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Postado em 12-09-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 12-09-2009 12:33

Projeto municipal: “uma carnificina”
Alberga

OPINIÃO / SALVADOR

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Roberto Albergaria
De Salvador (BA)

No youtube, o leitor vai se surpreender com esta aberração arquitetônica perpetrada pela Secretaria do Desenvolvimento Urbano de Salvador para liquidar de vez a nossa bela península de Itapagipe.

Uma carnificina, pois prometem, de acordo com o vídeo postado misteriosamente na internet, arrasar com todas as nossas singelas casinhas, talvez para construir uma “Nova Sauípe” para os turistas endinheirados na empobrecida orla de cá – expulsando-se os velhos nativos. Ou seria uma obragem ainda mais ridícula: pois o secretário teria admitido “transformar parte da Cidade Baixa em algo parecido com Ipanema ou o Leme do Rio de Janeiro” (segundo um blog local).

Projeto mal-obrado, sem nenhuma preocupação histórica e cultural, sem o mínimo respeito ao nosso espírito de lugar e às “coisas da Bahia” em geral. Uma iniciativa pseudo-vanguardista cheia de obscuridades e subterfúgios – pois a cada hora os “mandachuvas” da Prefeitura dizem e mostram uma coisa diferente. Basta que olhemos o que eles vêm dizendo e desdizendo aqui mesmo no Terra Magazine há meses.

Seguem algumas idéias iniciais sobre esta invencionice travestida de “melhoramento” e “requalificação” que está sendo cometida pelos gestores “desenvolvimentistas” da Prefeitura desta cada vez mais triste Cidade da Bahia. Na verdade, trata-se do mais desavergonhado empreendimento de desurbanização de uma área histórica que apareceu no Brasil nos últimos tempos.

Ainda não sabemos o que significa o fato de a Secretaria do Desenvolvimento Urbano ter colocado logo esta “animação” no Youtube (tinham baixado, quase que secretamente, um edital de desapropriação da área em março – e prometido um projeto bem definido para outubro).

No vídeo, não sobra pedra sobre pedra. Nem as nobres construções do Patrimônio Histórico baiano mais antigas, tampouco os prédios de utilidade pública da área costeira (escolas, hospitais, albergues, pensionatos) são poupados. Deletaram o majestoso Abrigo D. Pedro II, suprimiram totalmente a antiga Fábrica de Luiz Tarquínio, a Fratelli Vita, o Hospital São Jorge, a tradicionalíssima Escola Abílio César Borges…

Tudo vira um frio vazio – cortado de asfalto e canteirinhos centrais, num paisagismo “hollywoodiano” artificialíssimo…

Os infelizes autores desta monstruosidade digital ignoraram, igualmente, o entorno do Grande Patrimônio representado pelas edificações mais antigas e “nobres” da área — que formam o “colar de preciosidades históricas da orla da península”.

Conjunto de fortes, igrejas, casarões senhoriais que ficarão isolados, descontextualizados culturalmente, desanimados humanamente. Sobras perdidas neste deserto de grandes espaços abertos, pontuados por medíocres e repetitivas “modernosidades” de concreto e vidro…

O casario tradicional da região é tratado como um puro monturo de trambolhos (“essas coisas” – que só estariam atrapalhando a visão do mar, nas palavras simplórias e interesseiras do Sr. Secretário, ainda quando recém-enfiado no “balaio de gatos” partidário do prefeito João Henrique).

Na verdade, os burocratas da desurbanização da nossa orla descartam não só os bens culturais de grande porte, mas também os pequenos: especialmente o que temos em nossa arquitetura ordinária de artesanato espontâneo e de arte sensível produzidos pelas pessoas comuns. Um respeitável Pequeno Patrimônio civil acumulado ao fio das sucessivas gerações da nossa Itapagipe “remediada” – dos arredores da da praia do Cantagalo à da Boa Viagem. Local ameno em que subsistem as mais belas miúdas relíquias dos nossos vários passados – uma espécie de paraíso urbano perdido, sob vários aspectos…

Em sua míope visão do alto, os desenhistas digitais paus-mandados da SEDHAM desprezaram todas nossas pitorescas casinhas e sobrados tão lindamente coloridos (tal como aparecem, p.ex. no livro As Cores do Bonfim, da atenta profa. Rosa Alice França).

Na verdade, os novos Donos da Cidade (os barões nacionais da construção & a elite neopatrimonialista local que comanda a máquina municipal) só pensam em dinheiro e poder. Desconhecem por completo não só as especificidades sócio-culturais do nosso feitio nativo de edificações residenciais, mas também do nosso intrincado urbanismo viário, “passando o trator” sobre toda a densa história dos nossos caminhos (minuciosamente retrilhados pela erudita Profa. Mariely Santana).

