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Postado em 17-09-2009
Arquivado em (Artigos, Gilson) por vitor em 17-09-2009 11:57

Montanha: passos sobre a cidade
montanha
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CRÔNICA/ ANDANÇAS

VAMOS ANDAR EM SALVADOR

Gilson Nogueira

Andar faz bem à saúde. Por isso, vamos andar! O centro da cidade de Salvador é de meu andar sem fim. Vou da Barra ao Terreiro de Jesus, sem cansar, e volto, no pique, como se diz, por aí, em boa forma. Com fôlego. De gato. Aliás, quem dera que tivesse as sete vidas do gato! Como não sou esse mamífero felídeo, contento-me com a vida que tenho. E levo. Feliz. A que Deus deu, basta-me. Mesmo assim, gostaria de possuir a agilidade dos bichanos, para caçar os ratos que proliferam à beira deste lado do Atlântico.

E como são muitos, os ratos!. Coisa do Diabo.Respiro Bahia Antiga, a cada passo, nessas horas de contemplação soteropolitana. E em outras, também, como, por exemplo, ao ouvir o toque do triângulo do taboqueiro anunciar a delícia da meninada. A história da cidade, perpetuada em seus caminhos, e a saudade dos anos de mocidade, de tempos bons, que não voltarão, jamais, acompanham-me, nos exercícios citadinos. E fora deles.

Seus cheiros e vibrações, positivos, entram pelos poros, pelas narinas, atingem-me a alma, em cheio, ponto de chegada de emoções diversas, falam-me ao coração, suavizam-me a dor do golpe provocado pelo desencanto de flagrar absurdos e abandonos, como o da praça em frente ao Palácio da Aclamação, em estado quase deplorável, e a fachada daquele magnífico exemplar de arquitetura luso-soteropolitana, sem tintas, que lhe fariam mais bonito, como foi, um dia, no Governo de Octávio Mangabeira, o inesquecível líder baiano que deu nome ao estádio a ser demolido em nome da Copa do Mundo de Futebol de 2014, como se a história de uma cidade, de um povo, fosse um bába, desses jogados por pernas-de-pau ,em terrenos baldios.

História que é rasgada, cinicamente, na mesa das conveniências políticas, para dar lugar a caprichos de quem só pensa no vil metal. Sim, são eles, sim, assassinos das nossas tradições seculares. Esse cartolas robóticos do poder e de uma entidade milionária que manda no mundo da bola, cujo nome Fifa, foneticamente, dá vontade de transformar em palavrão. Nunca, jamais, esses gringos pisaram nas areias do Abaeté, que é uma lagoa escura, arrodeada de areia branca, fonte inspiradora do maior poeta das belezas da cidade onde nasceu, o magnífico Dorival Caymmi, a voz do mar.

O Abaeté, ainda, sobrevive, apesar das perdas sofridas. Os destruidores de nossos ícones culuturais não sabem o que significa o som do berimbau, não comeram abará, nem acarajé, não ouviram dizer do grande Oscar da Penha, o Batatinha, um dos mais notáveis sambistas que o planeta conheceu. São pessoas que dançam com a bunda no chão, porque não sabem p…nenhuma de Bahia.

Nas minhas andanças, atenho-me às que proporcionam-me bem-estar, apreciando sabores que exalam da paisagem, como a do querido e imorredouro Ginásio de São Bento, onde estudei , nove anos, o Largo Dois de Julho, das suas feiras ordeiras e limpas,vendo-me, menino, carregando sacolas cheias de delícias da terra, acompanhando mamãe, para levar o fruto do trabalho para casa, o Ipiranga, o Central, Colégio Estadual da Bahia, orgulho de gerações, como a minha, de Paulinho Boca de Cantor, Júlio Souza, Djalma, Fernando Carvalho, e outros, meus ginásios de ensino de primeira, de aprendizado e crescimento, o Guarani, Liceu, Excelsior, Art, Glória, Pax, Jandaia, Capri, Tupi, cinemas de filmes que não esqueci, que seguem sem o The End, na tela das recordações.

As fitas, em preto e branco, no auditório, perto da cúpula do mosteiro do velho São Bento, com os caubóis e seus cavalos galopando nas cadeiras de jacarandá, onde sentávamos a molequeira que imperava, enquanto o saudoso Dom Norberto, um dos maiores educadores que o Brasil já teve, não aparecia, para impor, com o simples chegar de sua sombra, silêncio sepulcral, já que, Dom Caetano, outro monge, gente boa, soprando apito de guarda de trânsito, não conseguia fazer a galera silenciar. Era uma maravilha!!!

Nas veias da cidade, o suor de quem carregava pastas, paletós, na correria, na luta, em tecnicolor, no dia-a-dia, sem medo de ser surpreendido por ” gravata” de assaltante. Cidade, hoje, desfigurada, quase, pela insensibilidade de quem se elege prometendo melhorias para ela e sonha perpetuar-se no cargo na base dos conchavos que não resolvem os problemas mais simples. Quem duvidar disso, agora, tome um ônibus, no Campo Grande, e vá até o bairro de Cosme de Fé … arias. Entre lá e sinta, na primeira curva, as carências de sua comunidade. Quem disser que está tudo bem, depois da viagem, irá contar verrugas nos dedos.

