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Postado em 09-08-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 09-08-2009 18:28

Ruth Cardoso: “nome e referência”
Ruth
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MULHERES BRASILEIRAS

Consuelo Pondé

É do conhecimento geral que as mulheres brasileiras viveram momentos de intensa reclusão durante o período colonial, fossem as que se mantinham no seio da sociedade patriarcal como filhas e esposas, fossem as enclausuradas nos conventos femininos. Por isso, diminuta era a presença da mulher branca nos primórdios da colonização. Tanto assim que os colonos se uniam com índias e negras, meras uniões informais, sem qualquer formalização legal. Tal circunstância desagradava às ordens religiosas, daí os jesuítas, nos inícios da colonização, terem repetidas vezes a presença de mulheres do reino para que se unissem aos portugueses solteiros. Esse era também o único meio de evitar as uniões espúrias, os concubinatos indecentes, conforme julgamento da época.

O notável jesuíta Manuel da Nóbrega, aqui chegado com Tomé de Souza, em 1549, era um defensor da vinda das mulheres portuguesas órfãs ou de vida errada. É sabido que se dirigiu ao Rei de Portugal, solicitando a vinda das donzelas, sem exigir que fossem “puras” e imaculadas a fim de livrar os cristãos dos pecados da carne.

Sobre as ingressas nos conventos, Leila Mezan Algranti publicou interessante trabalho, intitulado “Honradas e Devotas: Mulheres da Colônia”.

Como mães e esposas as mulheres daquele período eram consideradas “receptáculo das tradições culturais e das virtudes morais”.

Durante todo o período colonial, e mesmo no Império a vida da brasileira se confinava aos muros das casas em que moravam, com eventuais saídas para as missas ou demais ofícios religiosos.

As mulheres brasileiras das camadas populares realizavam trabalhos domésticos, não lhes sendo conferido valor comercial, razão pela qual não eram consideradas socialmente importante.

A partir da Revolução Industrial, contudo, aconteceu, nos países civilizados, a participação feminina no trabalho assalariado.

Ainda assim, somente a partir do movimento feminista, surgido na França, na segunda metade do século XVIII, começou a mulher a participar da vida social daquele país.

No Brasil, a pioneira da luta feminina foi a riograndense do norte, Nísia Floresta Brasileira Augusta, autora dos livros: Conselhos à Minha Filha (1842) e A Mulher ( 1856). No Século XIX surgiram, também, alguns jornais femininos, tais como o “Jornal das Senhoras” (1852), o “Sexo Feminino” e, em 1880 , a revista “ A Família”, todas empenhadas em reivindicar a emancipação feminina, especialmente a educação formal. Em 1901, na discreta Diamantina, Minas Gerais, surgiu o jornal Voz Feminina, que pela primeira vez postula o direito ao voto para as mulheres. Em 1910, Leolinda Daltro fundou o “Partido Republicano Feminino”, que iniciou campanhas mais agressivas, semelhantes às que organizavam as sufragistas inglesas. Suas Companheiras chegaram ao ponto de organizar uma passeata de mulheres, em 1917, no Rio de Janeiro.

Mas, foi em 1922 que o “movimento sufragista” ganhou maior importância com a fundação da “Federação Brasileira Para O Progresso Feminino FBPF“, graças à liderança de Bertha Lutz, que possibilitou a multiplicação de um número considerável de associações congêneres em todo o País.

A Luta pelo sufrágio feminino durou ate 1932, quando esse pleito foi concedido pelo novo governo implantado pela “Revolução de 1930. A segunda Constituição Brasileira foi outorgada em 1934 para, pouco tempo depois, ser dissolvida. Tal ocorreu em função do Decreto que estabeleceu o Estado Novo, em 1937, retirando o direito ao voto e banindo a possibilidade de escolha dos seus representantes, por parte de todos os brasileiros. A própria CLT de maio de 1943 é muito débil em relação aos diretos trabalhistas para as mulheres.

Não, se podem negar as conquistas obtidas pelas mulheres nos últimos decênios do século XX, graças às lutas em que se têm empenhado e o vigor de suas reivindicações Faltam – no, contudo, obter maior representação política no município, no estado e no País. Que mulher de valor, como, por exemplo, a falecida e saudosa antropóloga, Ruth Cardoso está nas páginas dos jornais de hoje, como líderes autênticas, cheias de sabedoria e experiência?

Ruth Cardoso era um nome e uma referência de mulher, por isso mesmo detestava ser chamada de “primeira dama”, grotesca imitação dos padrões norte – americanos”, que ela repudiava, com justíssima razão.

Olho com tristeza o panorama político brasileiro e não consigo vislumbrar um só nome de companheira da qual sinta orgulho pelo trabalho que realiza. Ou será que, combativas na Bahia, quando chegam a Brasília, tornam-se estrelas apagadas no firmamento da politicalha nojenta, corrupta e deslustrada?

Consuelo Pondé , historiadora e escritora, é Presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e membro da Academia de Letras da Bahia. (consueloponde@terra.com.br)

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