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Postado em 23-05-2009
Arquivado em (Artigos) por vitor em 23-05-2009 10:17

Simonal: final em aberto
siminal

PRIMEIRA CRÍTICA/DOCUMENTÁRIO

ABENÇOADO POR DEUS

Gilson Nogueira

Contar o final do filme tira o interesse de quem quer assisti-lo. É o entendimento geral. Desvendar o epílogo de uma obra cinematográfica ao espectador, sem que ele a tenha visto, na tela do cinema, do computador ou da TV, seria como ir direto aos finalmentes, com a parceira, ou o parceiro, na cama, antes de passar pelas preliminares. E o que tem isso a ver com o fato de um documentário ser considerado bom? Aparentemente, nada, mas, no caso de Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, tudo. O documentário é excelente. Teria sido pelo que ele deixa como resposta ao público que vai conferi-lo? Responde ao anseio de que Simonal era inocente? Ele é fiel aos fatos, apresentando os dois lados da história, como manda a prática da boa reportagem no jornalismo? Ou há algo mais, que não foi dito? No documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, a verdade é revelada? O “caguete”, forma baiana de pronunciar a palavra correta, alcagüete, como se propalou, até aqui, foi invenção da esquerda?

Há, no belo documentário, a intenção dos seus realizadores em deixar para a platéia as conclusões dos fatos mostrados. A fita, que completou, nesta sexta-feira, oito dias de exibição pública, merece os aplausos e elogios de crítica. Já a colocam entre as melhores do gênero já feitos, no país. Seria pelo fato de mostrar que Simonal foi infeliz, como protagonista, na condução da “lanterna” que buscava iluminar a cena de um suposto roubo do seu contador ? A verdade foi mostrada, de uma vez por todas, em relação a ele, Simonal, ainda que o documentário não tenha tido essa intenção? Era, mesmo, Simona dedo-duro? Teria “entregado” colegas do meio artístico aos que estavam a serviço da ditadura?

O fato é que Simonal foi considerado “morto”, enquanto ainda dispunha de vigor, físico, intelectual e artístico para continuar fazendo sucesso. Fecharam-lhe as portas, quando ele gozava de amplas possibilidades de continuar a arrebatar multidões, mundo afora, graças ao seu talento, como cantor de voz belíssima, ao seu modo único de interpretar. Chegou a ser tido como o maior homem show do Brasil. Quem conhecia, até então, nos anos 70, alguém que cantasse igual ou melhor que ele? Fiz-me essas perguntas, depois de assistir Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, aqui, no Rio, na estréia, sexta-feira passada. Fui um dos que adquiriram ingresso para a primeira sessão, no bom cinema do Unibanco, em Botafogo. No dia que fui ver o belo trabalho, que não busca inocentar Simonal, só minha mulher sabe da minha estupefação, ao ser atendido na bilheteria do cinema.

O filme luz lança sobre o caso que intriga, ainda, o país, apesar dele. Meus olhos lacrimejantes entraram em cena no instante em que Simonal canta com a voz fraca para uma platéia de pouco mais de meia dúzia de pessoas em um pequeno palco de madeira no Pelourinho. Ali estava, quase aos trapos, o cantor que, um dia, conheci, na Fonte Nova, em um amistoso da Seleção contra meu Bahia, no ano do Tri. De Simonal, guardo o autógrafo, como relíquia. Mais que isso, a certeza de que o destino foi um parceiro ingrato. Seu final de vida, melancólico, faz chorar, até hoje, quem o idolatrava e confiava na sua inocência. Não é o meu caso. Na minha memória, a alegria, a satisfação ao ouvi-lo, em interpretações magníficas de músicas brasileiras e estrangeiras. Luiza, de Tom Jobim, sendo acompanhado, ao piano, pelo genial Luisinho Eça, no Beco das Garrafas, é uma delas. Dessas que fazem a gente beber os ares. No filme, através de depoimentos de alguns entrevistados, como o Luiz Carlos Mielle, fica claro que Wilson Simonal não foi enterrado com um furo no caixão, para que seu dedo indicador passasse pela tampa que o cobria. O País Tropical, abençoado por Deus, sabe que a voz, a ginga e o sorriso de um dos seus maiores artistas, em todos tempos, permanecem como o que de melhor já produziu para o planeta. Resta-me, somente, agora, deixar cair – a última lágrima.

Gilson Nogueira é jornalista

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