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Postado em 14-06-2009
Arquivado em (Artigos, Multimídia) por vitor em 14-06-2009 12:54

Jackson: o xaxado em pessoa

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CRÔNICA DO COTIDIANO

UM XAXADO NO RIO DE JANEIRO

Gilson Nogueira

A bem organizada Feira de São Cristóvão, no bairro do mesmo nome, deu a partida, ontem, sábado, 13 de junho, Dia de Santo Antonio, ao São João na cidade do Rio de Janeiro. Desde as primeiras horas da manhã, já rolava, por lá, o autêntico forró no som que vinha das lojas de CD e das caixas acústicas dos dois palcos de shows daquele espaço de preservação das tradições nordestinas, ambos decorados com bandeirolas coloridas, sob teto de plástico, no formato do chapéu de couro do vaqueiro que Luiz Gonzaga transformou em uma de suas marcas, junto à sanfona, instrumento que seu pai, o velho Januário, ensinou-o a tocar, de forma monumental, na difusão das excelências do povo da Região Nordeste e, paradoxalmente, de seus dramas de nascença, como a falta de saúde e educação escolar para seus filhos.

Na feira, cantores e músicos desfilavam o melhor da música das terras da rapadura, farinha de mandioca, carne de sol, cachaça pura, requeijão, pimenta de cheiro, manteiga da boa, carne de bode e outras delícias da culinária da região que orgulha o Brasil por sua cultura e resistência ao abandono a que sempre foi relegada, desde o tempo em que o capeta era menino.

Apesar do gemido secular que ecoa pelos quatro cantos do mundo e dos remendos demagógicos que tentaram – e não conseguiram – consertar, ainda, o rombo no traseiro de sua calça, resultante de anos e anos sentada à beira do caminho à espera de soluções definitivas para seus problemas crônicos, como, por exemplo, a falta de ações duradouras no combate à seca, seu mal maior, e à sua pobreza generalizada, onde educação e a saúde despontam como os mais graves, entre eles, e às intempéries que, volta e meia, castigam sua gente trabalhadora, a sensação, na festa, com direito a premiar que subisse no pau de sebo, era que, no Nordeste a alegria faz parte do DNA de quem nasceu onde canta a Asa Branca e o mandacaru, apesar dos espinhos, serve de alimento.

As pessoas, dançando, ou, simplesmente, assistindo forrozeiros, tocando e cantando, pareciam estar diante de um coreto, na praça, aplaudindo as promessas do prefeito do lugar, ou, no fundo do quintal de terra batida do vizinho levantando poeira em um arrasta-pé porreta, daqueles da gota serena, bom como corno, mesmo.

Tudo, ali, parecia esperanças de quem acredita demais nos home e nos seus discursos. Os mais críticos, como meu amigo Murilo, com sua filhoca nos braços, diziam que, por conta disso, o nordestino, antes de ser um forte, é, sobretudo, um ingênuo. Seja como for, na capital dos tiroteios, em escala assustadora, nas ruas e nas favelas, o amor estava no ar.

Havia um cheiro de milho assado misturado ao perfume da mocinha que tinha ido àquela feira para encontrar o príncipe encantado da promessa feita ao pé da estatua do santo casamenteiro. Muita gente alegre, dando-me a impressão de estar feliz, compartilhando, ordeiramente, junta, o prazer de estar, ali, como se fosse uma só família. Na saída, um cabra da peste, fantasiado de Lampião, dançando xaxado, vem de lá, com a cara de quem comeu e não gostou. Ao chegar perto de mim, estende-me a mão.

“É agora”, pensei. O bicho rodopeia e…, de repente, saca um sorriso. Dei-lhe um abraço. Êta festa boa da moléstia! – gritei, enquanto saboreava um guaraná de nome Jesus.

Gilson Nogueira é jornalista.

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