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16

Sarney: discurso reprovado no Senado
sarney
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O apelo ao emocionalismo para obter apoio de seus pares, em lugar das aguardadas medidas e ações concretas,  para enfrentar as denúncias graves de desvios e corrupção na instituição que preside, marcou o pronunciamento do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) , nesta terça-feira (16).

O presidente do Congresso citou Joaquim Nabuco, ao afirmar que “defender-se não é vergonha”, tentou comover o plenário e a plateia ao lembrar problemas de saúde da filha e governadora do Maranhão, Roseana (a que atribuiu uma das causas de seu alheiamento diante do agravamento da situação no Senado) e disse em sua defesa: “A crise do Senado não é minha, é do Senado, essa instituição que devemos preservar”, afirmou no pronunciamento feito de tribuna na abertura da sessão plenária.

Na tribuna, o que deveria parecer grave e solene, soou patético e, em certo momentos até arrogante, em contraste com a habitual imagem de modéstia do senador pelo Amapá. Em nenhum momento luziu nem o Sarney intelectual, nem o orador empolgante que se vê,  por exemplo, no famoso filme sobre o Maranhão feito pelo cineasta baiano Glauber Rocha.

O que se presenciou nesta tarde, no plenário e nas imagens que as TVs transmitiram para o país, foi um político vacilante, um administrador claudicante, mesmo quando tentava falar grosso, além de um homem atemorizado diante de uma crise que ele tentou jogar no colo ou, ao menos, dividir com seus companheiros de Casa, sem sucesso. É o que ficou evidente na frieza com que suas palavras foram recebidas do começo ao fim do discurso, e pelos discursos de protesto e reprovação que se seguiram no Plenário.

RETÓRICA REPROVADA

“A instituição é maior que todos nós. Nós a recebemos assim e temos de transmiti-la da mesma maneira, pois somos transitórios”, repetiu pela enésima vez o senador do PMDB e senhor do Maranhão há mais de meio século. Sobre os escândalos que acontecem no Senado, Sarney disse: “Não seria agora na minha idade que iria praticar qualquer ato menor que nunca pratiquei na minha vida. Aqui assisti a muitos escândalos, muitos momentos de crise, mas em nenhum momento meu nome esteve envolvido”.

“Nunca tive meu nome associado às coisas que são faladas aqui dentro do Congresso, e isso é crise mundial, o que se fala aqui fala na Espanha, Inglaterra e Argentina em todos os lugares”, enfatizou o presidente, sempre genérico e vacilante do começo ao fim

“Estou aqui há quatro meses como presidente. O que nós praticamos? Só exclusivamente buscar corrigir erros, tomar providências necessárias ao resgate do conceito da Casa, isso não se faz do dia para a noite, e nem é do meu estilo que o faça soltando fogos de artifício”, concluiu, quando já praticamente ninguém duvidava que a montanha havia parido um rato.

“Não devo dizer contudo que pude me dedicar totalmente, atravessei um problema que todos aqui como pais sabem, nesses meses todos, e agora me libertei deles, Deus me exige a penitência dessas coisas que tenho que falar, mas muito maior foi a graça da recuperação da minha filha”. O presidente do Senado se emocionou ao falar da filha, Roseana, que passou por uma delicada cirurgia recentemente.

Firmeza apenas nos trechos do pronunciamento em que o presidente do Senado se referiu a funcionários subalternos da Casa. No fim a indiferença, pior condenação para um homem público: Sarney saiu da tribuna meio trôpego e coberto por um silêncio dos mais expressivos para quem entende o mínimo de signos do poder, apoiado no ombro amigo do velho aliado Romeu Tuma e mais uns poucos colegas.

Bem merecido!
(Vitor Hugo Soares)

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