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Postado em 08-07-2009
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por Dimas Fonseca em 08-07-2009 22:40

UTI hospitalar
uti

CRÕNICA/COMPORTAMENTO

SADISMO OU PARANÓIA?

Dimas Fonseca

Tive que enfrentar esta semana um dos meus maiores medos: uma UTI – pois a idéia de ficar em uma UTI hospitalar é apavorante para quem sofre de “descontrolefobia”. Não se assustem com o palavrão que eu explico.

Ainda criança, por volta dos 12 anos, durante uma “brigadeira” (simulação da luta livre então na moda na TV) com meu saudoso irmão -quase gêmeo- Saulo, ao entrar em pânico por ser imobilizado com a cabeça embaixo da cama, descobri que tinha medo de lugares fechados, logo diagnosticado como claustrofobia por minha culta irmã mais velha.

Doença da qual me declarei livre um ano depois, após passar horas trancado na minúscula dispensa da casa, em um processo de exposição progressiva, somente para descobrir, anos mais tarde, que podia ficar dias trancado, desde que com a chave na mão, porém, um minuto sem a chave me levava ao pânico. Tanto faz ficar preso em um cubículo ou acorrentado a um poste no meio da rua, a falta de controle da situação me leva ao pânico. Batizei minha doença de “descontrolefobia”.

Após uma única noite de diarréia, vitima de um ROTAVIRUS que está passeando por Salvador neste inverno, tive uma violenta desidratação. Atendido na Emergência do Hospital Português, neste fim de semana, fui considerado candidato prioritário a uma vaga na UTI, na qual tive o desprazer de passar três noites. Estou escrevendo de um apartamento do hospital, me perguntando como sobrevivi em hospitalizações anteriores, sem notebook e internet móvel.

Nas duas primeiras noites estava muito debilitado para compreender minha situação, o que junto com a presteza do atendimento e gentileza da equipe médica / enfermagem, impediu minha fobia de se manifestar. Minha única queixa deste período foi a insônia causada pelos intermitentes apitos dos equipamentos.

Na terceira noite a coisa foi totalmente diferente: uma noite digna de qualquer filme de suspense e terror. Já plenamente consciente, comecei a ficar incomodado por depender de terceiros para urinar, e principalmente defecar (incluindo a limpeza posterior), o que infelizmente fazia em intervalos máximos de 2 a 3 horas.

Comecei a notar que “Everaldo”, atendente que entre outras coisas era responsável por meu leito nesta noite, era sádico (claro que mudei o nome, não vou crucificar um possível inocente), e aproveitava todas as chances de aumentar meu desconforto.

Após resistir o maior tempo possível (quanto menor a freqüência, mais cedo me liberariam da UTI, era meu pensamento), quando as cólicas estavam insuportáveis, pedia ao Everaldo para me colocar o famigerado APARADOR, neste momento, mesmo ele estando bem a minha frente precisava chamar duas a três vezes para ser ouvido, pedia-me para esperar um minuto, e até então desocupado, passava a andar de um lado para o outro, a meu ver sem fazer absolutamente nada, a não ser procurar uma desculpa para me fazer esperar.

Após mais dois ou três chamados e outro tantos “já estou indo”, colocava-me o aparador, e dizia para chamar quando acabasse. Após gastar a garganta em inúmeros chamados, lembrava-me que as equipes anteriores aguardavam do outro lado do anteparo que isolava meu leito, enquanto ele saía e ia aguardar meu chamado a distância segura (segura de que não ouviria). Somente após pavorosos minutos de dores na coluna (a posição deitado com o aparador não é confortável para ninguém, mas é terrível para quem sofre da coluna como eu), ele aparecia para tirar o aparador, e (para minha) humilhação suprema, limpar minha bunda.

Quando acabava este suplício, pedia para deixar o anteparo aberto, para que pudesse ver o relógio na parede em frente, única forma de controle que ainda tinha, da lenta passagem do tempo. Descobri que para me “sacanear”, assim que eu fechava os olhos por cinco minutos, ele fechava novamente o anteparo.

Depois de algumas apavorantes repetições, tentando chamar o Everaldo para me tirar o aparador, descobri que bater na grade, ao lado da maca, fazia barulho suficiente para ser ouvido em toda UTI, e o Everaldo chegou assustado, “para que isto, basta chamar meu nome que estou ao lado”, ao que respondi que chamava há meia-hora, e ele pediu para chamar um pouco mais alto, passamos a nos entender: sabíamos que se ele demorasse mais de um minuto para me atender toda a equipe da UTI ficaria sabendo quanto ele era ineficiente, e ele parou de me atormentar.

