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Postado em 29-05-2009
Arquivado em (Artigos) por vitor em 29-05-2009 10:25

Avenida das lembranças
salvador

CRÕNICA COTIDIANO/SAUDADES

O silêncio e a paz de Jonas

Janio Ferreira Soares

Nas minhas primeiras idas a Salvador várias coisas me encantaram. Dentre elas, a escada rolante da Fundação Politécnica; o elevador Lacerda; a banana split da Lobrás; o cheiro das maçãs de uma banca perto do Cine Guarani; o vai e vem das meninas com suas calças azuis e desbotadas, e, principalmente, a imagem “de cinema” da televisão. Diante dela eu varava as noites e ficava até depois de encerrada a programação, apenas vendo o indiozinho da Itapoan piscando no escuro da sala. Mas tinha um programa em especial que me fascinava e me deixava vidrado diante da tela azulada da velha ABC. Chamava-se Som Exportação.

Foi nele que eu vi pela primeira vez uma turma que eu apenas conhecia de ouvir falar, ou então de algumas canções que conseguiam transpor a Serra do Padre e ecoavam pelas ruas de terra da velha cidade de Glória (BA) através do rádio e da difusora da praça.

Desde Ivan Lins dizendo que o seu peito percebeu que o mar é uma gota comparado ao pranto seu, passando por Milton Nascimento – soltando a voz nas estradas-, até Elis Regina, implorando uma casa no campo pra poder compor muitos rocks rurais, tudo cheirava a novidade para olhos acostumados a ver parentes conversando sob umbuzeiros em flor, e ouvidos habituados a zumbidos de asas de colibris cortando as intermináveis manhãs.

Talvez por isso eu tenha me identificado de imediato com três cabeludos que apareceram por lá tocando uma levada diferente, que misturava o rock do Alabama com o blues de Minas Gerais, cujo resultado – dava para antever – fatalmente transitaria pelo Rio São Francisco, passaria por Pilão Arcado e Sento Sé, e desaguaria entre a montanha e o mar. Sá, Rodrix e Guarabira, eram seus nomes. O prazer foi todo meu.

No dia 22 de maio eu acabara de chegar a Campinas (SP). Ao entrar no hotel o som da TV dizia que Zé Rodrix tinha morrido. Noticia como essa não se pode receber em terras estrangeiras. Deveria tê-la sabido no sitio onde eu morei por mais de 25 anos. Foi lá que nasceram Luiza, Julia e Juca; foi lá que Valéria e eu plantamos mangueiras, goiabeiras e centenas de rolhas de vinho pelo quintal; foi lá que todo fim de semana os mesmos de sempre chegavam pra contar as mesmas histórias, beber a mesma cachaça, ouvir as mesmas canções, mas tudo de uma maneira que parecia a primeira vez.

Tem nada não. Já separei alguns discos, uma boa de Minas, umas Originais pra rebater, e neste fim de semana vou ligar para uns poucos que sobreviveram e ainda estão à mão, para uma última homenagem ao genial compositor e cantor que acabou de pegar uma carona pra cidade mais próxima. Certamente começarei ouvindo Mestre Jonas. Pra quem não lembra, ele é aquele que mora dentro da baleia por vontade própria. Até o fim da vida, até subir pro céu.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no Vale do São Francisco.

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Comentários

Mariana Soares on 29 Maio, 2009 at 11:31 #

Caro Jânio, achei genial a sua crônica! Truxe à minha memória saudosas cenas da minha juventude em Salvador, tais como a sua: a escada rolante da Fundação Politécnica, a Banana Split da Lobrás, deciosamente saboreada com a minha mãe, que adorava o sorvete de abacaxi daquela loja e o Som Exportação, então? Que pena que hoje não se faz mais programas como aquele, tampouco existe público para tanto, não é mesmo? Já o que você sentiu com o anúncio da morte do Zé Rodrigues, posso lhe dizer que o mesmo se deu comigo com a anúncio da morte da Elis – jamais vou esquecer o amargor, que sinto até hoje, principalmente quando vejo a Maria Rita cantar, daquela notícia. Valeu!


Claudio on 29 Maio, 2009 at 21:12 #

Maravilha de crônica do grande Janio, esse capitão-do-mato do São Francisco e das gerais. Craque. Devia descer a escada rolante da Politécnica pelo corrimão…


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