ago
12
Postado em 12-08-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais, Multimídia) por vitor em 12-08-2009 09:55


================================================

Palavra de Tom Tavares

Chegou à caixa de correio eletrônico do editor do Bahia em Pauta a seguinte mensagem do músico baiano (dos melhores) Tom Tavares:
==============================================
Bahia em Pauta publica a seguir, como registro histórico de notável atualidade, o artigo referido por Tom, que revela também como pensar e opinar eram hábitos saudáveis na Bahia e no Brasil de então Confira.

Amigos: O meu pensamento sobre a Ordem dos Músicos do Brasil está explicitado no artigo abaixo (escrito há quase dez anos) e publicado no Caderno 2 do Jornal A TARDE – Salvador – Bahia, no dia de ontem, 10 de agosto de 2009.
Posso estar enganado, sim. Mas, não engano ninguém. Todo mundo sabe o que eu penso.
Um abraço,
Tom Tavares

(Vitor Hugo Soares)

=====================================================

OPINIÂO

NATIMORTA

Tom Tavares

Na metade dos anos cinqüenta, começou a aparecer uma moçada fazendo um som diferente. Simples e direto. Em verdade, eram duas vertentes que surgiam: uma tocava o violão baixinho, cantava baixinho, fazendo um samba de um jeito diferente, de uma nova maneira, uma bossa-nova. A outra turma era um pouco mais barulhenta, mais expansiva, também menos requintada. Pegava a guitarra e, com alguns poucos acordes, construía o que musicalmente queria dizer: ensaiava os primeiros passos do rock’n’roll brasileiro.

Dizendo assim, parece que era, apenas, brincadeira de turma de bairro, de grêmio acadêmico, nada de muito conseqüente. Ledo engano. Aquela meninada do banquinho e violão virou a cabeça da geração zona-sul enquanto o rock’n’roll made in Brasil assumia lugar de destaque, principalmente nos bairros periféricos.

Quando isso aconteceu, os acadêmicos se indignaram. Perguntavam-se como uma turminha que mal fazia três acordes podia assumir a profissão. A profissão – pensavam eles – era pra quem sabia decifrar uma partitura, registrar os sons no pentagrama. Ou seja: somente eles mesmos poderiam ser músicos, lendo e tocando o que estava escrito. Enquanto eles pensavam, as turmas da bossa e do rock ficavam cada vez mais famosas e ocupavam os programas radiofônicos chegando, assim, a todo o Brasil.

A coisa chegou a um ponto tal, que os músicos tradicionais letrados, ameaçados em seu campo e visando a clássica reserva de mercado, buscaram no Congresso Nacional um jeito de acabar com aquela – segundo linguajar da época – invasão da meninada travessa. Como no futebol, diante do perigo de gol, gritaram pro bandeirinha, requerendo a aplicação da lei do impedimento. E, conseguiram: no dia 22 de dezembro de 1960, o Presidente Juscelino Kubitschek assinou a Lei 3.857 que, no seu artigo primeiro, dizia: “Fica criada a Ordem dos Músicos do Brasil com a finalidade de exercer, em todo o país, a seleção, a disciplina, a defesa da classe e a fiscalização do exercício da profissão do músico.”

Ora, presidente JK, quem seria esse ser supremo capaz de selecionar, determinar, quem pode ou não pode ser músico? Quem teria autoridade para dizer se Armandinho Macedo – por não saber ler uma nota no pentagrama – pode ou não pode ser músico? Em quem avultaria tamanha autoridade para dizer se aqueles quatro cabeludos de Liverpool podiam ou não ser músicos, já que eles também não sabiam ler uma partitura?

Ninguém, eu respondo. Nenhuma banca examinadora do mundo. Nem Beethoven, nem Tom Jobim, nem Bach, nem Mozart, nem ninguém! Quem determina se alguém pode ou não ser músico é o público. Sim, exatamente. É o público quem decide se quer ouvir o artista X ou dançar ao som do Y. Só ao público cabe a escolha entre um show de axé e um concerto da Orquestra Filarmônica de Berlim. É também sua a prerrogativa de comprar o cd – seja lá do que ou com quem for – que lhe atenda ao gosto. Se o público gosta daquele músico, quer aquele como o seu músico, então, AQUELE é o músico.

A Ordem dos Músicos do Brasil – um rascunho mal desenhado de ópera bufa – não tem competência para cumprir, sequer, o que determina o primeiro artigo da lei que a criou. E, se nem a primeira ação que lhe justificaria a criação ela consegue praticar, chegamos à conclusão de que é natimorta.

Assim sendo, no dia em que teria nascido, 22 de dezembro de 1960, morreu a Ordem dos Músicos do Brasil.

Tom Tavares – Compositor, regente, radialista, professor da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia.

E-mail: tomtavares10@gmail.com

Be Sociable, Share!

Comentários

Ivan de Carvalho on 12 agosto, 2009 at 23:17 #

A Ordem dos Músicos do Brasil, natimorta desde 22 de dezembro de 1960. Então, poucos anos depois, a OAB assumiu os poderes da OMB e criou o “exame da Ordem”, gradualmente estabelecendo uma “reserva de mercado”, ressuscitando as corporações de ofício medievais. Enquanto isso, os médicos pegam seus diplomas e estão prontos para salvar ou matar com suas receitas mágicas. E a ninguém precisam provar se estão aptos a curar ou a matar.


vitor on 13 agosto, 2009 at 10:57 #

Sensacional, Ivan. Na mosca!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos