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Postado em 16-05-2009
Arquivado em (Artigos) por vitor em 16-05-2009 18:50

CRÔNICA DO COTIDIANO

PAÍS DOS ABSURDOS

Gilson Nogueira

Por um instante, sentado na privada, com a mão no queixo, diante do espelho, senti-me aquela famosa estátua de Rodin. Meio abobalhado, imaginei que era o Pensador dos novos tempos, buscando entender os porquês dos absurdos acontecerem com maior intensidade na minha Bahia querida. Talvez, por implicância do destino, já que meus conterrâneos não os cometem por vontade própria. Quando os absurdos acontecem, simplesmente, na Terra da Felicidade, acontecem, simplesmente, uma vez que felicidade demais os incomoda, simplesmente. Ponto.

Cada vez mais cético, nessa quadra de desesperanças nos destinos da nação, considero, entretanto, que os absurdos, desde o dia em que inventaram a existência do paraíso, fazem parte da história da humanidade. De uns tempos para cá, ela vem sendo escrita com as tintas da tragédia, o que, convenhamos, é um absurdo e tanto. De Norte a Sul do país, sem que haja uma explicação plausível, os absurdos incorporaram-se ao jeito de ser do brasileiro.

Enquanto a merda desaparece no ralo, depois da descarga dada, penso em atribuir o fenômeno do absurdo ao DNA macunaímico que encanta o mundo pelo exotismo e talento tupiniquins, ainda que esconda-lhe sua queda para aceitar passivamente que injustiças sociais e impunidade, que destroem implacavelmente as células da sua dignidade, passem em branco.

Paro, de novo, agora, distante da latrina, e volto a pensar que, mesmo com tantos absurdos, a vida é bela. Um exemplo disso, poder assistir minha netinha, de um ano e meio, em plena sala, pedindo-me para ouvir Julia, de Lennon e McCartney, do antológico LP Branco dos Beatles. Coloco a última faixa. Vai começar o espetáculo. A estrela menina em figura de gente rodopia, em inocência sublime, encantadora, tentando dançar. Faz de conta que sabe inglês. Canta. Dança. Extasiado, rezo. Deus, certamente, está vendo e ouvindo. Comemoro, no meu silêncio íntimo.

De repente, eis, na lembrança, um exemplo de absurdo. Ontem, ao ir assistir, com minha mulher, Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, aqui, no Rio, a bilheteira do cinema não sabia que o filme estaria sendo exibido, lá, em primeira sessão, uma hora após haver-me garantido que a fita não estava na programação da Sala 5 do bom cinema. Pasmos, andamos a procura de Simonal. Exaustos, voltamos ao ponto de partida. Vimos o documentário. Bravo!!! Coincidentemente, ficou, no ar, a pergunta. Até quando teremos que suportar tantos absurdos?

Gilson Nogueira é jornalista

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Comentários

Lena on 16 Maio, 2009 at 19:30 #

Gilson, li seu artigo,muito bom e acho que todos deveriam ter esses momentos de reflexao, nao necessariamente sentados num trono; ja pensou que bom se todos os nossos problemas pudessem ser que nem essa merda que voce lançou pelo ralo? seria so dar uma descarga e pronto. Mas nao ha descarga que leve tantas porcarias embora, nesse mundao de meu Deus! Vejo muitos dos nossos problemas hj em dia, como uma molestia ruim, como um cancer, desses que vc trata e de repente, sem se aperceber, descobre uma metastase e varios focos aqui e acola. Assim, vejo os nossos problemas politicos tambem. Qdo vc pensa que resolveu uma pendenga, eis que aparecem outras. Acho que nos brasileiros estamos nos aperfeiçoando em investigar falcatruas de politicos, descobrirmos e depois esquecermos…tudo como dantes…mas nao da pra parar, continuar sempre,c’est la vie! Parabens pela netinha! Bom final de semana.


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