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Postado em 05-06-2009
Arquivado em (Artigos, Multimídia) por vitor em 05-06-2009 09:36


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CRÕNICA DO COTIDIANO/LEMBRANÇAS

Vamos à luta!

Gilson Nogueira

Salvador é uma das 12 capitais brasileiras escaladas para sediar algumas partidas da Copa do Mundo de 2014. Palmas para ela! O fato irá proporcionar enormes benefícios à capital do estado cujo povo faz do futebol uma de suas maiores paixões, tendo o Carnaval entre elas. De melhoramentos no sistema viário a outras intervenções de peso na infra-estrutura da cidade, a Copa deverá provocar mudanças definitivas na paisagem urbana da Meca da Capoeira que, hoje, parece gemer calada ao receber golpes mortais da especulação imobiliária.

São punhaladas arquitetônicas que a descaracterizam, da noite para o dia. Salvador geme, baixinho, ao ver sangrar o que restou de sua Mata Atlântica, principalmente, às margens da Avenida Paralela, e não se rebela, como deveria, por inércia ou ingenuidade de sua boa gente, com o fato do Abaeté vir a secar, de vez, e deixar de ser uma lagoa escura, arrodeada de areia branca, como cantou o mestre Dorival Caymmi, ícone maior de nossa música.

Os cartões-postais da Bahia correm o risco de se perpetuarem, apenas, no papel. Salvador, a dona da bola, quando o assunto é festa, parece aceitar, de braços cruzados, passivamente, com raras exceções, de grupos que buscam impedir a destruição do seu patrimônio natural, sua morte anunciada. É preciso dizer Não! Dessa vez, a esses capitães do lucro a qualquer preço, neo-invasores de terras alheias!

As dunas, no entorno do Abaeté, onde a natureza era intocada, no tempo em que as serenatas existiam, começam a ser destruídas, para dar lugar à ampliação do Aeroporto Internacional Deputado Luis Eduardo Magalhães, que deveria voltar a chamar-se Dois de Julho. Os horizontes da nossa urbe, sob a ótica de quem defende a qualidade de vida da sua população, revelam-se turvos nos aspectos ambientais. Dessa sanha imobiliária, que agride a paisagem, derivam males incuráveis, como, por exemplo, a perda da auto-estima dos habitantes da cidade por sua terra, como se algo ferisse seu amor-próprio. É preciso estar atento e forte para impedir que Salvador deixe de ser Salvador. Vamos á luta!

O aquecimento global não é mais uma ameaça. O clima da maior metrópole nordestina está mudando, para pior. Não posso mais dizer às pessoas que ele é o melhor do mundo. Há, no espaço de minhas lembranças da mocidade, a Fonte Nova de antigamente, com seu formato lembrando uma ferradura.Creio, para permitir ao vento – que balançava as palhas dos coqueiros e que encrespava as águas do mar -,entrar, por ali, de graça, a fim de assanhar, mais ainda, os cabelos da morena, na torcida do Bahia. Era um gol de vida!

Gilson Nogueira, jornalista, ex-morador do bairro da Saúde, em Salvador, a menos de 300 metros do estádio da Fonte Nova em linha reta.

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Comentários

Laura Tonhá on 5 junho, 2009 at 13:50 #

Gilson,

SSA é uma cidade regional, peculiar e charmosa como poucas… é uma pena que especuladores estejam “usurpando-a” a qualquer custo, pena maior é saber que, na maioria dos casos, não é o povo, originalmente baiano, quem esta usufruindo das benesses, e sim exploradores (ou não) do eixo e Rio-São Paulo e do resto do mundo, os quais chegam em nossas terras e cercam-se dos melhores terrenos, enquanto nós assistimos passivos e conformados no jeito baiano de ser.

Em tempo, no último dia 25 em um badalado restaurante baiano, em São Paulo, foi comemorado novo empreendimento do mercado de luxo em Itapororoca, próximo a Trancoso; dizem que o lugar é um paraíso…ah, os donos: Ivan Zurita, Ronaldo (Fenomeno), Washington Olivetto entre outros.

Parabéns, bela crônica.


Regina on 5 junho, 2009 at 23:41 #

Querido Gilson:
Estou me alistando na linha de frente dessa luta. A nossa velha e amada Salvador vai mudar, ja que isso faz parte da vida e ela precisa seguir viva eternamente, mas nunca descaracterisar-se e jamais perder suas raizes culturais. Tem espaco e lugar pra tudo no devido tempo.


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