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Postado em 13-08-2009
Arquivado em (Artigos, Gilson) por vitor em 13-08-2009 10:13

Noite em Salvador
noite

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CRÔNICA / SILÊNCIOS

A NOITE

Gilson Nogueira

Debruço-me no balcão da entrada da clínica odontológica e sou recebido com o sorriso branco de uma recepcionista. A bela moça faz-me imaginar ser ela a garota da propaganda de creme dental, cuja publicidade, aliás, está tão por fora das prateleiras midiáticas, na atualidade, como bunda de vedete aparecia nos anos daquelas estrelas piscando nos dentes de usuários de cremes dentais responsáveis por hálito fresco, com cheiro de selva de hortelã, 24 horas. As estrelas cintilando nos dentes alvos era invenção do outro mundo, na tela da tevê, afirmavam os mais velhos.

No sopro de brisa de inverno de final de tarde, tento, paradoxalmente, com palavras, colocar mais lenha na fogueira da indignação coletiva decorrente da violência que faz a Bahia já ser considerada antiga terra da felicidade. Ao puxar assunto com a recepcionista sobre o crime do Monstro do Iguatemi, em Salvador, na vã tentativa de conseguir mais aliados visando ao fortalecimento da idéia de promover uma manifestação pública contra a concessão de benefícios, como o indulto, a criminosos, dentro das cadeias, tipo o que foi concedido à besta, confessa, da morte da pediatra, que havia comparecido ao shopping, com sua filha de um ano e oito meses, para presentear o marido no Dia do Papai, a resposta da atendente“ É o mundo.”

” E que mundo!”, exclamei. Olho para a rua, através do vidro da porta principal,e vejo trabalhadores deixando o edifício, em construção, em animada conversa. Adiante, estudantes tomando sorvete e a baiana do acarajé esquentando o azeite de dendê, com cebola, na grande frigideira, para dar início a um dos rituais de prazer gastronômico da Bahia, cujo caldeirão de mistérios e sabores não pode ser entornado pela ignorância dos que confundem preservação das tradições culturais do povo baiano com sede de dinheiro.

Ao usar a boca, para comer com o espírito o bolo sagrado, noto que poucos se interessam pelo tema violência. Silencio. Na curva, meninos sujos e raquíticos, brigam por esmolas. O cotidiano da fome, sustenta-os com migalhas.Parecem pombos humanos, ciscando o lixo.” É de doer o coração”, tento comentar com um passante. Ele não responde.

A noite começa a cair. O ônibus engole quase todos os passageiros que o esperam, diante do beco da birita onde a cerveja desce para “levantar a moral “dos que precisam dela para suportar o peso dos seus problemas ou a usam para estimular os sonhos do dia. As luzes amareladas da cidade fazem-me confundir sombras e gente. Há mais sombras do que gente e, no lusco-fusco, tempo de encontrar a casa lotérica aberta, para a fezinha de lei, na ilusão de ganhar a grande bolada e, com isso, ajudar a construir um hospital, para meninos , em situação de rua, na capital ou, mesmo, na Ilha, no Subúrbio, no Interior do Estado. Cruzo os dedos. Olho o relógio de pulso e apresso o passo, para chegar em casa. Havia um telefonema a atender. Soube, pela empregada, que alguém queria saber o nome dos autores de Canção Que Morre No Ar. Carlos Lyra, fez a música, Ronaldo Bôscoli, a letra. O telefone ficou mudo.

Gilson Nogueira é jornalista

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