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Postado em 29-08-2009
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 29-08-2009 00:15

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ARTIGO DA SEMANA

Cinco senadores, quatro mulheres… e Ulysses

Vitor Hugo Soares

Neste artigo se tratará de Senado e senadores. Digo: de cinco destes senhores do parlamento – quatro brasileiros (Zé, Heráclito, Aloizio e Eduardo) atores tragicômicos da trupe que encena crise ética infindável, e o norte-americano, Edward Kennedy. Este último, morto em combate de muitas batalhas contra um câncer. Deixa ao partir marcas simbólicas em seu país, onde Ted está sendo recordado como um dos políticos mais influentes e mais decisivos dos últimos 50 anos, até quando comparado com seus poderosos irmãos, John e Bob.

De uma forma ou de outra, para glória, humilhação ou desonra, os cinco foram destaques desta penúltima semana de agosto de 2009. No entanto, no começo destas linhas abre-se espaço para as palavras do deputado Ulysses Guimarães. Aquele que em seu Decálogo do político e do estadista estabeleceu a coragem como primeiro mandamento.

O pusilânime nunca será estadista, pregava Ulysses, invocando um mestre mundial na matéria: Winston Churchill. Para o líder britânico, das virtudes, a coragem é a primeira, porque sem ela, a fé, a caridade, o patriotismo, desaparecem na hora do perigo.

“Há momentos em que o homem público tem que decidir, mesmo com risco de sua vida, liberdade, impopularidade ou exílio. Sem coragem não o fará”, escreveu o velho timoneiro no Decálogo publicado em “Rompendo o Cerco”. “Homem público”, no caso, tem aqui o significado clássico da expressão. Mas vale também para as mulheres da política e do poder: Dilma Rousseff, da Casa Civil; a senadora do Acre, Marina Silva (petista durante 30 anos e Verde a partir deste domingo); e a vereadora do PSOL de Alagoas, Heloisa Helena, por que não, em sua brava insubmissão?

Que conste também desta seleta relação o nome da ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira. Mesmo que esta mineira de nascimento com pegadas fortes de sua passagem em terras do Nordeste, pareça contentar-se com seu perfil profissional “dedicado exclusivamente a administração fazendária”, conforme ela declarou no depoimento à CCJ do Senado, que segue causando abalos dentro e fora da Receita. A inclusão se dá pelo mérito do corajoso debate que ela suscitou sobre ética, verdade e mentira no exercício do poder e do serviço público, ao confrontar a poderosa comandante da Casa Civil do governo Lula, no caso do encontro particular das duas no Palácio do Planalto.

Este debate, se não perder seu essencial viés ético ao focar a questão da verdade e da mentira no exercício da atividade pública, para naufragar no terreno pantanoso das futricas partidárias, ideológicas e eleitorais, pode ser útil ao país.

E estamos de volta ao começo. Retomo então o rumo, quase perdido, a partir da morte do senador democrata dos Estados Unidos, Ted Kennedy, até esta semana, o último sobrevivente da chamada era de ouro do clã Kennedy, morto aos 77 anos, e que será enterrado neste sábado (29) em Massachussets, estado pelo qual se reelegeu sete vezes seguidas.

Há 40 anos, depois dos assassinatos dos irmãos John, em 63, e Bob, em 68, quase todos apostavam que seria Ted o próximo Kennedy na Casa Branca. Logo ele, que talvez por ser o caçula da família, se tomava menos a sério quanto ao seu futuro na política, e também quanto à sua respeitabilidade pessoal, como assinalam alguns dos que escrevem agora na mídia o obituário do único Kennedy metido na política que chegou à velhice, atuante senador, e com o máximo de respeitabilidade possível entre os homens públicos de seu país.

Quem diria, sobretudo ao olhar para o começo da história de Ted quando jovem, e mesmo já adulto? Dado a meter os pés pelas mãos, como quando foi expulso da rígida e referencial Universidade de Harvard por ter copiado uma prova de Espanhol, como lembram os jornais agora. Ou quando – já casado com a modelo Joan Benett – viu-se, em 69, diante da estranha morte da jovem Mary Jô Kopeckne, na volta de uma festa. O carro dirigido por Ted caiu no lago e Mary morreu afogada. Edward escapou e levou mais de 10 horas para informar à polícia sobre o acidente.

Ted Kennedy morre reabilitado. Retomou o caminho da verdade e da coragem na atividade pública e na vida privada. Não chegou à presidência de seu país, é verdade, mas o senado na vaga do irmão morto, que parecia um prêmio de consolação, acabou possibilitando a ele “uma das caminhadas políticas mais fascinantes da história dos Estados Unidos”. A ponto de o presidente Barack Obama ter suspendido suas férias para chorar a perda de Ted e exibir seu “coração partido” pela perda do “grande senador da América”.

