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Postado em 19-06-2009
Arquivado em (Artigos) por vitor em 19-06-2009 18:54

Sarney; “figuraça, esse maranhense”/ Agência Brasil
senador

CRÔNICA POLÍTICA/COSTUMES

EU QUERO SER JOSÉ SARNEY

Janio Ferreira Soares

“Sobre o tapete azul do plenário (que infelizmente lembra o mar da Bahia nos fins das tardes de outono), um velho cruza a soleira sem botas nem barbas longas, sobe a tribuna e começa a falar. Dessa vez, seu surrado bigode já não tem a mesma firmeza de antes e treme mais do que o habitual diante do microfone e de dezenas de cabeças com volumes capilares diversos e tonalidades das mais dissonantes. No final do discurso, tapinhas nas costas acompanhados de “muito bem, presidente!” se repetem a exaustão, sinal de que o recado chegara a quem de direito. Pronto. Está garantida a pauta do Jornal Nacional e as manchetes dos principais jornais do País, até que novos escândalos e assuntos mais quentes apareçam.

Como o titulo já entrega, o dono do bigode em questão é o glorioso José Sarney, que esta semana subiu a tribuna do Senado para se defender das acusações de usar o cargo para empregar parentes através de atos secretos. Normal. Nada que os seus antecessores e colegas já não conheçam ou tenham praticado a fundo.

Figuraça, esse maranhense. Conciliador nato, sempre com um demi-sorriso nos lábios, ele deve ter sido um daqueles do poema de Drummond, que, ao nascer, foi escolhido por um anjo que sobrevoava encantado os Lençóis Maranhenses, que profetizou: “vai, Ribamar, ser Sarney na vida!”. E ele o é até hoje, sempre com sua habitual competência para compor com qualquer força política que esteja no poder.

Por conta disso é que eu acho que ele tira essa crise de letra, apesar das tais acusações desses atos secretos. Aliás, eu fico aqui imaginando que atos são esses e como eles foram executados. Será que no Senado existe algum túnel secreto que vai dar num imenso salão iluminado por tochas, onde uns poucos senadores com capuzes nas cabeças e vestindo longas capas pretas (faça um esforço, feche os olhos e tente imaginar Wellington Salgado nessa situação), se reúnem para escolher aqueles que serão agraciados para certos cargos? Ou será que Sarney, incorporando um poderoso Boi Bumbá, hipnotiza a todos e entra nos seus cérebros, como faz John Cusack no filme Quero Ser John Malkovich? (Para quem não assistiu, esse filme conta a história de um camarada que trabalha numa minúscula sala e lá descobre uma passagem secreta que vai dar dentro da mente de John Malkovich. Uma vez nela, ele fica durante quinze minutos vivendo a vida do genial ator americano, até ser arremessado de volta numa estrada qualquer).

Confesso que eu também adoraria descobrir um caminho secreto que desse acesso ao interior da cabeça de Sarney. Acredito que lá dentro, depois de ultrapassar a guarda de maribondos de fogo, eu encontraria vários sarneyzinhos em reuniões sigilosas com renanzinhos, jucazinhos e Idelinhas, elaborando a famosa lista dos escolhidos. Na parede, fotos de Geisel, Tancredo, ACM, FHC, Lula, Dilma, Serra e várias molduras ainda em branco. Grande Ribamar!

Janio Ferreira Soares, escritor, é Secretário de Turismo e Cultura de Paulo Afonso(BA), no Vale do São Francisco.

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