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Postado em 27-06-2009
Arquivado em (Artigos, Multimídia) por vitor em 27-06-2009 09:13

CRÕNICA DE SENTIMENTOS

QUASE BRANCO, TRISTE E SOZINHO

Janio Ferreira Soares

Vibrei muito quando vi pela primeira vez aquele menino de nariz de taboca e cabelo black power mandando ver um suingue completamente atípico na tela da tevê. Ele era o menorzinho dos cinco jacksons e cantava e saracoteava de uma forma bem diferente dos demais, prenúncio de que ali tinha algo bem além dessas susans boyles da vida e desses “prodígios” que se esgoelam nas tardes de sábado no programa Raul Gil.

Mais pra frente, namorinho no portão e sarrinho nas boates sob os acordes de suas primeiras baladas e souls, confirmariam o que todos desconfiavam: ali estava um novo e legítimo brother da Motown, desses que seguiriam sem pestanejar os mandamentos black do grande Gerson King Combo, que dizia: “Dançar, como dança um black! Andar, como anda um black! Falar, como fala um black! Viver, sempre na onda black! Ter, orgulho de ser black!”. Só que a coisa não foi bem assim.

À medida que o tempo foi passando e a sua voz engrossando, começaram também as suas primeiras mutações físicas. Primeiro, o nariz foi afinando. Depois, o pixaim foi ganhando cachos mais lisos do que as suas andadas pra trás. E, por fim, foi a vez de a sua pele começar a embranquecer de tal maneira, que, à época, o meu vizinho e figuraça, João Vaqueiro, me saiu com mais uma de suas tiradas impagáveis: “Ôxente, quem já viu! E ele é as avessas do urubu, é, que nasce branco e depois fica preto? Eu sabia que dinheiro comprava quase tudo, mas cor? Agora, os bagos, eu aposto! Ali, só se transplantar. Ô Adalgisa, quando eu ficar rico vou lhe deixar mais branquinha do que a farinha de Sergipe!”.

Brincadeiras a parte, sua morte foi bastante prematura, embora meio que anunciada. É que, apesar de um grande artista e compositor, de há muito ele se transformara num cara muito, mas muito, estranho. A propósito, depois da autopsia, talvez a gente fique sabendo se o seu clareamento foi devido a algum problema de saúde ou se foi, como brincou seu João, por conta dessas maluquices que só o dinheiro pode proporcionar. Só sei que à medida que ele mudava de cor e de feições, sua tristeza e solidão só aumentavam. Uma pena.

Agora só me resta botar pra rodar uns velhos discos com aquelas canções do tempo em que ele era um garoto lindo e risonho, e lembrar das noites em que a grande onda da moçada ainda era dançar suas músicas pra frente e pros lados, botando pra quebrar debaixo das luzes estroboscópicas das boates.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco

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Comentários

Regina on 27 junho, 2009 at 12:14 #

Companheiro: Costumo respeitar a opiniao de quem quer que seja, por mais diferente que seja da minha e defendo, ate a morte, o direito de expressao assim como nao posso calar quando sinto que eh necessario expressar o que sinto.
Quem acompanhou a carreira e a vida de Michael Jackson, nao so com os sentidos mas com o coracao nao pode chegar a conclusao que voce chegou pois “ser branco” nunca foi sua intencao e o sue “black power” nao dependia da cor da pele, estava em tudo que fazia e dizia mas nao como uma “marca registrada” que o fizesse superior ou inferior a outras, mas de uma forma natural.
Michael foi uma pessoa extremamente sencivel, com serios problemas psicologicos e emocionais, sempre em busca da perfeicao. Sua carreira artistica poderia ter tomado diversas formas e inumeras possibilidades, mas ele tinha que viver a vida que lhe tocou viver e era obivious que sofria muito, nao so a dor fisica (veja o resultado, por tratar alcamar o monstro que o devorava) mas, sobretudo emocional (e essa nem todos os unguentos conseguem acalmar) talvez, por isso, essa vontade incessante de se re-inventar.
Ele, Michael Jackson, conseguio, apesar de tudo, transmitir seu pensamento, sua forca gigante, sue imenso amor a humanidade atravez de suas musicas e interpretacoes estelares que ficarao conosco de forma indelevel pois ja modificou nossa forma de ser e de pensar.


