jun
09
Postado em 09-06-2009
Arquivado em (Artigos, Multimídia) por vitor em 09-06-2009 19:53

Pianista Paula Faour

===================================================
CRÔNICA DO COTIDIANO

O GRANDE AMOR

Gilson Nogueira

“Por um momento, achei que todos os que passavam à minha frente estavam de luto, pela cor de suas camisas, blusas, calças, saias, gravatas e paletós, no agitado Centro da cidade do Rio de Janeiro. Era a hora do almoço. Parecia haver um funeral inacabado para comparecer, na agenda daquelas pessoas que compunham aquele séquito anônimo.

Não parecia, contudo, haver tristeza em seus semblantes, ainda que a idéia de terem combinado usar as cores preta e branca em seus trajes de trabalho, como homenagem às 228 vítimas fatais do desastre com o avião da Air France que mergulhou nas profundezas Oceano Atlântico, há dez dias, fosse bem forte. Vendo-as apressadas, imaginei-as formigas humanas a sair de seus buracos para se alimentar, na selva de concreto de prédios antigos do Rio.

No entra e sai dos restaurantes, que são muitos e variados, ali, a tragédia, se não dominava as conversas entre elas, tinha assento em seus pensamentos, como no meu. Por isso, no ar, era difícil ouvir um gargalhar qualquer, como em dias de não lamento em escala global. No máximo, de perto, captava-se um sorriso, em tom menor, na intimidade dos passantes.

Percebi que ao simples toque no assunto da tragédia aérea, o interesse delas era saber quanto corpos haviam sido resgatados do mar até aquela hora. As atividades em seus respectivos empregos, no restaurante onde eu estava, era o tema no falar baixinho que ocupava a maioria das mesas, na silenciosa agonia de quem chora algo que perdeu. A alegria entrara em feriado. O carioca, que faz do local seu ponto de encontro, de segunda a sábado, esquecia a piada e, até, a cerveja, por conta do clima que domina, com razão, os ares do país que, junto à França, perdeu a maioria de patrícios no fatídico acidente.

Voltei para casa, sem graça, achando que havia alguma coisa que não combinava com aqueles turistas querendo que os cariocas sorrissem diante de suas máquinas infalíveis. Era como se eu estivesse no lugar errado, na hora errada, vendo gente errada, a importunar meu longo adeus silencioso, na angustia dos porquês diante das fatalidades. Entrei depressa no quartinho do computador e coloquei o Cd de Paula Faour, Cool Bossa Struttin, para rodar. Escolhi a faixa dois, que toca, agora, repetidas vezes, para aumentar mais e mais minha saudade dos que morreram no desastre.

É um sentimento masoquista, eu sei, mas, eu quero, eu preciso chorar minha agonia, até que minhas lágrimas invisíveis parem de cair feito os toques de piano de Paula, verdadeiras gotas de orvalho, em O Grande Amor”.

Gilson Nogueira é jornalista

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos