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Postado em 30-10-2009
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 30-10-2009 23:03

Nos comícios do tupamaro Mujica…
festpolitica
…e do liberal Lacalle: festa democrática
Lacalle
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ARTIGO DA SEMANA

NA BAHIA DE OLHO NO URUGUAI

Vitor Hugo Soares

Dos lugares por onde já passei no mundo, um dos que mais gosto fica bem ali, minúsculo geograficamente mas imponente em sua presença marcante na história política e social da América do Sul. Sim, estou falando do Uruguai, que chamo sempre pelo nome completo – República Oriental do Uruguai. Assim como seus cidadãos de origem o fazem, com o justo orgulho cívico desta gente firme e participativa, principalmente em tempos de campanhas políticas como agora, quando se decide a escolha do sucessor do presidente Tabaré Vasquez.

Sejam partidários da Frente Ampla, de esquerda, do candidato José Mujica (ex-tupamaro amigo pessoal de Lula); sejam os adeptos do Partido Nacional, do liberal Luis Lacalle (admirador de FHC ), dá gosto ver a intensidade dos comícios e a maciça presença popular nas urnas. Assim, recomendo a quem gosta do bom combate político e debate de programas e ideias, dar uma olhada mais atenta na casa do vizinho a partir deste fim de semana, quando recomeçam os eletrizantes comícios da fase decisiva.

No primeiro turno o Uruguai já foi uma festa democrática de dar inveja, como sempre. O índice de comparecimento às urnas beirou os 90% do eleitorado apto a votar. Fato digno de admiração até mesmo naqueles países tidos como os mais civilizados e democráticos do planeta. Os Estados Unidos ou a França, inclusive.

Para muita gente, no entanto, aquele bravo pedaço do continente não passa de um prosaico balneário para repouso e lazer de aposentadas celebridades de Hollywood, com palacetes construídos em Punta Del Este. Ou belo recanto de novos ricos paulistas, gregos e baianos que ultimamente se esbaldam entre Montevidéu e Punta Del Este. Há ainda também quem veja o país como mais um desses paraísos fiscais espalhados pelo planeta. Lugar onde governantes, políticos e empresários corruptos costumam esconder do Fisco e das CPIs suas fortunas construídas da noite para o dia nas estranhas transações realizadas em seus respectivos e assaltados países.

“Venho de longe, sempre escutando isso”, dizia o ex-governador Leonel Brizola, que conheci pessoalmente por lá em uma das fases de seu longo e sempre polêmico exílio e retorno, como mais uma vez se verá no livro de memórias que o jornalista baiano Sebastião Nery irá lançar em Recife, na festa de aniversário do histórico Diário de Pernambuco, mês que vem.

O Uruguai acolheu brasileiros notáveis no começo de seus exílios: Jango (que morreu sem conseguir retornar), Brizola, Darcy Ribeiro e Waldir Pires. Lá convivi com outras figuras expulsas daqui e acolhidas do outro lado da fronteira. Foi através de algumas delas que aprendi a gostar de Montevidéu, batendo pernas nas Ramblas de Pocitos, freqüentando o Café Copacabana, no Centro Histórico, os restaurantes populares de assados imbatíveis, ou os bares dos hotéis da Calle Yi, ou Calle Cuaréim.

Papos intermináveis que abarcavam o Uruguai, o Brasil, o mundo. Conversas de política, de saudades ou de conspirações fracassadas. Ali, em períodos diversos, testemunhei fatos – como a chegada da ditadura nas “orillas” do Rio da Prata e a feroz Operação Condor – e aprendi história com uma das figuras mais dignas e generosas que já conheci: o coronel Dagoberto Rodrigues, diretor geral dos Correios na época do golpe contra o governo de Jango. O homem digno e corajoso que botou o poderoso Henry Kissinger para fora de seu gabinete, em Brasília, no governo JK, quando o americano insinuou negociata em nome de empresa americana no setor da telefonia, no período da construção de Brasília.

Mas é preciso citar dados sobre o Uruguai de hoje, às vésperas da escolha de seu novo presidente. Mesmo distante de sua fase de Suíça do continente, consegue ainda exibir índices de dar inveja em muita gente. Por exemplo: uma renda per capita anual de 7.090 dólares americanos, uma das maiores do mundo, ao lado de uma das menores taxas de pobreza da América Latina. O índice de analfabetismo também é dos mais baixos do continente, perto de zero.

Tem mais: com população de 3,3 milhões de habitantes, o país é pioneiro na América do Sul na adoção de políticas sociais e foi o primeiro da região a criar um sistema de previdência. Além de seu elevado Índice de Desenvolvimento Humano frente aos demais países do continente, o Uruguai também é um modelo no setor de assistência aos idosos, que formam parte significativa da população. Sobre isso, lembro um episódio emblemático para terminar.

No exílio, o jornalista alagoano Paulo Cavalcante Valente teve problemas de saúde e precisou ser submetido a uma cirurgia urgente e delicada. Foi internado em um hospital público de Montevidéu. De passagem pela cidade, fui com Margarida visita-lo ainda internado mas às vésperas de ter alta, firme e forte outra vez. Ouvi então depoimento insuspeito:

“Baiano, embora internado como quase indigente, aqui recebi um tratamento de magnata. Equipe de cirurgiões de primeira linha, medicamentos a tempo e a hora de graça, sem falar nessas enfermeiras daqui que nunca vi igual. Até talquinho em minhas costas elas passam toda hora, para não sentir incômodo por ficar deitado tanto tempo. Já pensastes?”, perguntava Valente, sem perder o sotaque nordestino, mesmo depois de quase 20 anos de exílio em terras castelhanas, ante de poder voltar ao Rio.

Qualquer que seja o resultado, com o tupamaro Mujica ou o liberal-conservador Lacalle no poder, espero rever em breve a querida, culta e sempre generosa Montevidéu. “Já pensastes?”.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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