Laura on 27 junho, 2009 at 15:12 #

Com certeza existe muito mais entre o céu e a terra do q supõe a nossa vã filosofia. Os 5% do cerébro q utilizamos ainda é muito pouco… por isso, talvez, vez ou outra apareçam gênios… estes nunca se enquadram na vidinha mediana e burguesa que nós pessoas “normais” levamos, têm a coragem de desafiar tudo, transgredir padrões, convençõoes, preconceitos… criam, inovam, chocam, fazem a gente pensar, sentir, refletir, aprender. Eu não era fã do Michael até pq conheci pouco do trabalho dele, mas reconheço nele uma dessas figuras que fazem a humanidade dar um passo a frente na evolução. Deve estar agora junto com os Beatles, Elvis num lugar q talvez lhe faça mais sentido. Obrigada Michael.


janio on 27 junho, 2009 at 19:07 #

Laura e Regina, minhas lindas, longe de Min (parente distante da madame do mesmo nome, parceira de Maga Patalógica), querer discorrer sobre a competência do cara ou coisa que o valha. Mas que ele, a partir de Thriller, se enveredou muito mais pro lado de Britney Spears e Shakira, do que pras bandas de Marvin Gavin e Ottis Radding, isso ninguém pode negar. Aliás, tou escrevendo isso ao som de I’ll Be There. Vinil. Bjs.


rosane on 27 junho, 2009 at 20:29 #

Regina e Laura. Acabo de rever, no youtube, o famoso video em que detentos de Cabu, nas Filipinas, presos por assasinato e trafico de drogas (barra pesada, portanto),dancam a coreografia de Thriller. Momento de pura transcendencia da condicao humana, sob a inspiracao de um grande artista. Para mim, aquilo bastaria para justificar a genialidade de Michael Jackson, do qual o que eu mais admirava era o swing.


Regina on 28 junho, 2009 at 0:01 #

Pois eh isso que vamos ver, ja estamos vendo, as pessoas de todas as cores, de todo o Mundo, de todos os credos, de todas as idades, saindo as ruas ou se manifestando de qualquer maneira que possam, por que Michael tocou fundo (pode ser manifestacao de raiva ou de amor) mas haverao manifestacoes sim, por que o amor germina!


Regina on 28 junho, 2009 at 22:01 #

Presado janio, eu acho que vc parou de acompanhar o Michael desde muito tempo ou estamos falando de pessoas diferentes. Britney and Shakira???????????? pelo amor de Deus!!!!!!!!
Michael nao quis seguir a mesma linha do Motown, seria mais um se assim o fizesse, desde que se rebelou contra o tirano pai e tomou a direcao que ele achou melhor. Ele, Michael, eh um genio, seu legado fala por si mesmo, alias, eu entendi bem? Vc esta escutando em vinil????
Depois de Thriller (1982), so pra citar alguns, veio Bad (1987), Dangerous (1991) and HIStory (1995).
Mas, como eu ja disse antes, ele teve que viver a sua vida, e ai como nos todos sabemos “eh que a porca torce o rabo” a coisa se complica, principalmente quando a pessoa recusa, ou nao ten condicoes de entender, que o tempo passou…
A comunidade negra aqui nos Estados Unidos nunca o abandonou e sempre o considerou parte dela apesar das aparencias. Na entrega de premios do BET a se realizar hoje sera prestada a ele muitas homenagens, espero que vc possa ver.


Laura on 28 junho, 2009 at 22:24 #

Janio seu texto foi ótimo, polêmico (risos)… nos colocou diante do gênio bizarro que o Michael foi e sempre será… mesmo tendo decaído um pouco depois de Thriller; afinal era humano e tinha suas limitações. Todavia, acredito que o que ficará marcado n serão as bizarrices assim com n foram as de Van Gogh, Nietzche entre outros gênios bizarros. Ficará a lembrança do ídolo que fez os presos de cabul (como nossa querida Rosane lembrou), crianças, adultos e velhos de todo o MUNDO dançar. Diria mais, parodiando Cristina Guerra, “a ausência que fica não tem cor”. Entendo que no seu texto não foi dito o contrário. Beijos para todos!


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