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Postado em 04-09-2009
Arquivado em (Artigos, Laura) por vitor em 04-09-2009 17:55

“O que você acha/”
pílulas

ARTIGO/REFLEXÕES

Psicotrópicos, solução ou droga?

Laura Tonhá

Faço parte de um grupo de mulheres, do Brasil e de outros países, que se correspondem por email, trocamos dúvidas e falamos sobre vida pessoal, quando isto é conveniente. Temos como premissa ajudarmos umas as outras. Recentemente, depois de um depoimento sofrido de uma das integrantes concluímos que uma boa opção seria procurar um psiquiatra. Durante a discussão, outras integrantes do grupo confessaram o uso regular de medicamentos psicotrópicos, com bons resultados na manutenção da qualidade de vida. Convencida, a integrante em questão decidiu procurar um médico. Dias depois relatou-nos contente que recebeu um diagnóstico esclarecedor e estava feliz com as perspectivas, ressaltou que consultar um psiquiatra havia sido uma quebra de paradigmas.

Aqui em Brasília, entre uma aula e outra, ouvi rumores, nos corredores de cursinhos sobre o uso de drogas que melhoram o rendimento dos concurseiros. Entre elas a ritalina e a ampaquina. Procurei saber do que se trata: ritalina, conceitualmente, é um medicamento para quem tem síndrome do déficit de atenção e hiperatividade, uma espécie de anfetamina, que proporciona maior concentração e aumenta o estado de alerta. A outra droga, ampaquina, vem sendo usada experimentalmente como tônico da memória, com efeito nas sinapses cerebrais e influencia positiva no aprendizado e na capacidade de memória. Aparentemente essas drogas estão sendo largamente utilizadas por pessoas interessadas em potencializar seu rendimento estudantil e/ou profissional.

Na academia fui abordada, pós aula de spinning, por uma atlética senhora que, entre tímida e entusiasmada, me questionou se eu estava fazendo uso do Lexapro, segundo ela “remédio do momento” nos consultórios psiquiátricos. Levou alguns segundos para “cair à ficha” e eu me lembrar onde já tinha visto aquele nome e entender o porquê daquela pergunta. Estava lá estampado em letras azuis na minha simpática e pequenina toalhinha, utilizada durante as suadas aulas de ginástica. Surpresa, expliquei que a minha toalhinha era um souvenir que meu pai, médico, havia ganhado em algum congresso, e que me era muito útil nas idas a academia, mas até aquele momento não tinha a menor noção do significado daquele nome grafado nela.

Outro dia a querida mãe de uma amiga comentou felicíssima que seu psiquiatra a tinha autorizado o uso do Prozac pelo resto da vida. Disse-nos que isto garantiria a sua paz e bem-estar pelos próximos anos, naturalmente ficamos contentes por ela. Eu mesmo adoraria uma pílula que me ajudasse a passar pelos cinco dias anteriores a minha menstruação, todos os meses, período em que o mundo se torna incrivelmente mais difícil e eu me sinto como dizem “doente dos nervos”.

Minha intriga com este assunto chegou ao nível máximo essa semana ao ler a coluna da Eliane Brum no site da revista Época, artigo intitulado “O doping dos Pobres”, onde ela questiona: “Nossa época está produzindo gerações de anestesiados? Para boa parte das pessoas tomar uma pílula para conseguir “aguentar a pressão” é tão trivial quanto tomar um cafezinho. O que tenho visto é um doping social. Combate-se a maconha, o crack, até o cigarro, ótimo. Mas e as drogas médicas que estão pelos barracos e pelos palácios? São menos drogas porque dadas por um doutor?”

Sou filha de psiquiatra e entendo que a psiquiatria é uma ciência. Acho saudável que da mesma forma que freqüentamos ginecologista, oftalmologista, endocrinologista entre outras especialidades médicas também nos consultemos com um psiquiatra, se for o caso. Não sou a Alice do País da Maravilhas, sei que as dores da alma podem roubar o nosso chão, já estive na frente de psicólogos e psiquiatras, chorei muito, mas nunca sai com uma receita de antidepressivo e/ou tranqüilizante. De qualquer forma, sou a favor uso dos medicamentos, desde que recomendados em situações específicas e administrados com acompanhamento médico.

Ainda assim, assisto intrigada à crescente utilização destes remédios e a diminuição do tabu em torno deles e questiono: a psiquiatria deu um salto significativo nos últimos anos e/ou as milagrosas pílulas parecem ser mesmo a solução para agüentar a vida neste mundo competitivo e exaustivo que vivemos?

Nos últimos 40 anos do século XX, houve o renascimento do entendimento biológico de algumas doenças mentais, a psiquiatria evolui e novos medicamentos surgiram. Quanto à vida, sabemos que esta dia-a-dia mais competitiva; confiamos menos uns nos outros; usamos mascaras que impendem relações profundas; somos cobrados a uma postura de super-heróis e estamos em pânico com a crescente violência entre tantas outras mazelas que roubam nosso equilíbrio e sanidade. Mas a questão continua pendente, pelo menos para mim, seriam as novas e velhas pílulas a solução para lidar com tanto desafio e tensão?

Já ouvi também comentários que questionavam a quem interessa a venda desses remédios e colocavam a indústria farmacêutica em cheque. A situação, neste caso, me pareceria ainda mais complexa. Penso se foi isso que Eliane Brum quis insinuar quando disse: “A medicalização da dor psíquica é um fenômeno relativamente recente. Pelo menos nesta proporção, com essa enorme variedade de medicamentos disponíveis e muito mais sendo produzido em escala industrial e vendido em licitações para a rede pública em suas variadas instâncias. Cada comprimido de diazepam (benzodiazepínico), por exemplo, custa menos de um centavo para a rede pública. Bem mais barato, digamos, que uma sessão de psicoterapia.”

