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Postado em 22-10-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 22-10-2009 10:24

Leon: Senhor Revivendo / TM
leonrevivendo

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Em qualquer lugar onde esteja instalado com o seu laboratório de alta precisão -em sua janéla de Salvador que dá para a Baia de Todos os Santos ou no meio do maior tumulto da pauliceia desvairada e adjacências, como agora – o músico e produtor Paquito tem sempre um telescópio especial para enxergar o que passa despercebido para muita gente, mesmo no meio jornalístico que não é exatamente a sua praia, mas onde ele sabe nadar como poucos.

É o que fica evidente, por exemplo, desde o primeiro parágrafo do artigo que ele assina nesta quinta-feira, 22, na revista virtual Terra Magazine ( http:/terramagazine.terra.com.br ) , para falar sobre a morte de Leon Barg, o cabeça da gravadora Reviverndo, que partiu domingo passado. Barg foi também o criador de um selo de disco que “pôs à disposição do público em geral – não só os especialistas -gravações em CD raras e antigas da canção popular”, registra Paquito.

Quem, no país inteiro, sendo amante da música, não guarda pelo menos um disco da Reviverndo em sua discoteca?, pergunta Bahia em Pauta, que reproduz a seguir a íntegra do artigo de Paquito publicado na TM. Bravo!
(Vitor Hugo Soares)
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CRÔNICA OPINATIVA / MÚSICA

LEON

Paquito
De São Paulo (SP)

Leon Barg, da Revivendo, morreu domingo retrasado. A notícia, nesses termos, parece contraditória, e me chegou, num susto, através de Robinson Roberto, que nos apresentou. A Revivendo, criada por ele, é um selo de discos que pôs à disposição do público em geral – não só os especialistas – gravações em Cd raras e antigas da canção popular.

Com sua coleção de discos de 78 rotações, que corresponde a, aproximadamente, dois terços do que foi lançado no Brasil desde o início do século XX, Leon lançou Cds, com encartes detalhados, de Carmem Miranda, Noel Rosa, Francisco Alves – seu ídolo maior – Mário Reis, Lamartine Babo, Anjos do Inferno, Quatro Ases e Um Coringa, Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Braguinha, Almirante, etc, só pra falar dos anos 30 e 40, a chamada fase de ouro da nossa música.

Dos anos 50, ele disponibilizou a obra de Luis Gonzaga em uma série de cerca de 15 Cds – assunto que já tratei nesta coluna – coisas que a RCA, gravadora do Rei do Baião nunca havia relançado, como a primeira gravação do clássico Asa branca. Gregório Barrios, Libertad Lamarque e Carlos Gardel, da América Latina, são outros nomes que me vêm à mente, e que tiveram títulos lançados por Leon, pois, a despeito de ter uma equipe, que incluía seus filhos, a Revivendo era ele.

Mais do que arqueologia ou nostalgia, os lançamentos da Revivendo mostravam que muitas das gravações que foram revividas, ainda em Lp, nos primórdios do selo, e em Cd, são encantadoras. Não se tinha ainda uma tecnologia como a de hoje, mas o charme sobra. Como em todas as épocas, há coisas boas e ruins, mas, sem dúvida, o século XX foi o século da canção. E, no Brasil dos anos 30, 40, e 50 é criatividade por todos os lados, que foi desembocar na música moderna brasileira, de bossa-novistas a pós-tropicalistas. E, artisticamente, Carmem Miranda e Noel Rosa não ficam nada a dever a Chico Buarque ou Gal Gosta. São equânimes.

Leon era pessoalmente encantador, um judeu baixinho do Recife, de olhos pequenos muito vivos – cujos ancestrais vieram da antiga Bessarábia – a procurar sempre por discos antigos pra sua coleção. Na defesa das idéias, era firme e exaltado, o que lhe dava força pra manter a Revivendo sem nenhum tipo de apoio, oficial, ou não.

Aos amigos que fazia pelo Brasil, entre os quais eu me incluía, ele presenteava com discos em suas viagens periódicas para o Recife, Salvador, Rio, etc. Reunia sempre uma turma grande pra almoçar e não nos deixava pagar a conta. Mas sempre nos dizia que a Revivendo andava com dificuldades, pois, apesar de ter uma coleção invejável, com fonogramas que as gravadoras nem possuíam mais, os direitos sobre as gravações ainda eram das multinacionais do disco, a quem ele tinha de pagar pelo que lançava. Com a crise na indústria do disco, a situação se complicou. E ele mantinha uma relação ótima com todas as gravadoras. Quando a EMI, por exemplo, preparou a caixa com todo material de Carmem Miranda na gravadora, levou Leon com a esposa pra Londres, para acompanhar a remasterização na Abbey Road. Claro, os discos usados como matriz eram de Leon.

O período em que o selo esteve bem coincidiu com a ascensão comercial do compact-disc. Com Leon, morre aos poucos um jeito de pensar a música comercialmente. Agora, as pessoas simplesmente baixam no computador as gravações. No entanto, com respeito aos fonogramas antigos, pouca coisa foi digitalizada. Ficamos, portanto, a ver navios. Há menos de um mês, ele esteve na Bahia e Robinson me procurou para que nos encontrássemos. Como eu não estava bem de saúde – uma gastrite – não pude ir ao almoço entre amigos. Leon, no entanto, disse a Robinson: “quero ver o Paquito!”

Eles chegaram lá em casa perto da hora do almoço e saímos a procurar um restaurante que atendesse a nossas idiossincrasias alimentares: eu não podia comer nada pesado, Robinson não comia carne, e Leon não gostava de restaurantes naturais, mas nunca ingeria nada que tivesse alho, que ele detestava. Ficamos rodando meio tontos sem objetividade, até encontrar um lugar. Assim que nos sentimos mais confortáveis e saciados, fiquei descobrindo coisas que não sabia como, por exemplo: a música Vou me casar no Uruguai, de Gadé, do repertório de Moreira da Silva, foi gravada originalmente por Almirante. Leon ainda me disse que ia lançar um disco com a faixa, e me enviaria pelo correio.

Esses e outros discos não mais virão, independente do que for acontecer à Revivendo. Não receberemos mais suas ligações nem teremos o prazer da sua companhia. E, a despeito do lugar-comum da frase, Leon Barg era uma pessoa cheia de vida, não combinava com a morte. Vai fazer falta. Ficarão, no entanto, as revivências.

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