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Postado em 02-06-2009
Arquivado em (Artigos) por vitor em 02-06-2009 22:43

desastre
CRÔNICA / PARIS-RIO

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DEVEDORA DA PRÓPRIA EMOÇÃO

Aparecida Torneros

Saí de Paris na manhã ensolarada de um domingo primaveril depois de viver dias de sonhos realizados, entre amigas e com a companhia de um amor brasileiro que vive na França, desde 68.

Histórias pessoais que se confundem com os tempos modernos da nossa geração, e ali estava eu a descontar décadas de imaginação de como seria nosso encontro um dia. Foi tudo perfeito, sim, porque estar em Paris já, por si só, torna a vida perfeitamente vivível e supostamente conclusiva. Passear por suas ruas, estar à beira do Sena, contemplar a torre Eifel, observar seus barcos singrando levemente nas águas das tardes longas e ver seu por do sol pelas dez da noite, tudo compõe
um quadro entrecortado de doces expectativas.

Se entro na catedral de Notre Daime e o órgão dispara a tocar canção solene, elevo-me ao encontro do Deus universalmente poderoso e peço pela paz dos seres humanos, agradeço tantos bens e tantos amores, solicito um tempo para os que ainda esperam encontrar seus pares verdadeiros. Aceito as intempéries e me perdoo por ser ainda tão inconsistente e egoísta tantas vezes. Mas, me refaço enquanto busco o olhar de alguém que virá me ver no penultimo dia. Virá de longe, trará a mensagem do coração, e a humildade da doação.

Mas, tudo que for possível viver e trocar, nossas andanças pela Sorbonne, o Quartier Latin, o jantar arrastado entre vinhos e purês, cada gesto de reconhecimento será definitivamente marcado pela surpresa de estarmos tão felizes como dois jovens da geração 70, lembrando que naquelas ruas o pau comeu e o mundo mudou.

Juntos, de mãos dadas, vamos recordar uma Paris onde só estive antes em pensamento e que o viu menino, um guri de 16 anos, imigrante brasileiro, disposto da viver ali e se tornar um cidadão franco-brasileiro.
Pois o tempo parou para nos proporcionar a rodagem de um filme, cujos protagonistas fomos nós dois. Os cinquentões sonhadores de outrora, e os jovens de hoje, esses jovens de cabelos embranquecidos nos quais nos tornamos para sentir a Paris que nos recebeu com festa, saudações e paixões ressuscitadas.

Imaginem o que foi desperdir-se de tudo isso, depois dos 20 dias maravilhosos na Europa, encerrados na capital do Amor?
Só ouvi a ressonância de uma frase repercutida no coração que falava do amor, e da saudade eterna.

Entao, depois de um vôo Paris, Madri, Rio, de quase 12 horas, com muita turbulência, cheguei ao Rio e avistei o avião da Air France que decolaria naquela noite de domingo rumo à cidade de onde eu acabava de chegar repleta de boas lembranças.

Acordei na segunda-feira sob o impacto da notícia trágica do desaparecimento da aeronave. Passei um dia dificil, angustiada, triste, lamentosa, e fui até a igreja rezar pelas vítimas do acidente e seus familiares e amigos.

Dentro de mim, uma Paris que sobrevive repleta de felicidades, mas, na fatalidade ocorrida na mesma rota, meu sentimento de impotência, dor e perplexidade pelos sonhos desfeitos ou não realizados dos que viajaram para os céus do desconhecido.

Apenas um ponto de mutação me consola, sonhos voam além do espaço e do tempo, e as almas são capazes de empreender feitos etéreos, desafiando prognósticos infelizes, por isso, creio que muitas delas passeiam por Paris, a despeito da dimensão humana, e agora, ali comemoram invisíveis, seus sonhos de amor e suas alegrias de ultrapassar a limitada vida.

Cida Torneros, jornalista e escritora, é autora do livro “A Mulher Necessária , acaba de retornar de Paris.

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Comentários

Regina on 3 junho, 2009 at 0:00 #

Lindo o seu texto, Cida. Alegro-me que sua viagem se realizou com sucesso e sonhos se fizeram realidade. Que irônica eh a vida, um avião chegando carregado de felicidade e outro desaparecendo levando os sonhos de muitos, ainda bem que fica o consolo de que sonhos, realizados ou não, seguirão existindo…


Laurita on 3 junho, 2009 at 11:07 #

Lindo Aparecida… a vida tem dessas coisas alegria para uns tristeza para outros… nunca sabemos de que lado vamos estar, por certo estaremos dos 2. Seguimos então aproveitando este sopro… e tendo a coragem de “amar em Paris” sempre que possível.


Aparecida Torneros on 4 junho, 2009 at 12:42 #

Vitor, Regina e Laurita, que bom estar de novo junto a vocês neste Brasil maravilhoso, em terra firme! Beijos
Cida Torneros


Maria Tomasia Middendorf on 6 junho, 2009 at 1:21 #

Cidinha,
Fiquei muito feliz por você ter realizado o sonho que venho acalentando há muito tempo, mas que, ainda não poude ser realizado, mas, por outro lado, estou muito triste pelo desaparecimento do avião da Air France que transportava um ex colega e amigo pessoal. Eu o vejo durante todos os anos em que trabalhamos juntos e na última vez em que bebemos um vinho do porto na sua residência em Belo Horizonte, como se fosse um filmes diante dos meus olhos.
Embora com todos esses sentimentos de tristeza, também quero saber, em detalhe, da sua viagem pela Europa, mas, pessoalmente.
Beijos,
Tomasia


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