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Postado em 28-09-2009
Arquivado em (Artigos, Ivan) por vitor em 28-09-2009 10:14

Deu na Tribuna da Bahia

Sobre a crise em Honduras o jornalista político Ivan de Carvalho assina o seguinte texto na edição desta segunda-feira, 29.

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Cerco na embaixada
Embaixada

OPINIÃO / HONDURAS

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Lula, Honduras e Cuba

Ivan de Carvalho

O presidente Lula desatou a qualificar, a cada oportunidade que lhe é dada ou consegue criar, o governo hondurenho presidido por Roberto Micheletti de “golpista”, aproveitando sempre para exigir a devolução da presidência a Manuel Zelaya, destituído do cargo na véspera de promover um plebiscito – considerado ilegal pelo Congresso e pela Corte Suprema – no qual pretendia que o eleitorado dissesse se ele deve ou não poder candidatar-se à reeleição.

Acontece que é cláusula pétrea (imutável) da Constituição de Honduras a impossibilidade de reeleição presidencial. E apesar do Congresso haver rejeitado o plebiscito e a Corte Suprema haver declarado sua inconstitucionalidade, o então presidente Zelaya dispunha-se a promovê-lo na marra. O que o tornou, constitucionalmente, destituível.

Isto seria ir muito além de Hugo Chávez, que pelo menos não tinha uma cláusula constitucional pétrea em seu caminho, mas a necessidade de uma mudança constitucional, para o que obteve aprovação de um Congresso no qual tem o domínio de 95 por cento dos congressistas, pois a oposição cometeu a tolice de boicotar as eleições parlamentares, em protesto contra as tropelias do ditador-presidente da Venezuela.

Bem, voltando a Honduras, assinale-se que o nosso presidente, além de xingar de golpistas Micheletti e seu governo, vive agora a exigir – e com ele fazem entusiástico coro o chanceler Celso Amorim e o esquisito assessor especial Marco Aurélio Garcia – a devolução do poder a Zelaya, que é “hóspede de nossa embaixada em Honduras”, conforme ontem Lula definiu o status do ex-presidente (asilado, abrigado, albergado ou hospedado, não dá para adivinhar) na Embaixada do Brasil.

Não vou ficar analisando essa patacoada nem a ridícula polêmica acerca da existência ou não de uma combinação prévia com o governo brasileiro para Zelaya ir para a embaixada brasileira. É claro que houve combinação – os unânimes sorrisos de felicidade flagrados em fotografia em que estão juntos Lula, Amorim e Garcia são, como anotou em seu blog o jornalista Augusto Nunes, um inequívoco sinal de “missão cumprida”. Se a chegada de Zelaya houvesse sido uma surpresa, assinala Augusto Nunes, Lula, Amorim e Garcia deveriam estar com “cara de preocupação”.

Lula disse ontem, na Venezuela, durante a 2ª Reunião de Cúpula dos Países da América do Sul e África, que a América do Sul “lutou muito para varrer para a lata de lixo da história as ditaduras militares de outrora” e que “não se pode permitir retrocessos desse tipo no continente”. Bem, Honduras não fica exatamente no tal continente referido, a América do Sul, mas na América Central. Talvez o presidente brasileiro esteja confundindo América Latina com América do Sul – é a única explicação que me ocorre no momento.

Mas, então, por que ele não inclui logo o Caribe na América do Sul? Assim traria Cuba para o raio da sua (dele, Lula) vigilância democrática – meu Deus, Chávez, o anfitrião, estava presente quando Lula disse aquelas coisas, e Chávez tem tido o comportamento de um golpista dissimulado (uma vez comandou uma tentativa dissimulada, mas frustrada, de golpe) e é um militar, um coronel. Que ofensa ao vizinho!…

Para que Lula trazer Cuba para a América do Sul, como trouxe Honduras? Ora, ora – para exigir democracia, presidente eleito no poder, liberdade, que está faltando lá até mais do que em Honduras, mesmo estando este país em situação de emergência.

Vejamos hoje, a partir de reportagem publicada no jornal “El País”, que naturalmente não é cubano, como o governo do amigo do peito Fidel Castro, exercido por delegação pelo irmão dele, Raul Castro (ditadura hereditária) trata a liberdade de informação há 50 anos. Em Cuba, toda a mídia tradicional (jornais, emissoras de rádio e televisão, revistas) é estatal ou do Partido Comunista, o que dá no mesmo. E a internet? Cuba tem o mais baixo índice de acesso à internet em todo o hemisfério ocidental. Os preços são artificialmente altos e são pagos em “pesos conversíveis”, usados quase que só por estrangeiros. Assim, impede-se o acesso a quase todos os cubanos. Mais: as conexões têm que ser aprovadas pelo Etecsa (provedor estatal). Uma comissão interministerial restringe (censura) e os provedores autorizados têm que impedir o acesso a conteúdos contrários “ao interesse social, à moral e bons costumes”. A censura política está no “interesse social”, no qual cabe tudo que desagrade o governo e o partido.

E o que diz Lula a respeito de Cuba, seu regime e seus dois ditadores? Lula fuma os charutos.

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Comentários

Leonardo Bernardes on 28 setembro, 2009 at 22:33 #

Olha, Ivan, você me desculpe, mas eu parei de ler o texto quando atingi a ideia de “de que por forçar uma plebiscito” o presidente é destituível. Destituir um presidente é um processo complexo e nada semelhante a um golpe de estado. Se você quer criticar a atitude de Zelaya o faça por meio das instituições daquele país, não encene esse engodo de transformar um golpe num ato institucional e legítimo.


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