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Postado em 05-09-2009
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 05-09-2009 00:09

Mafalda estátua (com Quino)…
Quimafalda
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…perdeu o vestido vermelho
vermafalda
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Macunaíma continua o mesmo
macunaima
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ARTIGO DA SEMANA

DE MAFALDA A MACUNAÍMA

Vitor Hugo Soares

Bombardeado por tantas notícias desagradáveis, que chegam de um lado e outro do continente, dá alegria saber que, desde domingo passado, quem caminhar por San Telmo, bairro boêmio, antigo e charmoso de Buenos Aires, encontrará a estátua em tamanho natural de Mafalda. Homenagem justa à heroína das tiras de histórias em quadrinhos (HQ) do desenhista Quino, uma das mais fascinantes figuras femininas que já conheci. Mesmo não sendo de carne e osso, ela transpirava paixão e entrega por todos os poros, comum naqueles anos 60/70.

Pensei com meus botões de baiano perdidamente apaixonado, há décadas, tanto por esta garota incontrolável, quanto por Buenos Aires, a esplendorosa cidade de seu nascimento e residência. Penso: que grande personagem da semana de Brasil e Argentina, a clamar a ressurreição pelo menos por um dia, do épico Nelson Rodrigues. Só este pernambucano e carioca da gema como nenhum outro, seria capaz de produzir um texto com a força necessária para este sábado de fim de inverno no sul do continente. Dia histórico qualquer que seja o resultado da partida em Rosário, em que as seleções de Maradona e Dunga revivem toda rivalidade e encantamento desse confronto do futebol mundial com paixões à flor da pele, bem do jeito de Mafalda.

A primeira recordação é das tantas vezes que andei quilômetros pelas calles Corrientes, Esmeralda ou Reconquista, sempre cheias de gente, dia e noite – “até fechar o último quiosque”, como diz Maradona – à procura de uma “tira” nova de Mafalda. Se não havia recente, comprava as mais antigas mesmo, pois sempre pareciam renovadas e surpreendentes a cada nova leitura. Que prazer acompanhar de perto as aventuras daquela garota indomável, com suas tiradas saborosas e implicâncias que sempre faziam pensar.

Uma delas com políticos fanfarrões e gente machista, autoritária, pusilânime ou corrupta. Tipos que Mafalda detestava tanto quanto a sopa quente caseira que a mãe a fazia tomar, crente – como todas as boas madres com misturas explosivas de sangue italiano e judeu correndo nas veias – nos poderes da alimentação saudável. Filhos devem tomar toda a sopa, mesmo que seja preciso matar ou morrer – a depender da origem da mãe no caso -, para que eles obedeçam, sem deixar um pingo no prato.

A busca por Mafalda produzia uma sensação empolgante de descoberta – semelhante às idas às bancas de jornais em Salvador para comprar a nova edição do Pasquim – para o jovem repórter brasileiro do Jornal do Brasil que trabalhava na sucursal de “Salvador de Bahia”, como os amigos portenhos repetiam a cada nova apresentação. A Argentina então, ao contrário do Brasil, parecia um oásis de liberdade na política, nas ruas, nos bares e restaurantes no convívio cotidiano da “cidade florescente”, como no tempo em que Gardel canta com saudade no tango “Anclao em Paris”.

Leio que a inauguração da estátua de Mafalda, em escala proporcional ao tamanho de uma menina real da sua idade, tem múltiplos significados e objetivos, além de simplesmente criar mais uma atração para turistas que visitam em levas uma cidade já tão repleta de atrações. O escultor Pablo Irrgang, responsável pela escultura, explica: a idéia central é estabelecer um ponto de interação da personagem com seus seguidores e visitantes, “no local dos fatos”.

Há, porém, uma diferença: na estátua recém inaugurada o original vestidinho vermelho dos primeiros anos de Mafalda foi trocado sutilmente no monumento (ou nem tão sutilmente assim?) por uma roupa verde, como pedem os novos tempos “politicamente corretos”, em que a questão ambiental assume o lugar das utopias de antes, concentradas nos conflitos políticos, ideológicos e de mudanças de comportamento, expressos com todas as palavras e ações da menina enfezada.

Esta observação crítica partiu de Margarida, minha mulher, também jornalista, fã ardorosa de Mafalda, a ponto de ter recebido o apelido honroso da personagem de Quino, nos tempos de chumbo em que circulava na redação do jornal em que trabalhava vestida em contestadoras camisetas da contestadora portenha, na época em que generais, aliados a civis mal dissimulados, mandavam no Brasil. O fato é que a escultura vem saldar uma dívida pendente dos argentinos com Mafalda, um personagem local com dimensões globais, “capaz de expressar seu mal-estar com o mesmo ímpeto para desterrar a sopa e a guerra da face da terra”.

Quanta grandeza e diferença humanitária para os minúsculos personagens transpirando mau-caráter que vemos nestes dias mesquinhos da política, dos governos e da sociedade – por quase todo lado: nas barrancas do Rio da Prata ou nas bandas de cá da América do Sul, sintetizados por figuras trêfegas, que rondam por gabinetes e corredores da política e do poder, agora mais tranqüilos e soltos, depois que um novo surto de revolta e gritaria parece ter cessado, no Planalto Central e no resto do país.

O que se vê nestes dias é gente cada vez mais distante da paixão que transforma e dos sentimentos sempre críticos, mas generosos de Mafalda. Estamos de novo mais próximos de Macunaíma, o personagem safado, preguiçoso e sem caráter do livro de Mário de Andrade, que ganhou na adaptação para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade, a cena emblemática em que dezenas de pobres retirantes sem força e sem vontade são despejados na entrada de uma grande cidade brasileira e o dono do caminhão depois de receber o dinheiro pelo transporte da carga humana, avisa “Agora é cada um por si, e Deus contra!”.

Bom jogo Brasil e Argentina para todos.

Vitor Hugo Soares
é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Graça Azevedo on 5 setembro, 2009 at 7:38 #

Maravilhoso o seu artigo. Parabéns mais uma vez e um abraço em Margarida pela pertinente observação!


Mel Campos on 5 setembro, 2009 at 12:46 #

Mafalda verde lá, Marina Silva verde aqui. Muito bom. Beleza de artigo.


Flora on 5 setembro, 2009 at 15:36 #

Gostei do seu artigo. Que venha o verde…


maria helena on 5 setembro, 2009 at 19:38 #

Posso copiar essa foto, vhs? Estou revoltada com o Quino! Isso não se faz…


vitor on 5 setembro, 2009 at 20:29 #

Maria Helena

Claro que pode, amiga. Aqui vc manda. E conte com a minha solidariedade no protesto contra o pai descuidado da nossa querida Mafalda


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