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Postado em 23-10-2009
Arquivado em (Artigos, Multimídia, Rosane) por vitor em 23-10-2009 09:48

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OPINIÃO / POLÍTICA

Obama , Web e Brasil

Rosane Santana

Leio em jornais brasileiros que a Blue State Digital, empresa norte-americana que estruturou o suporte tecnológico para viabilizar a bem-sucedida campanha de marketing de Barack Obama na Internet, está de malas prontas para desembarcar nas eleições presidenciais do próximo ano, no Brasil. Pelas mãos do engenheiro elétrico Ben Self, sócio da companhia, o efeito Obama poderá dar resultados na Terra Brasilis.

Não acredito. Recorro ao arquivo pessoal onde guardo, cuidadosamente, artigos e livros adquiridos nesses quase três anos de estudo na Universidade de Harvard, em que há um pouco de tudo, especialmente Política. Releio, então, uma esclarecedora entrevista de Eli Pariser, diretor executivo do Moveon.org Politic Action sobre como a Internet está revolucionando a política, concedida a revista Rolling Stone, em novembro de 2007.

Criada há 10 anos, a Moveon é uma organização que congrega cinco milhões de internautas ativistas, nos Estados Unidos, e foi um dos principais responsáveis pelas milionárias arrecadacões e sucesso de Obama no mundo virtual, embora muitos continuem a pensar que Obama inventou o Blackberry e descobriu a Internet. Simpatizante do Partido Democrata, a Moveon decidiu pelo apoio a Barack Obama, entre outras coisas, porque os Clinton eram considerados muito próximos de George Bush, especialmente em questões de política externa, tendo a senadora Hillary apoiado a invasão do Iraque.

Eli Pariser diz que a maior contribuição que a revolução tecnológica trouxe para a política é a possiblilidade de dialogar com eleitores em tempo real e realizar mudanças rapidamente, diferente dos tempos em que os contatos com senadores e deputados, por exemplo, eram praticamente impossíveis ou levavam muito tempo, quando uma lei ou uma proposta já não podia ser modificada.

No futuro, ele acredita que alguém vai experimentar uma estrutura de decisão democrática que tirará o máximo proveito da tecnologia. Provavelmente, segundo Eli Pariser, o modo como irá funcionar é que eleitores terão representantes sobre várias questões. “Eu poderia decidir que você (o entrevistador) é meu representante em meio ambiente. Cada vez que você votar, eu recebo um e-mail que diz: “Ele votou, sim, em painéis solares”. Se eu não gosto da maneira que você esta votando, eu vou escolher outro representante. Se 100.000 pessoas dão a você uma representação você pode influenciar…”.

Como imaginar, no curto prazo, uma estrutura dessa natureza funcionando no Brasil, país onde a região Norte não conhece banda larga, segundo informações que me chegam por telefone, e boa parte do território não possui sequer energia elétrica? Superados os entraves de infraestrutura, cairemos na questão da democratização da tecnologia. Aqui nos Estados, por exemplo, entre pobres e ricos, negros e brancos, gregos e troianos, o uso de tecnologia de ponta está disseminado em toda a parte.

Computadores, microcomputadores e afins são acessíveis à população de tal forma, que é difícil você encontrar hoje um celular que não seja iPhone ou BlackBarry, por exemplo. Lan houses praticamente não existem (nunca vi), porque se alguém não pode adquirir um bom computador, a biblioteca pública tem centenas deles à disposição. A maioria dos estudantes maneja computadores desde a escola fundamental sem risco de sofrer violência, isto é, ser assaltado na próxima esquina. Em muitas salas de aula, computadores tomam o lugar do quadro negro para o ensino de ciência, matemática, português etc. e tal.

Além da cultura tecnológica, há ainda o que eu chamaria de cultura cidadã, adquirida por anos de valorização da educação. O historiador americano John Lukács diz que, nos Estados Unidos, “desde o início do século XX, a mania nacional de educação havia se tornado parte do credo norte-americano”, abraçado por gente de todas as matizes políticas, republicanos e democratas, capitalistas e socialistas etc.

Isso significa dizer que a maioria das crianças freqüenta escola e que o índice de analfabetismo é quase zero .Isso explica, além do desenvolvimento científico e tecnológico alcançado pelos Estados Unidos, a formação de pensamento crítico, capacidade de autodeterminação nas escolhas pessoais e profissionais, incluindo política, e, ao longo dos anos, o surgimento de organizações como o Moveon, que, aproveitando as possibilidades oferecidas pela Internet, está mudando a história política dos EUA.

Como no Brasil, lembrando Oliveira Viana, tudo acontece por decreto, de cima para baixo, a utilização da tecnologia na política será instrumento do partido do governo e com dinheiro público, tudo indica, haja vista a presença de assessores palacianos em seminários e negociações com a empresa de Ben Self. Coisa muito diferente do que ocorreu nas eleições americanas.

Rosane Santana, jornalista, mestre em História pela UFBA, mora em Boston (EUA) atualmente e estuda em Harvard.

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Comentários

Fernando on 25 outubro, 2009 at 15:12 #

Prezada Rosane,
Achei muito interessante as informações articuladas por V.Sa. no que tange a implatação da formatação política eleitoral outrora utilizada pelo Obama nas eleições de 2010 no Brasil.
Gostaria, se fosse possível, saber da fonte bibliografica que teria sido influencia na formação de tal pensamento disposto por V. Exa..
Sou um estudioso acerca do tema e seria muito interessante para minha formação intelectual obter tais informações.
Grato pela atenção.
Fernando Feitosa


rosane santana on 25 outubro, 2009 at 20:56 #

Prezado Fernando,

Nao precisa do pronome de tratamento. Sou uma mulher comum, sem plagiar Caetano, ~sou um homem comum~, sou uma curiuosa tantao quanto voce. Acho que a fonte n.o 1 e (a acentua~c”ao do teclado esta em ingles) http://www.moveon.org


Carlos Humberto Perissé on 26 outubro, 2009 at 18:09 #

Roseane,
Seu post é muito interessante. Aqui estão se formando grandes expectativas em relação a campanha 2.0. Acho que fazer um download da campanha do Obama aqui vai ser um grande furo n´água. Mas, cada um amarra o cachorro com o que melhor lhe convém.
Gostaria de ter o seu e-mail.
Humberto Perissé


Fernando on 31 outubro, 2009 at 20:31 #

Prezada Rosane,
Agradeço imensamente pela atenção.
De fato, constitui o referido blog uma interessante base de dados e conhecimento, em especial por constituir uma verdadeira praxis em sua dimensão concreta de mobilizações, instrumentalizadas por meio das novas tecnologias, na busca de uma transformação da democracia, remetindo a observância de aspectos aludidos a chamada democracia digital.
Seria de grande importância, e de profunda gratidão, acaso você, com devido respeito, podesse fornecer seu e-mail, de forma que pudessemos promover uma intercâmbio de maiores informações.
Agradeço novamente por toda atenção.
Fernando Feitosa


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