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Postado em 05-10-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 05-10-2009 11:49

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OPINIÃO DO LEITOR

“BAIANO NÃO NASCE, ESTRÉIA”

Carlos Lima Cavalcanti Neto

A Bahia ocupou nas décadas de 60 e 70 lugar de destaque nos cenários cultural e político brasileiro. Daqui saíram artistas como Gil, Caetano, Bethânia e Gal, Tom Zé, João Gilberto… Isso, aliás, é do conhecimento de todos. Uma peculiaridade desses artistas é que além de executar belissimamente seus ofícios ainda se inseriam no contexto político, demonstrando suas indignações quanto ao período em que vivíamos sob a ditadura militar ou, mesmo, lançando o Tropicalismo, movimento político-cultural, que até hoje ainda sofremos a influência, positiva é claro.

A partir da década de 80, com o retorno do país à democracia, mudanças bruscas aconteceram. Na economia vivemos um dos piores períodos do século. Tanto que essa foi considerada a década perdida. Isso influiu fortemente na área cultural, principalmente em nossa terra. A partir de 1983, surgiram bandas e cantores com uma proposta diferente: alterar o ritmo e as letras das músicas tocadas no carnaval da Bahia. As marchinhas e as músicas inteligentes de Dodo e Osmar e Moraes Moreira davam lugar à letras pobres e ritmos alucinantes. Surgia ali Chiclete com Banana, Asa de Águia, Cheiro de Amor, etc.

Com o passar dos anos, a grande quantidade de bandas e cantores iam se alternando no mercado da música, a maioria se desfazia na mesma velocidade dos ritmos e algumas poucas se firmavam nesse mercado, promissor e pouco exigente. Nesse ínterim outras bandas também surgiam, entre elas a Banda Eva e a cantora Ivete Sangalo. Essa cantora hoje figura no cenário nacional como uma das mais importantes e influentes artistas. Isso também o mais incauto dos brasileiros também já sabe.

Mas essa influência agora orbita não na política, não na cultura, mas no estrelismo pobre e sensacionalista das revistas de fofoca, dos programas da Xuxa e da Hebe Camargo. O nascimento de seu filho Marcelo parou quase um andar de um Hospital da Bahia, numa cópia caricata do nascimento da filha de sua comadre Xuxa, que veio visita-la. Pobre Bahia e pobre daqueles que deixam suas casas e suas famílias para tomar um ônibus e ir até a instituição ver por uma fresta a estrela da axé music. Enquanto muitos morrem nas filas dos hospitais de gripe e de verminose, o que torna essa ostentação descabida e desrespeitosa. Reservam um andar de um hospital para a estrela dar à luz a um filho.

A comparação até parece uma mesquinhez da parte desse que vos escreve, mas é o retrato nítido e incontestável da cultura baiana que transparece. Enquanto que as bandas como Olodum, Didá, Malê de Balê e outros, perecem com a falta de patrocínio e com as dificuldades financeiras.

(Carlos Lima Cavalcanti Neto é leitor e colaborador do Bahia em Pauta)

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Comentários

Humberto Guanais on 5 outubro, 2009 at 15:27 #

Parabéns pleo comentario sério, oportuno e muito inteligente! Finalmente uma voz se levanta na mediocridade da nossa mídia para desmascarar este circo criado!


Olivia on 5 outubro, 2009 at 19:52 #

Que venham mais artigos caro amigo, boa pena, oportuníssimo texto.


Galdino Aguiar on 6 outubro, 2009 at 9:01 #

Caro Carlos

Com muito gosto, li o seu inteligente artigo a respeito deste circo que, infelizmente, é colocado as lonas às alturas pela mídia e, em decorrência, afetando em cheio os “bobos da corte” :plebeus… para o nascimento deste denominado “príncipe” que surge na nossa tão rica e, exdruxulamente, pobre Bahia.


Galdino Aguiar on 6 outubro, 2009 at 9:18 #

AO CITAR A ALAVRA “EXDRUXULAMENTE”, O CORRETO É ESDRUXULAMENTE, COM ES.


Marcos Vinícius on 6 outubro, 2009 at 11:30 #

Com alegria, li o texto de Carlos Neto neste Bahia em Pauta. Parabéns ao articulista pelo lúcido artigo. A Bahia está cansada de tanta babaquice, só vai para as manchetes nacionais com esse tipo de notícia. Triste Bahia !


lilian on 7 outubro, 2009 at 17:00 #

Infelizmente representa a falta de essência e de idealismo dessa geração que tem como ícones atuais a cantora e suas seguidoras…vide Claudia Leitte. Elas alimentam e intensificam a espetacularização midiática.
Carlos Neto seu artigo está maravilhoso.


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