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Postado em 30-05-2009
Arquivado em (Artigos) por vitor em 30-05-2009 01:07

Salvador: dias para ficar em casa
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ARTIGO DA SEMANA

UM LIVRO PARA DIAS DE CHUVAS E CPIs

Vitor Hugo Soares

Enquanto as inundações dissolvem o Nordeste – da Bahia ao Piauí – sair em Salvador virou aventura cheia de riscos. A cidade, de trânsito normalmente atravancado, ficou mais perigosa, ao ganhar paisagem lunar emprestada pelas crateras nas ruas, barrancos desabados e casas ruídas às dezenas. Até o prefeito foi desalojado de seu gabinete da Praça Thomé de Souza, ao pé da bela Baia de Todos os Santos, na decantada “terra do sol o ano inteiro”.

Para piorar tudo, rígidas operações de segurança, por todo canto esta semana, durante as visitas dos presidentes Lula, do Brasil, Chávez, da Venezuela, e Wade, do Senegal. Os três de uma vez só, convenhamos, é complicação de sobra em qualquer lugar. Melhor ficar em casa e aproveitar para reler um bom livro, sem tirar o olho da movimentação dos três chefes de Estado na Bahia, nem a atenção do bafafá nos circuitos da política e da imprensa, com a iminência de começar a CPI da Petrobrás, semana que vem.

Na rádio FM, Gal Costa interpreta o samba exaltação de Ary Barroso: “Isso aqui, ôô, é um pouquinho do Brasil Iaiá / deste Brasil que canta e é feliz/ feliz, feliz”. No entorno, dias diluvianos: moradias em ruínas, plantações destruídas, barragem inaugurada no Piauí há menos de 10 anos, com montes de recursos federais e pouca fiscalização, arrombada. Pessoas soterradas ou levadas pela correnteza.

“És Notícia”, do jornalista e escritor italiano Giovanni Cesareo é o livro que escolho para ler. Trata dos labirintos da comunicação em geral, e do jornalismo impresso em especial, a partir do chamado “caso Aldo Moro”, o ex-presidente da Democracia Cristã na Itália encontrado morto, em maio de 1978, com 11 tiros, depois de ficar semanas em poder das Brigadas Vermelhas.

Vinte e dois anos e alguns dias, portanto, desde o assassinato do líder italiano e das lições mal aprendidas deixadas pela tragédia política e humana. O autor põe em relevo a importância que, já naquela época de tumultos e confusão, começavam a adquirir as chamadas “rotinas produtivas” que, desde então, grassam como vírus mais contaminante que o da gripe suína e se espalha entre a nova elite de burocratas que reina, hoje, em algumas das redações dos nossos mais lidos e respeitados jornais impressos.

Cesareo lembra a manhã de maio de 78 em que o cadáver de Moro foi encontrado no centro da capital romana, a poucos passos da sede da Democracia Cristã (DC) e do partido Comunista Italiano (PCI). Durante as horas seguintes, em sucessivas edições especiais, os noticiários da RAI chamaram a atenção dos telespectadores para a cor do automóvel onde estava o cadáver. Tratava-se, na verdade, de um detalhe totalmente secundário e absolutamente inútil para a compreensão do fato.

No quadro da informação daquele dia, tal “notícia, com suspense, acabou por adquirir um relevo. Cesareo registra que desde a manhã do seqüestro de Moro, por obra das Brigadas Vermelhas, grande parte das matérias, dedicadas pelos diários italianos ao acontecimento, havia sido nutrida com detalhes deste tipo. “No agônico ‘black-out’ de informações significativas, de verificações diretas, de análises fundadas na exploração de processos reais que haviam levado à formação dos grupos terroristas no país e ao desenvolvimento de suas atividades – além do contexto político-social em que se havia produzido o seqüestro -, os diários e os semanários produziram colunas e colunas repletas de boatos, abobrinhas, declarações oficiais e uma infinidade de detalhes inúteis”. O autor vai direto ao ponto ao explicar as razões de tal comportamento.

“De uma parte, para registrar e difundir aquilo que a magistratura, a polícia e os dirigentes dos partidos queriam comunicar (a seus próprios interlocutores privilegiados, parceiros, ou adversários, e aos cidadãos comuns). De outra parte, para manter vivo o tema, criando uma atmosfera, descrevendo minuciosamente pequenos fatos reais, presumidos e até inventados (e, a cada minuto, desmentidos, ou esquecidos de um dia para o outro)”.

O livro desnuda as falsidades que envolvem a comunicação a partir das “fontes” que produzem as notícias. Mostra o quanto está deformado todo o sistema informativo e defende a necessidade de se “buscar um sistema novo que revolucione o complexo e até agora falso mundo das comunicações”. “És Notícia”, diga-se, foi publicado em 1986. Antes, portanto, da explosão planetária da Internet, com seus sites de informação, portais, revistas virtuais e, principalmente, dos blogs.

Quem sabe está aí o começo do caminho na direção proposta por Cesareo. Sei que é preciso avançar muito ainda, mas torço para isso, principalmente em dias trágicos como os que se desenrolam no Nordeste, e de confusão da política e do poder no país. Talvez esteja aí, de fato, o começo da revolução sugerida em “És Notícia”.

“Que assim seja!, exclamo. Na dupla condição de rodado jornalista e de iniciante blogueiro da Bahia.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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