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Posted on 17-10-2009
Filed Under (Artigos, Vitor) by vitor on 17-10-2009

Igreja da Barra: sinos e silêncio
Ibarra

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ARTIGO DA SEMANA

ÁGUAS QUE SALVAM E QUE AFOGAM

Vitor Hugo Soares

Uma vez, navegando pelas barrancas do Rio São Francisco a trabalho do Jornal do Brasil, vi escrito na parede em Juazeiro da Bahia: “Seca e enchente, meio de vida de muita gente”. Não sei explicar direito a razão, mas o fato é que lembrei desses dizeres a semana toda, durante os três dias da passagem do presidente Lula e numerosa comitiva belas barrancas do rio, ao longo de três estados.

Mesmo replantado na beira do litoral da mui formosa cidade do Salvador, nas décadas seguintes, não consigo desligar os olhos e ouvidos quando o assunto é o Velho Chico. Assim, passei quase todo o tempo ligado em cada passo da caravana, Lula carregando debaixo de suas asas atraentes como as de uma ave dos campos gerais de Guimarães Rosa, sua trupe de acompanhantes.

G0vernadores, ministros, parlamentares, assessores, jornalistas, marqueteiros, além de três postulantes à sua sucessão em 2010 (Dilma Rousseff, Aécio Neves e Ciro Gomes). Gente de linguagens diversas e projetos nem sempre comuns, a falar para uma gente nem sempre disponível a acreditar em santos, promessas e milagres.

Mesmo não sendo candidato direto agora, Lula levou o tempo inteiro debaixo do braço nessa travessia a ministra Dilma Rousseff, apresentada aos ribeirinhos como principal guardiã do cumprimento de um dos projetos mais polêmicos , babilônicos e bilionários de seu governo: a transposição das águas do São Francisco. Nele o governo promete despejar mais de R$ 6 bilhões.

O Velho Chico transforma-se assim em retumbante bandeira eleitoral na terceira campanha presidencial consecutiva, como já sabe há um bom tempo o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), que engordou a comitiva presidencial no trecho mineiro. E como acaba de descobrir o governador de São Paulo, José Serra, que também pousou esta semana em Petrolina, na beirada pernambucana do rio, ao lado de fieis companheiros tucanos, para tentar reduzir os efeitos da inundação.

Entendo o vôo de todas essas aves de arribação. Da região percorrida por elas nos últimos dias, guardo a primeira e mais poderosa lembrança que trago comigo até hoje: o rumor da correnteza do rio da minha aldeia passando quase por dentro do quintal da minha casa, a caminho dos cânions magníficos que espremiam suas águas antes de chegar à cachoeira de Paulo Afonso.

No capítulo “Infância e Poesia”, na abertura do livro de memórias “Confesso que Vivi”, o poeta Pablo Neruda ao recordar do seu Chile amado e sempre presente em sua obra, revela que nos anos de sua infância seu único personagem inesquecível foi a chuva. ‘a grande chuva austral que cai como uma catarata do Pólo, desde os céus do Cabo de Hornos até a fronteira. Nessa fronteira, o faroeste de minha pátria, nasci à vida, à terra, à poesia e à chuva”, conta Neruda.

Sem conhecer outra melhores, me socorro das palavras do poeta da América Latina para descrever essa sensação de presença permanente do rio dos quintais de Abaré. Minha cidade, do lado baiano, que fica a menos de oito quilômetros navegando em canoa, até chegar a Cabrobó, cidade pernambucana onde o governo Lula fincou o Marco Zero do seu “projeto redentor de combate à seca e a fome no Nordeste”.

Lem de redentor, como proclamam as vozes oficiais em discursos nas margens do rio, uma frondosa árvore político-eleitoral que já deu frutos a granel na campanha que levou Lula ao Palácio do Planalto em 2002 – quando a idéia de transposição que vem do tempo do Império virou plataforma de campanha do primeiro governo petista. Serviu depois na reeleição de Lula, e os melhores sonhos governistas é de que sirva também nos comícios de sua candidata em 2010.

Em um dos relatos sobre a Coluna Lula no São Francisco – a definição perfeita é da revista digital Terra Magazine, cujos repórteres Bob Fernandes (editor-chefe) e Claudio Leal seguiram de perto o curso da caravana, leio o seguinte:

“No segundo turno das eleições presidenciais de 2006, Lula obteve 77% dos votos no Nordeste , contra 22% do tucano Geraldp Alckmin. Entre os estados nordestinos que integram a viagem desta semana, o presidente obteve 78% dos votos dos baianos em 2006 e 65% em 2002, quando se elegeu superando José Serra, também do PSDB.

Em Pernambuco, onde fica sua cidade natal, levou 57% dos votos em 2002 e na eleição seguinte ampliou a vantagem para 78,5%.” Mas Lula é Lula e, desta vez, ele poderá receber os votos do Velho Chico diretamente. Precisará fazer a transposição das vontades para alguém.

Se a caravana desta semana serviu para alguma coisa foi para demonstrar que esta não será uma tarefa fácil; O Rio São Francisco tem lá seus segredos insondáveis. Podem salvar, mas também afogam.
A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista.-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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