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Postado em 31-08-2009
Arquivado em (Artigos, Rosane) por vitor em 31-08-2009 10:51

Oswaldo Aranha: “País vencerá”/Img.CPDOC (1930)
aranha

OPINIÃO / POLÍTICA

DIAS CONTADOS

Rosane Santana

A política clientelista e do favor, de raiz oitocentista, está com os dias contados no Brasil. A agonia do popular toma-lá-dá-cá que desembocou em crises como a do orçamento, em 1992, do mensalão, em 2005, e na atual paralisia do Congresso, com o Senado em chamas, descontados os oportunismos e a manipulação de uma parte da midia, resulta de avanços da cidadania – “acesso aos mercados e aos bens de consumo”, como define o historiador e cientista político José Murillo de Carvalho -, por uma maior parcela da população.

No centro da questão, a incapacidade do Estado em atender e intermediar as demandas de múltiplas clientelas. Afinal, não estamos mais no século XIX, somos uma população de cerca de 200 milhões de pessoas – maioria urbana – o voto de cabresto praticamente desapareceu, a burocracia do país tem se modernizado continuamente, o familismo está em baixa, o eleitor tem mais acesso à informação e o Brasil é um candidato a potência mundial, pelo menos aqui nos Estados Unidos, nos meios acadêmicos, especificamente na Universidade de Harvard, é tratado como tal.

O problema aponta para uma mudança estrutural na política brasileira, ainda que muitos não estejam percebendo o processo, expressando, frequentemente, desencanto com líderes e governos. É tempo de comemorar. Gosto sempre de recordar uma frase, se não me falha a memória, de Osvaldo Aranha, ex-ministro da Fazenda de Getúlio Vargas- um liberal que combateu o nazismo- pinçada do livro a “História Sincera da República”, do marxista pernambucano Leôncio Basbaum, que li nos tempos da Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia: “O Brasil é tão grande, mas tão grande, que vencerá com os brasileiros, sem os brasileiros e até mesmo contra os brasileiros”.

Às vésperas da campanha para as eleições presidenciais, no entanto, vejo com ceticismo, a forma como a mídia, estimulada por marqueteiros e interesses políticos tem incensado a candidatura da ex-ministra Marina Silva a presidência da República como a “higienização da política brasileira”. Marina seria uma espécie de salvação em meio a um mar de lama, leia-se corrupção, clientelismo e falta de ética. Falta responder, com quem vai governar? Já vi esse filme e não tem happy end. Mais desencanto e mais alienação.

Na história recente, o presidente Lula, que, no passado, chegou a declarar a existência de “300 picaretas no Congresso” vê-se obrigado a negociar com aquela Casa em condições nem sempre confortáveis e muitos dos problemas do seu governo derivam de curto-circuitos na relação com o Poder Legislativo, próprios do regime presidencialista.

Em 1986, na Bahia, por exemplo, Waldir Pires candidatou-se e teve vitória histórica para o governo do estado, com 1,6 milhão de votos de frente contra o jurista Josapha Marinho, representante das forças conservadoras. Não tenho nada contra o professor Francisco Waldir Pires de Souza. Reconheco nele uma das mais exemplares biografias da moderna política brasileira, apesar dos equívocos. No entanto, para justificar o amplo arco de alianças, o vi, pessoalmente, repetir com certa freqüência, “eu sou a mudança”, mas o seu governo acabou de maneira frustrante.

Pura ilusão ou, lembrando Sérgio Buarque de Holanda, resquícios da “nossa tradição autoritária”, porque governos não se fazem, apenas, com a vontade do governante, mas com centenas ou milhares de pessoas, líderes ou não, trabalhando em prol do bem comum. E numa República, incluem-se o Congresso, representando o Poder Legislativo, e o Judiciário, que no Brasil tem se modernizado, mesmo aos trancos e barrancos.

Mudanças estruturais são processos de longa duração. Para acelerar a transformação do Brasil arcaico em um Brasil moderno, falta avançarmos ainda mais na conquista da cidadania e investirmos em um projeto de educação básica pública e gratuita. Aqui nos Estados Unidos, por exemplo, as escolas públicas de educação fundamental distinguem os bons alunos e os gênios, oferecendo para eles estímulos e oportunidades educacionais.

Imigrantes brasileiros, inclusive, são beneficiados por essa política e estão estudando em universidades americanas, que são consideradas as melhores do mundo, especialmente em Massachusetts, estado apontado como a Atenas da Era Moderna. O governo americano acompanha passo a passo a vida do aluno e, ao final do segundo grau, eles são premiados com bolsas de estudo para o ensino superior, que são caríssimas, cerca de 50 mil dólares ano.

É com conhecimento e tecnologia que se muda um país. Educar é preciso.

Rosane Santana é jornalista e mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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Comentários

Regina on 31 agosto, 2009 at 17:38 #

Por favor leiam esse artico uma e mil vezes ate digerir tudo! Um dos mais lucidos e bem elaborados artigos que ja tomou esse espaco. com base em fatos e fundamentado na Hitoria do nosso pais.
Parabens, Rosane, seu tempo nos States esta sendo muito bem aproveitado.
Vamos colocar com letras de forma e bem grandes para que ningem esqueca: “O Brasil é tão grande, mas tão grande, que vencerá com os brasileiros, sem os brasileiros e até mesmo contra os brasileiros”.
E ainda: “governos não se fazem, apenas, com a vontade do governante, mas com centenas ou milhares de pessoas, líderes ou não, trabalhando em prol do bem comum”.
Vamos lembrar isso antes de pular na primeira canoa…


Cornel on 31 Março, 2011 at 13:22 #

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Marco Lino on 31 Março, 2011 at 22:07 #

Só hoje li este artigo. Muito bom! Muito bom!


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