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Postado em 27-07-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 27-07-2009 13:52

Consuelo: contra vendilhões
consuelo
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OPINIÃO/BAHIA COM H

Medalha Maria Felipa!

Consuelo Pondé de Sena

Fui, hoje cedo, informada de que mais uma medalha está sendo proposta por uma vereadora desta capital. Desta vez, a medalha Maria Felipa de Oliveira, cuja existência real, segundo a palavra autorizada do Professor Emérito da UFBa, Luís Henrique Dias Tavares, faz parte de mais uma lenda criada pela fértil imaginação dos que reivindicam lugares cativos para seus ídolos fictícios, no panteão da história.

Está na hora de acabar com tanta sandice!

Essas homenagens são boas e rendem lucros para quem vive à custa dos contribuintes. Refiro-me, particularmente, aos vereadores desta capital, muitos deles semi analfabetos, que vivem concedendo honrarias “a torto e a direito”, sem o mínimo respeito àqueles que cultivam o nosso passado.

Reparem que, até agora, não comentei sobre o “protocolo” da Câmara, que está a merecer um texto especial.

OPINIÃO/BAHIA COM H

Tempo houve que, tais manifestações de caráter político eleitoreiro, não eram referendadas sem a opinião dos doutos no ofício. Escutavam-se os historiadores de “peso”, que viviam o dia a dia no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, queiram ou não, àquela altura, o espaço privilegiado de discussões sobre a Cidade do Salvador, acerca do Estado da Bahia e da sua gente.

Hoje, predomina e domina a falta de conhecimento dos proponentes dessas homenagens “fajutas” e prevalece a falta de respeito aos estudiosos.

Por qualquer motivo a Câmara Municipal do Salvador, outrora uma corte responsável de legisladores, faz homenagem a pessoas desconhecidas, que nada fizeram ou realizam em prol da cidade.

Como não tenho receio de contraditas, porque não costumo mentir, nem dissimular, vale recordar que, durante a presidência do vereador Gilberto José, naquela Casa Legislativa Municipal, “mendiguei” a vários vereadores a concessão do título de Cidadão de Salvador para o historiador J.Russel Wood. Cidadão probo e respeitável, postulei essa homenagem pelos inestimáveis serviços prestados à historia desta Cidade. Seu notável currículo, por mim encaminhado junto à solicitação em lide, foi perdido, no emaranhado de papeis descartáveis, pelos “competentes” assessores da Casa. Sabem no que deu a minha proposição? Em negativas sobre negativas. Não, consegui realizar o objetivo, pleiteado pelo Instituto Geográfico e Histórico, do qual Russel Wood é Sócio Correspondente, há muitos anos, ficando o ilustre historiador desapontado com as desculpas a mim enviadas, das quais, como é natural, tomou conhecimento.

Lembro-me bem que até ao vereador Sérgio Carneiro, em quem havia votado em várias ocasiões, pessoa que muito aprecio pela cordialidade, competência e simpatia deixou de atender à minha reivindicação, alegando compromissos anteriores, A meu ver, deveria ser aberta uma exceção por tratar-se de personalidade tão ilustre e prestante.

Graças a Deus, no entanto, o historiador da Santa Casa de Misericórdia obteve a referida honraria graças ao prestígio do Dr. Álvaro Conde Lemos, então, Provedor daquela instituição respeitável. Ainda bem que a dívida foi reparada.

Devo esclarecer ainda que naquela ocasião, Gilberto José alegou que os Vereadores estavam comprometidos com outras pessoas e meu pedido, pedido não, solicitação formal e justa, teria de ser preterido, em favor de pessoas menos “qualificadas”, suponho eu!

Outro absurdo cometido foi a inauguração da estátua de Zumbi dos Palmares na Praça da Sé, sem que fossem ouvidas as opiniões de quem tem conhecimento para tal.

A Cidade de Salvador virou a Casa de Noca, todo mundo faz o que pensa e quer. E para aonde vai à opinião dos que conhecem a História, que não são ouvidos nem cheirados no momento de serem firmadas e executadas tais proposições?

Já perdi a conta das vezes que tenho escrito, por minha conta e risco, contra os espetáculos de “luz, cores e barulho infernal” no Farol da Barra?

Como aceitar que a festa do Dois de Julho tenha arrastado tanta gente para aquele local e esvaziado a Avenida Sete de Setembro, que ficou às moscas este ano?

Que dizer da “poluição sonora “produzida irresponsavelmente naquele espaço histórico e arquitetônico. Da lenta destruição a que vem sendo submetido um dos mais belos carões postais da Cidade de Tomé de Souza? Por hoje é só.

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Consuelo Pondé de Sena preside o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Historiadora, professora da UFBA, cronista do cotidiano, escritora, polemista de primeira linha como já não se vê quase na Bahia do oba-oba quase geral, que a partir desta segunda-feira (27), estréia como colaboradora do Bahia em Pauta. Chega mais, professora. (Vitor Hugo Soares, editor, pelo BP)

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Comentários

Carlos on 27 julho, 2009 at 18:21 #

concordo inteiramente com a professora, inclusive na Assembleia Legislativa também é da mesma forma. Personalidades que nunca fizeram nada pelo Estado, mas que contribuem com as campanhas e divulga os mandatos na mídia. Como exemplo títulos de cidadã baiano para Beth Carvalho, Paulo Coelho e outros tantos que nada fizeram pelo nosso Estado, aliás uma das exigências para apresentação do projeto, derespeitada constantemente.


Laura on 28 julho, 2009 at 1:58 #

É uma pena Consuelo que SSA esteja assim entregue… mas que bom q pessoas como vc continuam na luta pela preservação da verdade histórica. Parabéns!


Jorge on 10 agosto, 2009 at 22:20 #

A minha filha, sentada ao meu lado, curiosa ao observar o entusiasmo que me assaltou ao ler o artigo da professora Consuelo Pondé de Sena, postado neste blog, perguntou-me surpresa: e quem é ela?

Depois de lermos juntos o texto, concordamos que se trata de uma pessoa raríssima, que conserva, com toda a plenitude, a lucidez que costumava illuminar a mente dos baianos de outrora, para que as palavras pudessem sair claras, sem distorções ou rodeios. As palavras, ditas assim, com conhecimento de causa, sem receios de molestar os poderosos de plantão – porque saem uns e entram outros, a meu ver, em oitavas cada vez mais inferiores -, preenchem nossos corações, carentes de sinceridade. Ficamos muito felizes com o texto forte abrigado no Bahia em Pauta.


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