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Postado em 22-08-2009
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 22-08-2009 00:03

Lina depõe na CCJ, Demóstenes observa
lina
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ARTIGO DA SEMANA

FALTA DE MEMÓRIA

Vitor Hugo Soares

O microfone sensível ligado em cima da mesa para o início da sessão da Comissão de Constituição e Justiça, do Senado, capta e lança no ar, pelas ondas da TV, a voz do senador e bem informado jornalista Demóstenes Torres, presidente da mesa, dirigindo-se a auxiliares da casa: “Cadê a mulher? E cadê o nome dela?”.

A mulher aparece em seguida. É uma mineira de nascimento, mas profissional destacada e acatada na região Nordeste, principalmente entre o Rio Grande do Norte e Pernambuco. Assim, em Salvador, o jornalista redobra a atenção no som, nas imagens e nos movimentos dos presentes à sessão da CCJ. Nas quase seis horas seguintes, a depoente iria transformar-se em um dos mais importantes personagens desta semana de agosto para não esquecer.

Ia começar o depoimento da ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, servidora pública com mais de 33 anos de carreira “dedicada exclusivamente à administração fazendária”, de repente atirada (por motivos ainda desconhecidos) no olho do furacão dos jogos pesados do poder. Acusada pela poderosa ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff – respaldada por suspeitas levantadas por declarações do presidente Lula -, de invencionices.

A ministra Dilma segue negando a conversa particular, na qual, segundo a ex-secretária da Receita, ela teria pedido para “apressar os processos envolvendo o filho do senador José Sarney”. Nega mesmo diante de evidências e pistas apresentadas por Lina na CCJ, sobre o percurso que seguiu, passo a passo, até chegar à presença da ministra, levada pela secretária executiva do gabinete da Casa Civil, Erenice Guerra, figura onipresente em situações obscuras e estranhas como esta, desde a agressiva reunião em que foi fritado impiedosamente o ex-ministro da Defesa, o baiano Waldir Pires, demitido do cargo por Lula em seguida.

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, cobra que o Palácio do Planalto divulgue os registros de entrada e saída da ex-secretária da Receita, se eles de fato existirem, e aí está uma possibilidade de esclarecimento cabal. “Afinal, argumenta o ministro, não há motivo para esconder-se o registro de ingresso de cidadãos ou servidores públicos em uma repartição”. Ou haverá razão mais séria a impedir que isso seja revelado?, indaga a curiosidade do jornalista e de toda a torcida do Vitória.

Enquanto a dúvida não se esclarece, vive-se no País, situação de surrealismo puro, no melhor estilo de Borges, Cortázar ou Buñuel. Ainda assim, no depoimento na CCJ, a servidora da Receita conseguiu protagonizar um debate exemplar sobre ética, memória, política e serviço público, em um ambiente que ultimamente parece ter perdido o sentido e a exata noção do significado destas palavras.

Antes de começar a transmissão da sessão na TV, dá tempo ainda de correr até a estante de livros para apanhar “Meu Último Suspiro”, do cineasta espanhol Luis Buñuel, tantas vezes lido e relido, outras tantas citado e recomendado em situações surreais como a presente.

No comovente capítulo inicial do livro, o autor fala da importância da memória para uma pessoa, e o trágico resultado que a sua perda representa. Buñuel, que no colégio de Saragoza era um “memorion” capaz de recitar de cor a lista dos reis visogóticos espanhóis, as superfícies e populações de todos os países europeus, “e muitas outras inutilidades”, segundo escreve, certamente se vivo estivesse e passasse por estas paragens também se interessaria pela reunião na CCJ.

Nos colégios, geralmente, segundo o genial diretor espanhol, esse gênero de exercício de memória mecânica é desvalorizado. Mas, na medida em que passam os anos de nossa vida, essa memória, anteriormente desdenhada, torna-se preciosa. A certa altura, o autor confessa que sentia uma inquietação muito intensa e até uma angústia, quando não conseguia lembrar-se de um fato recente que vivera, ou então do nome de uma pessoa com quem estivera nos últimos meses. “De repente, minha personalidade se desagrega, se desmantela”, constata o mago espanhol.

Em “Meu Último Suspiro”, Buñuel também assinala: “É preciso começar a perder a memória, ainda que se trate de fragmentos desta, para perceber que é essa memória que faz toda nossa vida… Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela não somos nada”. Na mosca.

A ministra Dilma, que ainda tem planos políticos ambiciosos a cumprir, e a ex-secretária da Receita Lina Vieira, com todo uma história de vida e profissão a zelar, são relativamente jovens ainda, para ter perdido a memória inteiramente. Talvez com a ajuda sugerida pelo ministro Marco Aurélio, e um aperto maior em Erenice, a amnésia quanto à data e os pontos mais obscuros da conversa se esclareçam em breve.

Para o bem da memória e da verdade.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site-blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz gonzaaga on 22 agosto, 2009 at 7:23 #

Grande Vitor Hugo: seu site-blog está excelente. estavamos todos numa expectativa de algo melhor. aconteceu. Um abraço e continue. Luiz


Ivan de Carvalho on 23 agosto, 2009 at 1:34 #

Vitor,
Um excelente artigo, com uma solitária ressalva: não creio que haja sido a Casa Civil vítima, como você sugere no título do artigo, de um “surto de amnésia”. Eu apostaria que é Mal de Alzheimer mesmo e em estágio terminal. Ivan


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