Não entendem patavina das particularidades do comércio de material elétrico e hidráulico da rua Barão de Cotegipe – o mais sortido de toda a cidade. Além de que esses iluminados “modernizadores” – sem nenhuma sensibilidade patrimonial, sem arte, nem alma – desconsideram totalmente o cenário das tantas devoções cristãs que já transformaram nossa praieira wetland numa espécie de Jerusalém tropical (além do Bonfim, temos os santuários das duas quase-santas baianas a menos de 300 metros, as ex-irmãs Dulce e Lindalva).

O fato é que esta massacrante “limpeza visual” (ou “faxina étnica”?) que o Mercado e a Prefeitura estão promovendo não é só desumana – mas, também, burra: pois o “arrabalde” de Itapagipe encarna o que sobrou de mais característico da “Cara-de-Bahia-com-H” (de Velha São Salvador) que tínhamos. A península ainda resistindo com vivacidade, depois das tantas mortificantes demolições realizadas pelos “picaretas do progressismo” nos limites da nossa Cidade Antiga desde o séc. XX.

Se bem que tal mega-operação de desurbanização, pulverizando uma extensa área de mais de 5 quilômetros representará a destruição de um conjunto de bens culturais e, mesmo, turísticos, de alto valor para todos os baianos – tanto os da Cidade Alta quanto Baixa, Nova e Velha.

Ora, para esses Exterminadores do Passado o espaço não tem memória, as malhas de interação dos habitantes não têm a mínima importância, nossas casas são meros abrigos impessoais e intercambiáveis segundo a lógica macro-espacial que preside tanto a ganância do Mercado-Rei (os grupos imobiliários que agora querem explorar a orla interna da baía que para eles estaria “completamente degradada”) quanto a suposta racionalidade planejadora do Estado Onipotente.

Mercado & Estado (agora unidos no velho Crony Capitalism brasileiro com o novo nome de Parcerias Público-Privadas) teriam o direito de dispor da cidade ao seu bel prazer.

E a lógica deles é a da indiferença. Negocistas que não têm nenhum amor à cidade, ao patrimônio, à beleza, nada… O que importa é o vale-tudo dos seus interesses imediatos, é o modelo de gestão da cidade que lhes for mais útil, o modelo de arquitetura que lhes for mas rentável.

Somente lhes interessam nossa linda “vista para o mar”, nosso pôr-do-sol (um bem precioso para seus empreendimentos).

Enfim, o pretensioso projeto turístico-recreativo-embromativo deles é um jeito tosco da arquitetura de nouveau riche deslumbrado – um xadrez “racional” de torres de vidro quadradonas agredindo o contexto paisagístico da área, destruindo nossos corredores culturais tradicionais, arrasando todo o caprichoso bordado do casario que dá a Itapagipe esta adorável atmosfera de “cidade do interior”. Como sentimos no beco das Calçolas, na Rua do Céu, no alegre Campo do Torebão, entre os libidinosos “jacarés” da Beira Mar, até…

Transformaram tudo numa paisagem de fachada, numa mascarada futurista “pra inglês ver”– inspirado em cidades estranhas (ou “genéricas”), numa coleção de clichês urbanísticos surrados.

Na verdade, este projeto de interesse particular do Secretário do Desenvolvimento Urbano, não passa de um arranjo cênico enganoso nos mais variados sentidos. Estética do “qualquer lugar” – empedrada nesta selva de torres-armengues cinzentas e imensas (mas o gabarito legal não era 3 andares nos primeiros quarteirões?).

Uma obra de técnicos canhestros, a serviço das manobras dos políticos espertalhões de sempre… Pois quanta ignorância rola neste vídeo no que se refere ao modo de vida e de habitação tradicional do orgulhoso cidadão itapagipano, quanto à organicidade, lentamente consolidada, da configuração urbana da península…

Enfim, nessa maquete virtual transparece o espírito de geometria sem finesse do grupo dos urbanistas, arquitetos e videomakers que costumam servir tão bem tantos graves senhores dinheirosos & poderosos. Como esses mais novos, que vem destruindo as partes mais preciosas desta cidade que levamos séculos para construir.

Mais um negociarrão que funcionaria à maneira daquelas “picaretas do progresso” que arrasaram a Sé no século passado. Melhoramentos para a elite (e pioramento para nós, arraia miúda). Renovação que não passa de um uma “destruição criativa” perversa – pura criação de benefícios para os empreendedores-predadores & para a elite neo-patrimonial de sempre – “novidadeiros” que exploram e controlam a Bahia desde Thomé de Souza.

Roberto Albergaria é professor de Antropologia da UFBA, doutor pela Universidade de Paris III e um potencial sem-teto da área desapropriada pela Prefeitura.

(Texto publicado originalmente na revista digital Terra Magazine)

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Comentários

Carlos Henrique on 14 setembro, 2009 at 1:49 #

Brilhante artigo do professor. Espero que essa vergonheira seja revertida com a indignação de homens de bem. Como caíram nossos políticos… Não é hora do prefeito falar? Melhor não…


Scyla on 29 setembro, 2009 at 19:20 #

Começaram mudando o calçadão da Barra, agora se espalham pela cidade com suas obras sem qualidade e sem respeito a história local. É triste.


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