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Postado em 07-10-2009
Arquivado em (Aparecida, Artigos) por vitor em 07-10-2009 15:46

Dilma abre o coração em O Globo/img. Arquivo
midilma

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CRÔNICA / SENTIMENTOS

O coração da candidata Dilma

Aparecida Torneros

A entrevista publicada no domingo, dia 4 de outubro, no Jornal O Globo, Rio de Janeiro, é precedida de um esclarecimento que antecipa aos leitores sobre as circunstâncias do “ping-pong” que se segue. O box introdutório menciona “adversidade”, reencontro da entrevistada Dilma Housseff com o entrevistador Jorge Bastos Moreno, fala da sobrevivência diante da doença, da cura anunciada para o câncer após tratamento e na longa conversa que se iniciou num café da manhã e se estendeu quase até a hora do almoço.

O jornalista deixa entrever que a ministra abriu mão da agenda oficial para divagar nas ondas da emoção que é recuperar a sede de viver, citando inclusive ” Hoje percebo a intensidade da tarde. Observo atentamente o que o vento faz com as folhas das árvores, sinto o perfume das flores e o cheiro da terra”.

A partir daí, segue-se um abrir de um coração de candidata, ou melhor, um coração feminino, prestes a se “apaixonar” por algo ou alguém mais humano e menos administável, do ponto de vista de qualquer autor de novela, digamos que a reportagem em destaque no jornal carioca, revela uma “nova” Dilma, que relembra até as novelas que assistiu ainda jovem, na cadeia, acompanhada das outras presas políticas.

Mas, ela vai além, repensa sobre a paixão, fala de literatura, de música, aliás, canta algumas letras famosas, segundo seu interlocutor, o jornalista Moreno, hábil no mister de deixar a entrevistada tão à vontade que ela responde “infelizmente não”, logo de cara, à primeira pergunta formulada. -” A senhora está namorando? Está apaixonada?”

Assim, o que é possível ler, tanto ao pé da letra, como nas entrelinhas da peça jornalística, traz o perfil dos sentimentos de uma mulher como qualquer outra, que vê a vida com olhos de quem precisa divulgar que convive bem com a solidão, porque, na verdade, ela mesma classifica ” é o bom convívio consigo mesmo”.

Dilma lista suas preferências musicais, tão variadas e de um teor eclético presumível para quem trafega em mundos populares e eruditos, com a missão profissional de melhor entender o povo ao qual se postula como possível candidata a governar, em eleições que esmiuçarão tudo, desde de sua vida pessoal, passando pelo seu comportamento político, e incluindo o nível de equilíbrio necessário para alguém que pode vir a comandar um país como o Brasil.

Se candidata, e se eleita, pela primeira vez, o Brasil terá uma mandatária usando saias , batons e brincos, sem perder de vista que estarão a seu cargo, como chefe do Executuivo, observar com atençaõ os números do PIB, os investimentos necessários para o crescimento da renda per capita das classes mais baixas, e ainda, manter-se serena e conciliadora, por vezes, e noutras, ter pulso firme, apaziguar questões adversas, articular apoios, ser “anticaos”.

Ela cita o livro “anticâncer” como o que mais ganhou durante a fase difícil da doença que enfrentou, diz que deve ter recebido uns 20 exemplares, que o leu, que valeu a pena e que o distribuiu em São Paulo, provavelmente, entre os doentes que conheceu.

A entrevistada relembra o personagem Sinhozinho Malta, vivido pelo ator Lima Duarte, e conta que a primeira novela que lembra de ter assistido foi Irmãos Coragem, nos tempos da cadeia. Dilma solta-se pelos caminhos sensitivos da musicalidade, da literatura, da tietagem por Roberto Carlos, do qual diz gostar demais, e aponta “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, como uma das suas preferidas.

Cantarola uma do Chico : ” A Rita levou meu sorriso, no sorriso dela …” e se diz apaixonada por aquela intitulada “Quem te viu , quem te vê”. Destaca o trecho que gosta mais: ” Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria, quero que você assista, na mais fina companhia”.

Do Gil, ela fala em Procissão, e tenta lembrar outras, e do Pinxiguinha, ela lembra de Rosa. Canta uma parte memorável; ” Tu és, divina e graciosa, estátua majestosa do amor, por Deus esculturada”

Mas quando se refere a Noel Rosa, a ministra canta inteira a que fala na Noite de S. João. “Nosso amor que eu não esqueço, e que teve seu começo numa festa…”

A entrevista, que ocupou página inteira, e ainda prossegue em meia página mais adiante, acrescenta muito mais sobre os gostos musicais e literários da Dilma candidata, da Dilma cantadora, da Dilma sobrevivente de doença grave, da Dilma que adora João Cabral de Melo Neto, que chega a lembrar dos sonhos infantis, um deles, segundo ela, o que durou mais tempo, o de ser bailarina.

O inusitado da reportagem, em termos de informação ao público que, estatisticamente, parece mesmo conhecê-la ainda muito pouco, e deve ter sido o fato de que um jornal de grande circulação, num domingo de amplo espectro de leitores, se dispôs a divulgar o coração da candidata Dilma.

Uma senhora que está sendo preparada para tentar a disputa no pleito máximo da condução dos caminhos nacionais, e que, até agora, falava de pré-sal, de usinas termo-nucleares, de obras e orçamentos para o programa de aceleração do crescimento, ou se defendia de tiroteios políticos naturais que partem de adversários também interessados na mesma luta pelo poder, ou na democrática e oportuna onda de colocações plausíveis entre situação e oposição.

Pois a “poderosa” Dilma foi apresentada, “frágil”, de coração aberto, digamos assim, entre os devaneios do seu interlocutor, ou os sonhos agora difundidos para os homens disponíveis que se habilitarem a se candidatar a um lugarzinho especial no tal “coração apaixonável” ( por que não?) da candidata a nossa chefe de Governo.

O próprio Jorge Bastos Moreno deixou escapar no seu texto que ” esse é o mistério que a campanha eleitoral certamente não vai revelar – uma pena para um país que nunca teve um primeiro-damo”.

Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, e edita o Blog da Mulher Necessária, onde o texto foi publicado originalmente) (http://blogdamulhernecessaria.blogspot.com)

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Comentários

lilian on 7 outubro, 2009 at 16:39 #

que bom


Mariana Soares on 7 outubro, 2009 at 18:12 #

É esta Dilma, competente e firme, mas, também, musical, doce e apaixonada, que queremos ver candidata a chefe da nossa nação.


Olivia on 7 outubro, 2009 at 19:54 #

Também adoro Noel e João Cabral de Melo Neto. Chico Buarque não se comenta – é tudo de bom em todos os sentidos. Vamos em frente, Dilma. A jornada é longa e espinhosa, mas, com essas companhias, chegaremos lá.


Marcos Vinícius on 8 outubro, 2009 at 9:55 #

A ministra Dilma participa amanhã, sexta-feira, dia de vestir branco na Bahia (não esquecer), de missa na Igreja do Senhor do Bonfim. Oxalá a proteja e nos proteja, sempre.


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