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Postado em 27-08-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais, Newsletter) por vitor em 27-08-2009 10:45

Belch
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Deu em Terra Magazine:

A revista digital Terra Magazine publica nesta quinta-feira (27) mais um belo e contundente artigo do músico e produtor baiano Paquito sobre querelas do Brasil na relação com seus ídolos e artistas. Texto que empolga não só pela forma e estilo sempre agradáveis de ler, por mais duro que seja o tema, mas principalmente pelo conteúdo que faz pensar, mesmo a quem não gosta muito disso.

Paquito olha de sua janela de ampla visão em Salvador e constrói texto de primeira linha, entitulado “Belchior das canções”, a partir da notícia no Fantástico, da Rede Globo, sobre o desaparecimento do compositor cerarense , autor de algumas das composições mais notáveis surgidas na MPB na últimas décadas. “Aquele que dizia ser um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, e vindo do interior. Dizem que apareceu num show de Tom Zé, ainda este ano, mas, depois, não foi mais visto”, diz o músico baiano na abertura do artigo.

Bahia em Pauta não resiste e reproduz o texto na íntegra, pedindo perdão antecipadamente ao editor chefe de TM, Bob Fernandes, pela “apropriação” sem prévia autorização. Mas não dava para esperar.

Confira

(Vitor Hugo Soares)
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ARTIGO/MÚSICA

BELCHIOR DAS CANÇÕES

Paquito

Deu no Fantástico: Belchior sumiu. Para os mais novos, que não o conhecem das canções, ou sabem das canções, mas não sabem que são dele: Belchior, o cantor-compositor cearense sumiu. Aquele que dizia ser um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, e vindo do interior. Dizem que apareceu num show de Tom Zé, ainda este ano, mas, depois, não foi mais visto.

Há dois anos, a ex-mulher não tem notícias, dois carros seus estão abandonados ou, pelo menos, estacionados sem que ninguém os reclame. Deixou dívidas. Eu nem vi a matéria na TV, peguei na página do portal Terra e pensei: Belchior já tinha sumido de nós há mais tempo. Não se falava dele nos jornais, na Internet, no que se chama a grande mídia. Precisou sumir pra que se falasse dele. Até parece história das presentes em suas letras, “feito aquela gente honesta, boa e comovida/ que caminha para a morte/ pensando em vencer na vida”.

Provavelmente, vão dizer que foi uma vítima do Sistema, será feito um documentário, e aparecerão os doutos dizendo que ele era um gênio incompreendido. Talvez elucidem o mistério, talvez não. Talvez a razão do sumiço seja bem prosaica, distante do nosso entendimento.

No entanto, suas canções, bem maior de um compositor, estão vivas e presentes na memória dos brasileiros que o ouviram cantar, e viam aquele hippie de vasto bigode, lirismo triste e combativo, e versos incomuns. Se alguém, de repente, começa a cantarolar “não quero lhe falar, meu grande amor/ das coisas que aprendi nos discos/ quero lhe contar como vivi/ e o que aconteceu comigo…”, é impossível não se lembrar da interpretação de Elis Regina, e de como aquela gravação se tornou um standard da música brasileira. As cantoras que vieram bem depois de Elis, como Daniela Mercury, gostam de cantá-la pra chegar perto do modelo de cantora que é Elis.

Tanto que há uma historinha que diz que Sandy, em uma data familiar, escolheu cantar, em homenagem aos pais, Como nossos pais, que é o título desta canção de Belchior. Imagino Sandy se dando conta do que diz a letra da música, no momento mesmo em que está cantando: “minha dor é perceber que apesar de termos feitos tudo que fizemos/ ainda somos os mesmos e vivemos/como nossos pais”.

A música de Belchior é a notícia mesmo de que o sonho havia acabado, contrapondo-se inteligentemente à alegria tropicalista: “nada é divino, nada é maravilhoso/ ao vivo é muito pior”. Há uma urgência em seus versos, e na sua interpretação angustiada, sanguínea, sensual, quase falada: “quando eu cantar/ quero ficar molhado de suor/ e, por favor, não vá pensar que é só a luz do refletor”.

E há – por que não? – uma nostalgia como no subtítulo de Mucuripe, “jovem também sente saudade”. A sessão de cinema das cinco, a camisa toda suja de batom. E uma canção alegre, Medo de avião, releitura de I wanna hold your hand, dos Beatles, e que ganhou uma outra melodia de Gilberto Gil, também bonita.

Estou lembrando dos versos e ouvindo as canções aqui na minha rádio-cabeça, aos pedaços, e tendo bem presente os instantes em que, adolescente, ficava fascinado por um verso que dizia “eu quero é que este canto torto feito faca corte a carne de vocês”. Há uns cinco anos, vi Belchior cantando essa música no programa Altas horas, junto com o Los Hermanos.

Das canções cujas letras ganham versões maliciosas e populares tem aquela que diz “aí um analista me comeu”, em vez de “aí um analista amigo meu”, que é a letra original. É engraçado, e não é pouco. Caymmi uma vez disse que seu sonho era ser um autor de algo que se perdesse no meio do povo. Aconteceu com ele, e, de certa maneira, com Belchior.

Esse texto não é e nem pretende ser um necrológio, pois não se sabe se Belchior morreu. Ele só sumiu, ou sumiu só. Mas eu sei onde ele anda: em suas canções imorredouras, vivas, presentes e, ainda e sempre, urgentes. Além, no Corcovado, quem abre os braços, é Belchior. Copacabana, o mar, as borboletas pousando entre as flores do asfalto, são Belchior, talvez cansado de nós, repousado de nós, infinito de nós.

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LEIA EM TERRA MAGAZINE: (http://terramagazine.terra.com.br)

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Comentários

Mariana Soares on 27 agosto, 2009 at 11:06 #

Bahia em Pauta sempre atento a tudo de bom que essa velha Bahia produz, interna ou externamente! Lindo artigo! Parabéns, Paquito, pelo seu melodioso artigo! A música é, sem dúvida, uma das mais, se não a mais, perfeita, forma de comunicação. Para o meu ouvido e coração musicais, este artigo foi um verdadeiro bálsamo! Ganhei o dia…Juro que consegui ver a cara da Sandy cantando algo que ela não faz a menor idéia do que se trata…


Regina on 27 agosto, 2009 at 15:20 #

Essa pagina na Net pode responder a pergunta:
http://www.mpbnet.com.br/musicos/belchior
Nao deixem de clicar no meio da pagina para ouvir de viva voz.
Escute uma amostra do trabalho:
À palo seco
(Belchior)
Com Belchior


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