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Postado em 15-07-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 15-07-2009 09:36

Nery: “era uma vez”…
nery
Capinam: também viveu na “mansarda paulista”
capimDeu no blog: (VHS)
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ADEUS A MARIO LIMA

O jornalista baiano Sebastião Nery, que veio a Salvador semana passada para o sepultamento do ex-deputado constituinte e líder petroleiro,Mario Lima, no Jardim dfa Saudade, publicou em seu blog (www.sebastiãonery.com.br) texto com relato sobre a vida e a partida do ex-presidente do SINDIPETRO. O Bahia em Pauta reproduz a seguir.

Sebastião Nery

SALVADOR – Era uma vez quatro amigos. Perseguidos pelo golpe de 64, fugiram de Salvador para São Paulo, onde passaram escondidos, na mais pobre clandestinidade , o ano de 1965. A eles logo se agregaram outros baianos foragidos e acabamos todos hóspedes da solidariedade franciscana do jornalista Adilson Augusto, da “Folha”, que morava em um minúsculo apartamento, no sótão de uma pensão na rua Major Sertório, entre o “João Sebastião Bar” e o “Ela Cravo e Canela”.

Os quatro vinhamos de duras lutas políticas. Um, presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Petróleo da Bahia e deputado. Outro, diretor do “Jornal da Semana”, em Salvador, e deputado. O terceiro, líder estudantil e jornalista. O quarto, líder estudantil e publicitário.

Na “Mansarda” cristã e generosa do “Brasinha”, os quatro esperamos o ano inteiro, comendo o pão que o diabo amassou, que o Superior Tribunal Militar nos absolvesse das acusações histéricas dos vitoriosos.

OS QUATRO

Cada um já havia pago o seu preço político. O primeiro, cassado, preso, depois de um mês numa suja solitária militar em Salvador, no Forte do Barbalho, passou o resto do ano confinado em Fernando de Noronha. O segundo, cassado, preso, jogado em um porão molhado, no Barbalho. O terceiro e o quarto perderam os cursos e os empregos e fugiram a tempo.

Anistiados, dezoito anos depois, os quatro da “Mansarda” voltamos nos braços do voto popular. Mário Lima deputado federal pelo PMDB da Bahia. Sebastião Nery deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro. Hélio Duque deputado federal pelo PMDB do Paraná. Domingos Leonelli deputado pelo PMDB da Bahia. Era a bancada da “Mansarda”.

Sábado, saudosos e doídos, Helio Duque, Leonelli e eu deixamos nosso irmão Mario Lima no “Jardim da Saudade”, aqui em Salvador.

BOM SAMARITANO

O Mario foi, a vida inteira, sobretudo o Bom Samaritano. Sempre se preocupou e cuidou mais dos outros do que dele. Daí sua liderança entre os petroleiros, fundador, presidente e conselheiro, ter durado meio século.

Até na cadeia era assim. Logo na chegada a Fernando de Noronha, em maio de 1964, o coronel Jaime Costa e Silva, que avisava não ser parente do então ministro da Guerra, reuniu o grupo:

– Sei que os senhores foram mandados para cá como castigo para serem punidos. Mas aqui os senhores são meus hóspedes. Ninguém vai sofrer constrangimento nenhum, além da prisão. Espero que se sintam em minha casa, com as acomodações que posso dar.

SEIXAS

Os dois governadores, Miguel Arraes e Seixas Doria, foram alojados no setor dos oficiais e os outros, Mario Lima, deputado federal da Bahia, Djalma Maranhão, prefeito de Natal, muitos outros, no setor dos sargentos e soldados. Um capitão, capitão Virgílio, fazia a ligação entre o coronel e os presos. E era, como o chefe, um homem educado, civilizado, correto.

Um dia, por pressão de Magalhães Pinto, Aluisio Alves e Petrônio Portela, Seixas Dória, que era da UDN, foi solto. Antes, tinha ficado preso em Salvador, lá no quartel do Cabula, fora da cidade, onde também eu estava. Arraes, sem Seixas, ficou só, no seu quarto. E muito triste.

ARRAES

Mário Lima, com sua competente generosidade de sertanejo de Gloria, no sertão da Bahia, chamou o capitão Virgílio:

– Capitão, acho que os senhores precisam tomar uma providência. O governador Arraes está aí, sozinho, nesse quarto. Ele é um homem já de mais de cinqüenta anos, mais velho do que todos nós. Já imaginou se ele sofre alguma coisa de noite, um mal súbito, um enfarte? Quem é que vai acreditar que não foi assassinado pelos senhores?

Os presos assinaram um manifesto pedindo ao comando da ilha que transferisse Arraes para Recife. O coronel Costa e Silva levou o documento para Recife. E Arraes saiu de Fernando de Noronha e voltou para Pernambuco, onde esperou o “habeas corpus” do Supremo, que o libertou.

Arraes chegou ao Rio, foi para a Argélia.

HOMENAGEM

Centenas de baianos superlotaram o Jardim da Saudade, em Salvador, no sábado à tarde, para a despedida de Mário Lima. Sua maravilhosa família de dez filhos, netos e bisnetos, políticos, jornalistas, líderes sindicais, petroleiros e petroquímicos, que ele liderou e a quem serviu em três mandatos de presidente do sindicato e três mandatos de deputado, e seu dedicado e importante trabalho como presidente da Comissão de Direitos Sociais da Constituinte, levaram-lhe o último adeus. O ex-governador Waldir Pires,o secretário Leonelli, dirigentes sindicais, falaram por todos nós. Foi lida uma mensagem comovente e competente de Lula, como amigo e companheiro de lutas sindicais. Até por isso surpreendeu a ausência do governador Jaques Wagner, também ex-presidente de sindicato e dele aliado, como destacado membro do PMDB.

Mas sua falta não foi tão notada porque lá estavam o ministro Gedel Vieira Lima, o ex-ministro Waldir Pires, os ex-prefeitos de Salvador Virgildásio Sena e Lídice da Mata, os ex-deputados Joacy Goes, Marcelo Cordeiro, Sergio Gaudenzi, Fernando Schmidt e Genebaldo Correa, Inácio Gomes, Carlos Sodré, Carlos Marighela Filho, Luiz Gonzaga Ferreira, Sandoval Guimarães,companheiros de diretorias sindicais,inuneros amigos.

www.sebastiaonery.com

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Comentários

Cida Torneros on 15 julho, 2009 at 15:58 #

Texto rico em informações e absolutamente comovente. Obrigada Vitor, por nos brindar com esta preciosidade escrita pelo grande jornalista Sabastiao Nery, que homenageia Mario Lima, focando o que é principal, que além da ideologia e da luta política o que engrandece alguém é mesmo o seu teor humanitário. Que o emérito e histórico sindicalista brasileiro descanse em paz, após nos ter legado exemplos e referências sólidas de brasilidade.
Abraços
Cida Torneros – RJ


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