Que diferença para o que se viu esta semana no senado em Brasília, de tanto cinismo e comportamentos servis. Enfim, da ausência da coragem moral e política que separa o estadista do pusilânime.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Laura on 29 agosto, 2009 at 0:32 #

Hugo,

como disse o incrível Churchil:

“Há momentos em que o homem público tem que decidir, mesmo com risco de sua vida, liberdade, impopularidade ou exílio. Sem coragem não o fará”,

também o jornalista tem q decidir e tb sem a coragem não o fará. Parabéns pelo artigo e coragem de sempre. Bravo!


Olivia on 29 agosto, 2009 at 9:22 #

Maravilha de “creuza”, como diz os soteropolitanos. Belo artigo, a comparação com nosso senado não poderia ser mais oportuna.


janio on 29 agosto, 2009 at 10:16 #

Uma vez eu conversava com um amigo guitarrista de jazz e ele me contou que numa ocasião criou tanto em cima de um tema que se esqueceu de como voltar pro começo da melodia. Foi o maior vexame, com todos os músicos olhando pra ele com aquela cara de “e agora?”. Devia tomar umas aulas com Dom Vitor, um dos melhores jazzistas das letras que eu conheço.
Começa o texto como se fora uma canção normal, improvisa genialmente em cima das notas e depois retorna ao fio da meada, sem jamais perder o tom. Não humilhe tanto seus súditos, mestre!


vitor on 29 agosto, 2009 at 11:11 #

Olha só quem fala, pessoal!

Janio, logo ele, que há dois anos fez o editor deste site-blog comer poeira por mais de 500 quilômetro de estrada entre Salvador e Paulo Afonso, para falar em tarde memorável de junho em uma barraca coalhada de garrafas de cerveja à beira do lago formado pelas águas do São Francisco, sobre a ideia de criar um blog.
E com o testemunho de Margarida, Gracinha e Lauro Tonhá, além de um fabuloso por de sol à frente, convida-lo para a aventura e dizer a ele que não tem graça um blog baiano sem texto com a grife de Janio Ferreira Soares.

Pena que suas obrigações de secretário de cultura e turismo da cidade da cachoeira famosa o impeçam de comparecer com a assiduidade que os leitores de BP desejam.

Mas já falei e está dito, pois palavra de quem bebeu a água do Velho Chico que passa por Glória, não volta…

E que ele não diga que foi o editor de Bahia em Pauta quem começou a provocação!


Regina on 29 agosto, 2009 at 14:55 #

Espero que voces ai no Brasil tenham tido a oportunidade de assistir a missa celebrada em memoria do Senador Edward Kenndy.
Um momento que retrata muito bem a maneira com que os politicos americanos se distingem dos nossos brasileiros. A dignidade e civilidade com que membros de diferentes partidos e diversidade ideologica, se reunem para celebrar a vida daquele que foi considerado entre eles um dos mais controversias. Presidentes do passado e do presente, senadores de ambas bancadas colocam suas diferencas pessoais de um lado para a grandesa do seu pais.
Acho que e isso que esta faltando nos meios politicos tupiniquins, BOTAR O BRASIL NA FRENTE!


Mariana Soares on 29 agosto, 2009 at 16:46 #

Mais um belíssimo texto, Hugo, com o qual você sempre nos premia todos os sábados! Perfeita a sua análise e comparação, pena que nesta última, nós tenhamos que suportar, não sei por quanto tempo ainda, este já insuportável e desgastado debate no senado sobre o que não nos interessa de fato, sem o encontro com a verdade e o com o que interessa realmente.


carlos volney de souza sampaio on 29 agosto, 2009 at 22:34 #

Bravo vitor Hugo, você nos faz quase levitar com tamanha sabedoria. Vendo o exemplo do senador Ted Kenedy não há como escapar do complexo de “vira-lata” de que falava Nelson Rodrigues.


Graça Tonhá on 30 agosto, 2009 at 0:06 #

Vitor:
Foi um privilégio participar daquela “tarde memorável”, de bela paisagem, geladissima cerveja e conversa de tom cordial. A certa altura compreendi que não se tratava apenas de compartilhar com pessoas queridas, de uma boa farra no feriadão junino. Na realidade estava aprendendo muito atráves dos casos e histórias contadas por você e Janio, com humor e poesia como só os bons escritores sabem fazer. Parabéns pelo oportuno artigo desta semana. Bjs.


JORGINHO RAMOS on 30 agosto, 2009 at 13:32 #

Mais uma vez a maestria de um texto de Vitor Hugo evidencia uma realidade. O contraste fixado entre o “Leão” ( não por acaso o Rei da Flortesta), o Senador Ted Kennedy, e os nossos “pais da patria” é algo inimaginável. Ficamos coma a certeza de que o último bastião da política americana era um senador do mundo. Os nossos, ah ! esses mal cabem no papel de vereeadores dos burgos podres de que falava Tancredo.


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