Paranóia ou sadismo: passei metade da noite na UTI sendo atormentado por um funcionário sádico ou passei a outra metade tiranizando um inocente e prestativo funcionário. Esta é uma dúvida que levarei para o túmulo, inocente ou culpado. Só Everaldo sabe a resposta.

Dimas Fonseca é auditor fiscal e faz parte da equipe de colaboradores do Bahia em Pauta. Email: dimas.fonseca@gmail.com

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Comentários

Laura on 9 julho, 2009 at 0:14 #

Dimas … Everaldo é um sádico e eu to com vonatde de matar ele (risos). Porque a única coisa que tem relevância para julgar se ele é bom ou mau funcionário é como vc se sentiu. Beijos!!


Graça on 9 julho, 2009 at 1:10 #

Fico feliz pela sua alta da UTI, superando esta experiencia de desconforto e “dependencia de terceiros”. Internação neste tipo de unidade deve ser mesmo deficil, sobretudo para aqueles que conscientes, observam, analisam e “se apavoram” com a complexidade da tecnologia existente. Quero acreditar que Everaldo seja inocente – o medo às vezes, distorce a realidade. Enfim, o importante é que você, recem saido da UTI, já está bem o bastante para postar esta cronica. Este é o Dimas que conheço! Saúde!


Maria Perpétua E. de Souza on 9 julho, 2009 at 11:15 #

Querido Dimas,

Pessoas como o sr. Everaldo devem ser esquecidas, pois, a maldade dele um reverterá contra ele próprio. É lamentável que existam pessoas com comportamento tão perverso. O importante é que você se superou e saiu da UTI e agora e pensar positivo para retornar ao seu lar.
Rezo pela sua recuperação.
Beijo
Perpétua


glauce on 9 julho, 2009 at 13:13 #

adorei, seria engraçado se não fosse trágico, vc poderia ter se tornado um paciente sádico, aí a sua crônica teria sido mais interessante ainda.


olivia on 9 julho, 2009 at 15:29 #

Sua crônica salvou o “cara”. Deixe o que é ruim de lado e bola pra frente. Continue escrevendo, bom texto.
Saúde e paz.
Olivia


Mariana Soares on 9 julho, 2009 at 18:44 #

Caro Dimas, sua crônica é uma grande sacada de quase todo ambiente hospitalar que, ás vezes, temos que enfrentar, na caminhada da nossa vida terrena. Penso, meu caro, sem saber até agora se o Everaldo é sarcástico ou não, que os médicos, enfermeiros e auxiliares, que lidam muito de perto com o nosso bem mais precioso – a vida, criam uma espécie de barreira afetiva com todo e qualquer paciente, para que possam aguentar o tranco da profissão. Não deve ser nada fácil para eles o dia a dia do sacerdócio que abraçaram. Por isso, Dimas, releve o Everaldo e festeje a alegria do seu restabelecimento, do seu retorno ao lar, da sua bela família, da pesssoa legal que é você e de tudo de bom que tens plantado e colhido. Viva a você! Muita saúde, amor e alegria é o que lhe desejo hoje e sempre.


Regina on 9 julho, 2009 at 19:10 #

Eu tambem sofro de “descontrolefobia”. Por isso nao bebo nem uso drogas, a nao ser para acalmar a dor (ai vc pode me dar qualquer coisa, que eu engulo sem perguntar) perder a capacidade de determinar o que vai passar comigo e uma coisa que me enlouquece. Algo assim ocorre sempre nessas situações de hospital, a gente ta ali como paciente, numa situacao de emergencia, e, para os que ali trabalham, aquilo eh rotina, sempre haverá dois lados nessa moeda. Para voce, grande guerreiro, a vida segue gloriosa, e só vc mesmo sabe o que isto lhe tem custado. Um grande abraço!


Maria do Socorro Fonseca on 23 julho, 2009 at 13:17 #

Querido Dimas:

Fico mais com a tese do sadismo, porque já presenciei em várias ocasiões o paciente chamar seguidamente o médico e/ou auxiliar e estes continuarem conversando – só atendem quando o assunto termina. Às vezes acham até que o paciente é chato!
Felizmente há o contraponto: já vi outros (as) que estão sempre por perto e quando têm uma folga vão ao paciente perguntar se ele está bem.
Você é muito lúcido para ter esse tipo de paranóia!
O máximo que pode ter havido de sua parte foi uma pequena relativização do tempo para mais (quando a gente está em uma situação ruím, o tempo parece que não corre…).
Deixando Everaldo para lá, o importante agora é que você está de volta – deu-nos um grande susto!
Com a sua força de guerreiro, como salientou Regina, a fé e o amor de todos nós, familiares e amigos, você vai superar todas!
Beijos.

P.S. Conheço muito mais gente que tem “descontrole fobia”, inclusive, esta que vos fala. Rsrs.


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