um apartamento em Ipanema a uma guerra entre policiais e bandidos.

De uma forma bem humorada, Fernanda (ela mesma uma ex-viciada em cocaína) consegue chamar a atenção para esse tema tão polêmico, e ainda faz uma profecia. A de que, em breve, essa guerra pode finalmente chegar à zona sul. Aí, essa gente bronzeada que faz de conta que não tem nada a ver com isso, talvez acorde pro mundo. Ou continue pedindo uma pizza. Com a borda bem branquinha, faz favor.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA), na região do Vale do São Francisco )

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