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Postado em 22-07-2009
Arquivado em (Aparecida, Artigos, Multimídia) por vitor em 22-07-2009 12:08


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CRÔNICA/TEMPO

Essa moça tá diferente… uauuuuuuuuuuuuuuu

Aparecida Torneros

Ela era eu, e eu era ela, em 69, vendo o astronauta descer na lua, saindo em 70, pra dançar na rua, em Copacabana, quando o Brasil ganhou a copa. Tanto copo, tanto samba, tanta lua, tanta rua, a moça era eu, magricela, saltitante, cercada de gente, na areia, na maré cheia, em noite de lua branca, éramos um bando de meninos e meninas caminhando na madrugada, o Chico saltando de banda, soletrávamos a banda, que passava, víamos o mundo passar e virar de cabeça pra baixo, o país se escondia no subterrêneo da torturada juventude, da torturante ditadura, nós éramos eles e eles eram todos os que nos perseguiam, dedos em riste, a praia vazia nos dias de chuva, os ventos soprando nos dias de agosto, o amor disposto, aquele que crê, amor de gente nova, de moços e moços, pobres criaturas sonhadoras, com direito a se encantar pra desencantar depois, dando guinadas no futuro, deixando de ficar na janela, descendo para o asfalto, ganhando as calçadas, desfilando de minis, fazendo parte da história, na passeata, no ato, no protesto, no sexo, no envolvimento, no engajamento, da tomada de lugar, marcando posição, defendendo a liberdade, gritando questões de ordem, desordenando tudo, uma geração inteira, de hyppies e guerrilheiros, de gente esfusiante, desafiante, corajosa, em verso e prosa, eles eram elas e elas eram eles, os barcos embarcando canções, festivais, composições, prêmios, viagens, novos rumos, novos baianos invadindo os templos boêmios cariocas, os meninos do Rio, os morros que nao tinham vez, e que buscaram voz, que se favelizaram, as comunidades somos nós e os instintos são de todos…as fotos e os filmes em preto e branco, a revelação, o processo, no escuro, a imagem de um tempo, ela era eu, eu era ela, ele nem sabia se era o meu bem, eu nem sabia lhe dar o meu amor, éramos assim, a medida de um momento em que o mundo parecia simples de ser encarado e resolvido, e ela era prá-frente, e ele estava prá-lá-de-marraqueshi, baseando-se na previsão do tempo, em Woodstok, sem destino, sem lenço , sem documento,ela nem se importava com o cílio postiço, tinha blindagem e maquiagem, usava a pílula, era moderna, misturava os hálitos, os hábitos, os duas peças, os monoquinis, biquini cavadão, o asa delta, o puro sangue de trote vencedor, lá ia ela , e eu era a própria alegria de ser, naqueles anos de 69 e 70, por sentir o amor, enquanto ela era a própria tristeza de ver, naqueles anos de 69 e 70, por ver a dor dos presos políticos, ela e eu nos confundíamos, nos alternávamos, nos desentendíamos, nos questionávamos, nos enturmávamos, nos acostumávamos a ser ora ela e ora eu…
agora ela tá diferente de mim e eu tó diferente dela, só no tempo, porque na carinha de hoje, ambas, reproduzimos a de anteontem, ainda bem…

Cida Torneros é jornalista , poeta e escritora, autora do livro ” A Mulher Necessária”, mora no Rio de Janeiro.

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Comentários

Regina on 22 julho, 2009 at 13:19 #

Que bom, querida Cida, saber que vc foi/eh uma dessas mocas, como eu.
As lembrancas desses anos vividos em uma epoca em que nos achavamos que eramos “os donos do mundo”, deixou nagente algo mais que saudade, a esperanca de que ainda pode voltar…


Laura on 22 julho, 2009 at 23:40 #

Cida podemos ser tantas (eh so nos permitimos), concorda? eu reconheço em mim várias e, as vezes, me surpreendo com umas novas… a alma feminina é selvagem… ainda que algumas vezes se acomode… belo texto.


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