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Postado em 08-08-2009
Arquivado em (Artigos, Janio, Multimídia) por vitor em 08-08-2009 11:43

CRÔNICA VIVA

VERSOS (E REVERSOS) DE SARNEY

Janio Ferreira Soares

Em agosto de 1989, após uma dura luta contra o câncer, morria o grande mestre Luiz Gonzaga. Vinte anos depois, vendo o senador José Sarney agarrar-se com unhas, dentes e bigode à cadeira da presidência do Senado, me vem à lembrança os versos de A Triste Partida, genial composição de Patativa do Assaré que Gonzagão imortalizou com seu inconfundível estilo, que narra a saga de uma família nordestina a caminho de São Paulo. (Para quem não lembra, essa canção é aquela que começa com um lamento de um pobre pai sertanejo que depois de constatar a inexorável pressa do tempo e a falta de chuva em suas terras (“Setembro passou, Outubro e Novembro, já tamo em Dezembro, meu Deus, que é de nós?”), joga a sua turma em cima de um caminhão e parte para São Paulo em busca de seus sonhos).

Tenho a leve impressão de que todo dia, ao sair do Senado, Sarney deve cantarolar estes mesmos versos, mudando apenas a ordem dos meses e, claro, atropelando a métrica, o ritmo e o bom senso.
Na sua versão, Fevereiro passou, Março e Abril também, Maio, Junho e Julho já eram, e “já tamo em Agosto, meu Deus, que é de mim?” (Ou, no seu caso, “de nós”, aí dependendo se ele quer incluir no seu pau-de-arara, Renan, Collor e até o presidente Lula, já que aquela baixaria protagonizada pelo senador alagoano contra ele e sua filha, Lurian, parece que chafurdou definitivamente nas profundezas desse enredo de quinta categoria).
Aliás, o Senado deveria contratar com certa urgência um pai de santo ou algo parecido para executar uns trabalhos de descarrego na cadeira presidencial e no seu entorno, já que os últimos que por lá passaram não tiveram tempo sequer de se coçar.
Foi assim com ACM, que apesar de aparentemente protegido por certos Orixás baianos não resistiu à tentação de saber como votavam os colegas e dançou; foi assim com o Don Juan da Pajuçara, Renan Calheiros, que também não soube resistir à outra tentação, digamos, mais diabólica e da cor do pecado, que o levou do gozo eterno ao quinto dos infernos em pouquíssimo espaço de tempo; e, por fim, está chegando à vez do nosso Sarney, que poderia muito bem ter continuado na sua, escrevendo artigos e arrumando empregos para netas, genros e agregados, mas não.

Abduzido pela doce tentação de poder praticar centenas de atos secretos sem pensar no amanhã, ele agora está prestes a seguir o mesmo destino de seus antecessores, que, é bom que se diga, perderam a coroa, mas não a majestade.
Na seqüência de A Triste Partida, depois de vender o jumento, o cavalo e até o galo, a família pega a estrada. No meio do caminho, os filhos começam a lembrar do que deixaram pra trás e choram. Um deles pergunta ao pai: “e meu pobre cachorro, quem dá de comer?”. Já o outro, falando com a mãe, diz: “mãezinha, e meu gato? Com fome e sem trato, Mimi vai morrer.” No embalo, a filhinha, tremendo de medo, diz: “mamãe, e meus brinquedos, minha boneca e meu pé de fulô?”.

Patativa morreu em 2002. ACM, em 2007. Renan e Collor continuam soltos e fagueiros. Sarney, mesmo perdendo, ganha. Lula é ele mesmo e suas circunstâncias. E com você, tudo bem?

Janio Ferreira Soares , cronista da região do Vale do São Francisco, é o atual secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA).

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Comentários

Olivia on 8 agosto, 2009 at 20:34 #

Não, tá uma tragédia este nosso país. Bom mesmo é seu texto Janinho, um bálsamo para nossas almas. Deixa o que é ruim de lado e viva a música popular brasileira, por aí tem salvação.


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