E você o que acha?

Laura Tonhá é publicitária e mora em Brasília

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Comentários

Regina on 4 setembro, 2009 at 18:52 #

Minha querida Laura, voce botou o dedo na ferida de um dos nossos maiores problemas dos tempos modernos – O uso e abuso de drogas por prescricao medica. Veja o exemplo infeliz de Michael Jackson, que acabamos de sepultar.
Os Estados Unidos, possivelmente, lidera essa adicao pois eh de praxe a prescricao de drogas por qualquer sintoma ou mesmo so por “precaucao”. O novo plano de reforma de saude abordo o assunto de frente.
Naturalmente que a parte psicologica e muito mais complexa e seu pai seria mais indicado para elaborar sobre o assunto.
No entanto, de principio, concordo com voce quanto a moderacao no acesso a estas drogas e na procura de solucoes alternativas, pois, na maioria das vezes o resultado eh uma dependencia muito perigosa e destrutiva.
A vida nao eh facil para ninguem e todos nos gostariamos de encontrar equela pilula magica que iria nos transformar nesse ser “perfeito”, que todos cobram, mas ninguem poder ser.
O assunto eh para muitas conversas mas muito oportuno.


rosane santana on 4 setembro, 2009 at 19:13 #

Laura, querida, mais um excelente artigo seu. Aqui nos Estados Unidos, onde propaganda de cigarro e de bebida sao proibidas na midia, abundam propagandas de remedios e os analgesicos sao os campeoes de audiencia. Incrivel, como as pessoas tomam comprimidos sem prescricao para combater qualquer dor de cabeca, um minimo desconforto e motivo para dopping.


Marina on 5 setembro, 2009 at 3:33 #

Excelente crítica, Laura.

Pior ainda é remédio tomado sem prescrição. Dia desses, um amigo me disse que pegou o tarja preta da mãe para conseguir dormir numa viagem. Quase surtei com ele e acho que fui bem estraga-prazeres, já que ele estava contando como se tivesse sido esperto.

E mesmo com prescrição: minha avó tomava um tarja preta para dormir. Era vício; se acabava, pedia outra receita e comprava mais. Só conseguia dormir com o tal remédio. Passou tanto tempo tomando que teve perda de neurônios da fala. Ela não consegue mais articular nenhuma palavra. Ninguém pensa nas consequências do remedinho, não é?


Clara on 5 setembro, 2009 at 11:53 #

Parabéns Laura pelo artigo e crítica!!!!!


Mel Campos on 5 setembro, 2009 at 13:00 #

Problema deveras preocupante e ao meu ver de dificil solução. Afinal pressões existem de fato e os efeitos das drogas, das pirulas, certamente devastador. Muito bom seu artigo.


Lucia Freitas on 5 setembro, 2009 at 13:57 #

Então, Laura…
Limite de dor (e de pressão) é algo pessoal, individual e intransferível. Do ponto de vista evolutivo (puro) estamos permitindo que os menos adaptados sobrevivam – e tenham chance. Isso é compaixão, também.
Há um viés perverso na história dos psicotrópicos: pessoas que não suportam dor (ou mal estar, ou angústia – podem trocar aqui pelos “negativos que lhes vierem à mente).
Em uma sociedade onde não há espaço ou acolhimento para o que não é luminoso – e somos feitos de sombra E luz -, como expressar e viver o que não tem lugar?
Mais: a própria medicina incentiva isso, bancada exatamente pelos laboratórios que distribuem brindes e outras coisinhas aos médicos. Embora a propaganda de medicamentos seja controladíssima no Brasil, a indústria está trabalhando a todo vapor para cooptar os profissionais de saúde. E o resultado final, como sempre dependerá de uma equação para lá de complexa: a pessoa em questão, o médico que a atende, todos os fatores em torno de cada um deles e o resultado final.
A vida não é simples – e muito menos fácil para ninguém.
Em tempo: eu sou a favor da liberação de todas as drogas – e, assim, do seu controle pela sociedade, de forma democrática e justa. Para mim, isso acabaria com o negócio de milhares de bandidos. E a gente ainda teria mais segurança…
Mas esta é outra conversa.


Ila on 5 setembro, 2009 at 19:37 #

Laura, a cada dia você me surpreende com artigos cada vez melhores. Siga em frente, linda… Você está demais… bjs Ila


Deh on 6 setembro, 2009 at 12:05 #

Laura,
Concordo com a Lucia. A dor (e sua medida) é absolutamente particular. A busca para o seu alívio também. Não é fácil, nem sentir, nem encontrar a “cura”. Confio na mistura medicamentos (quando sob indicação e controle) e terapia. Só o auto-conhecimento pode oferecer o entendimento e a superação, não é?

Sermos felizes – é o que todos buscamos no fim do dia.

Beijo!!!


Laura on 7 setembro, 2009 at 1:14 #

Oi gente, valeu pelos comentários. Sou a favor de qualquer coisa, isso inclui medicamentos, terapia, reiki, auto-ajuda, auto-conhecimento, grupo na internet candomblé, astrologia, numerologia etc, para que fiquemos bem, felizes, a vida é agora, afinal… na maioria das vezes precisamos testar e combinar muitas coisas para chegar no tratamento ideal e isso é sempre pessoal. Mas é preciso estar sempre consciente diante de todos os recursos. Finalmente, se a psiquiatria esta oferecendo bons recursos para as dores da alma. que bom, melhor assim. Bjo!


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