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Postado em 01-08-2009
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 01-08-2009 00:05

Bachelet: pra cima
michelle

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ARTIGO DA SEMANA

Bachelet: A mãe do Chile e o Brasil

Vitor Hugo Soares

Há anos corre de boca em boca por Santiago inteira uma narrativa interessante sobre a presidente do Chile, Michelle Bachelet, que contarei adiante. É um caso sobre o jeito próprio de ser, fazer política e administrar da líder da coalizão chilena no poder, que passou por São Paulo esta semana. Por onde ela esteve – no encontro com o presidente Lula e empresários, na conversa com a ministra Dilma Rousseff (PT) e no almoço com o governador José Serra (PSDB) -, Bachelet parecia flutuar sobre nuvens de algodão doce. Afinal, ela acaba de alcançar um novo recorde de aprovação de sua gestão na opinião pública de seu país: 74%, em plena crise da economia mundial e a menos de cinco meses das eleições presidenciais para a sua sucessão.

O índice de aprovação da “mãe do Chile” – como Bachelet é chamada – é invejável sob qualquer ponto de vista: econômico, político ou pessoal. Isto foi assinalado esta semana tanto pela “mãe do PAC” do Brasil, como pelo tucano paulista. Só é comparável a casos raríssimos de governantes do continente, ou mesmo da América vista como um todo. Números recentes nos Estados Unidos mostram, por exemplo, que Barack Obama patina já em torno dos 50%, depois de ter ostentado índices pessoais de aprovação além dos 70% na chegada à Casa Branca.

Bachelet praticamente só encontra paralelo em termos de popularidade no colega brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, cuja guerra sucessória – apesar dos primeiro tiros já disparados – ainda está a um ano e meio de distância, enquanto obstáculos se multiplicam à sua frente, dois deles com nomes próprios: José Sarney, presidente do Senado, e a voluntariosa ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ungida por Lula para disputar a sua sucessão em 2010. Dilma sentou-se humildemente em uma cadeira para receber, esta semana, conselhos da “mãe do Chile”.

Michelle Bachelet não teve a cobertura jornalística nem análises de sua passagem por aqui, do tamanho merecido por sua relevância atual no contexto político continental. É muito provável que seja diferente em Buenos Aires, próximo pouso da sua viagem. Na esplêndida capital portenha, a chilena tentará “dar uma força” à carente peronista Cristina Kirchner, combalida pelas recentes derrotas administrativas e eleitorais sofridas na Argentina, que produziram mais estragos políticos na imagem da dirigente da Bacia do Rio da Prata que o vírus H1N1.

Mas vamos ao caso referido no começo destas linhas, antes que o espaço acabe:

A história circula desde antes de Bachelet chegar ao Palácio La Moneda, mas segue emblemática como explicação para a capacidade de reação e enfrentamento de dificuldades demonstradas pela simpática e firme líder latino-americana. É do tempo do governo de Eduardo Frei, quando parecia fato consumado para a política chilena o conceito vigente de que o poder é sempre masculino, e ela foi convocada a assumir a complicada Pasta da Defesa no governo socialista. A primeira reunião de Bachelet com os altos comandos militares se iniciou com a seguinte e surpreendente declaração aos circunspetos e desconfiados fardados em volta da mesa: “Sou socialista, agnóstica, separada e mulher… mas trabalharemos juntos”.

Desde então nunca mais o Chile foi o mesmo e Bachelet chegou à presidência. O belo país andino de nível político, educacional e cultural alto, mas de costumes e hábitos machistas e conservadores, estremeceu, é verdade. A popularidade da dirigente caiu logo em seguida abaixo dos 40 pontos percentuais, mas ela não perdeu – em nome de governabilidade ou outro desavergonhado argumento qualquer do tipo – o rumo nos princípios e nas ações.

O jornalista e analista Paul Walder diz, sobre Bachelet, que a avaliação de seu desempenho pode ser feita de muitas e diversas maneiras, mas na política moderna, de frente para o espectador, há só uma que vale: “a opinião pública modelada pelos meios de comunicação”.

Assim, desde o Ministério da Defesa, Michele Bachelet conseguiu realizar um trabalho digno e eficiente. Mas, o maior valor, segundo o analista, foi tê-lo feito bem, apesar de sua condição de mulher. “Sem perder seus atributos originais”, registrou Walder.

Agora, a menos de cinco meses de deixar o poder, em plena campanha para eleição sucessória em seu país, ela surge fortalecida como uma guerreira dos Andes, mas seu triunfo não foi obtido com armas, nem conluios, nem chantagens – políticas ou emocionais. Michele Bachelet brilha fulgurante como uma mulher-governante capaz e decidida, que jamais ocultou na singeleza do comportamento, o seu amável coração de mulher.

Se esta lição foi aprendida, valeu a rápida estada da guerreira chilena entre nós.

Vitor Hugo Soares é jornalista.
E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Oliviao on 1 agosto, 2009 at 7:47 #

Tomara que dona Dilma tenha colhido alguma licão do encontro com Bachelet. Quanto a repercussão na midia pátria sobre a visita da presidenta do Chile…deixa pra lá, já virou brincadeira…mas a blogosfera tá botando para quebrar…Belo e oportuno artigo.


Mariana Soares on 2 agosto, 2009 at 17:33 #

Belo artigo, meu irmão! Como sempre você é magistral com as palavras e a verdade, que sempre lhe acompanham! É preciso, definitivamente, acabar com esta história de que a mulher para ter poder é preciso se “masculinizar”, copiando aquilo que de pior existe em alguns deles. Ser amável nas atitudes e ações não retira ou restringe em nada as ações e atitudes de qualquer bom gestor. Parbéns pelo excelente artigo!


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