Caminhando e cantando – e seguindo a canção, que assobio, em ritmo de bossa Nova, em paz -, atinjo a ladeira do Pau da Bandeira, onde contei válvulas de TV. Antes, a Fernandez, onde vendi camas, armários, geladeiras. A descida para a Barroquinha, o Restaurante Cacique era ali. Hoje,em seu lugar, o vazio, o silêncio, como fantasmas de filme interrompido pela brutalidade do corte da insensatez. Nesse corte da história, lembro a Tribuna da Bahia, hoje, arrumando a mesa de lembranças memoráveis para sua festa comemorativa de quarentona exemplar, em defesa da Democracia, a chama eterna do Jornal da Bahia, a Manchete, do meu dileto amigo Pio, o Varandá, a Montanha de lavar pinto em bacia, a Baía de Todos os Sábados, ou melhor, dos Santos, sem esses navios invasores de suas águas, nas quais derramam óleo e mijo, contribuindo para a sujeira do maior cartão-postal da capital dos absurdos.

E do país que assiste a violência deitar a rolar. O bilhar do Abel, onde malandro era o gato que não tomava banho e andava limpo. Dos abrigos da Sé, dos ônibus e dos bondes, do Plano Inclinado Gonçalves, de Fialuna, no Samba do Ai, improvisando jazz puro, no libertário Vat 69, bloco que fundei, depois de uma ressaca ganha no Anjo Azul, do sarapatel de Biu, bem pertinho dele, e de muito, muito mais.

A Salvador que inalo, senhores, tem cheiro de perfume, de passado brilhante, honroso. Não me refiro a esse monstro que está sendo alimentado pela especulação imobiliária que irá engolir, de vez, sua história, caso não sejam tomadas providências urgentes visando envolver a sociedade sobre o futuro da primeira capital do Brasil. A população de Salvador começa a sentir o peso do crescimento desordenado, sufocada, de quebra, pela violência, em suas múltiplas formas. É, portanto, fundamental ir em frente. Afinal, somos todos iguais, somos todos irmãos.

Gilson Nogueira é jornalista

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Comentários

Sócrates Santana on 17 setembro, 2009 at 12:36 #

Caro, uma crônica relaxante e uma nostalgia necessária, porque, reflexiva. Nada como uma caminhada para pensar. Só discordo da não demolição da Fonte Nova. Ela vai continuar sendo a Fonte Nova. Não vai perder a sua identidade jamais. Sempre será a Fonte Nova de Bahia e Fluminense, a Fonte Nova de BAVI, de Pelé, Beijoca e Bobô. Será novamente uma nova Fonte Nova. Porque, quem impregna o lugar de memória são as pessoas. O crescimento urbano, na verdade, distancia as pessoas. Já um estádio de futebol, sempre será um espaço que reúne as pessoas, diria Roberto da Matta.


Mariana Soares on 17 setembro, 2009 at 14:28 #

Que viagem linda, Gilson, você me proporcionou! Viagem pela Bahia que eu deixei hà vinte e cinco anos atrás quando vim morar e trabalhar na capital do país! Quanta diferença vejo na cidade que hoje apenas visito! Senti falta da caminhada que eu fazia quando saia, quase na madrugada, do bairro da saúde, pela Baixa dos Sapateiro, pegava a ladeira da praça até chegar na Praça da Sé, onde pegava o meu ônibus para chegar na Escola de Direito da Universidade Católica da Bahia. Naquelas viagens de todo o dia, muito sonhos foram sonhados, muitos planos traçados…tudo contribuiu para eu me tornar a pessoa que hoje sou. Parabéns, Gilson, seu artigo é um libelo!


Regina on 17 setembro, 2009 at 15:38 #

Ai esta a minha Salvador, aquela que conheco na intimidade que so se adquire andando, “coisas que promode ver, o cristao tem que andar a pe”.
Eu nao sei se as memorias que temos e guardamos dentro de nos daqueles tempos de juventude e meninice ficam tao enraisadas por que foi o nosso “melhor” tempo ou se eh a vontade de voltar a ele que nos faz segurar essas memorias debaixo de sete chaves.
Salvador eh uma cidade feita pra caminhar, voce pode seguir a rota da orla ou a rota da cidade pela Vitoria ate o Pelourinho, sem contar as milhares de ladeiras “rala bumda” e becos impregnados de misterios.
Tenho 37 anos morando fora da Bahia (isso eh peor que ser condenada a prisao perpetua) mas volto la de dois em dois anos, logo que chego saio de mansinho, driblando a vigilancia dos familiares, e vou andando ate o Mercado Modelo, parada obrigatoria para sentir o cheiro da cidade, do mar e do povo.
Eu nao gosto de ouvir as estorias de violencia que me contam, pode ser fantasia ou procurar evitar a realidade, mas sinto-me completamente em casa nas ruas de Salvador, protegida por santos e orixas, como tem que ser.
Continue andando, meu querido amigo Gilson, as ruas de Salvador presisam de gente como voce!


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