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Postado em 16-05-2009
Arquivado em (Artigos) por vitor em 16-05-2009 00:04

Lula e Serra em cochichos/UOL
serra

ARTIGO DA SEMANA

O ATO, O FATO E AS FOTOS

Vitor Hugo Soares

Na última passagem por Buenos Aires, há quase dois anos, trouxe na bagagem de volta para Salvador o livro “El fotoperiodismo” (O fotojornalismo), de Pierre-Jean Amar, comprado em pequena e acolhedora livraria na vizinhança do hotel. Um daqueles lugares encantados que o viajante amante da leitura encontra em cada esquina da monumental Calle Corrientes, mas que é difícil achar pelas bandas de cá – a não ser no Rio de Janeiro e São Paulo. Sem a mesma fartura de ofertas, evidentemente.

É conveniente esclarecer: esta não é uma crônica de turista acidental como a do personagem de William Hurt no cinema. A recordação do livro e de seu conteúdo, está diretamente ligada a atos, fatos e fotos desta movimentada semana política no País. Mais exatamente à cerimônia da tarde de quarta-feira, 13 de maio, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, que assinalou o envio ao Congresso pelo Executivo do projeto da chamada Lei de Acesso a Informação.

Foi um ato caprichado, produzido com pompa e circunstância pelo Palácio do Planalto para registrar uma ação de governo de relevância inquestionável. Afinal, a iniciativa, banal e comum na vida de países democráticos do mundo, levou mais de 20 anos até chegar ao Congresso como projeto efetivo de lei, cuja aprovação é passo fundamental para dar um fim à “cultura do sigilo indiscriminado que ainda impera no País”, como destacou o ministro-chefe da Corregedoria-Geral da União, Jorge Hage, artífice baiano do arcabouço legal do projeto.

A melhor demonstração disso são as imagens divulgadas em alguns blogs e portais – como o de Noblat e do UOL, para citar apenas dois. Em ambos, os registros mais nítidos da pluralidade exemplar – ou quase, em razão da ausência de militares em exercício de comando na cerimônia -, que reinou na cerimônia de quarta-feira. Expressa tanto nas presenças destacadas no palco principal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva; do governador de São Paulo, José Serra; da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff e do próprio ministro-chefe da CGU, quanto nas palavras e gestos cordiais durante discursos , entrevistas r conversas mais reservadas.

Mais: Na troca de afetos do tucano Serra e da petista Dilma – velhos camaradas de lutas comuns do passado e prováveis adversários na sucessão presidencial de 2010. Na conversa cochichada pelo presidente da República ao pé do ouvido receptivo do governador de São Paulo. Algo confortante de se ver em um tempo de trocas de insultos públicos de autoridades com poder de justiça, ou de políticos que tentam impor-se no Congresso aos tapas ou na base dos xingamentos e gritos inconsequentes.

Um fato especial, sem dúvida, jornalisticamente falando. Em outras circunstâncias teria seguramente recebido espaços bem mais generosos nos noticiários e análises de nossos principais veículos comunicação. Mas estes estão voltados para outras prioridades eletivas, como a gripe suína que já perdeu importância até no México e Estados Unidos, sedes da moléstia. São descartados até de fatos mais graves no mundo, alguns em nossa própria aldeia. O drama dos nordestinos atingidos pelas chuvas e enchentes, que arrasam cidades e pessoas da Bahia ao Pará, por exemplo.

“Minha nossa senhora!”, diz escandalizado o âncora William Bonner, ao finalizar a edição do JN de quinta-feira (14) com o bafafá no senado sobre a CPI da Petrobrás no Congresso. Deve ter motivos para a preocupação, afinal o presidente Lula também não fazia questão de esconder o aborrecimento com a decisão de ontem na casa comandada pelo aliado José Sarney , minutos antes de viajar para a Ásia. À frente de Bonner, quinta-feira, um olhar e um jeito impossíveis de definir de Fátima Bernardes, na clássica e sempre esperada imagem de “boa noite” aos ouvintes.

No Itamaraty o presidente Lula, diante da ausência de comandantes militares na solenidade da Lei de Direito à Informação, disse: “ninguém veja isso (a lei que define regras práticas para o acesso aos documentos sigilosos pelo cidadão) como se fosse revanchismo, porque eu vou deixar o governo daqui a um ano”. O governador Serra acrescenta: “o objetivo não é reabrir feridas e reavivar dores, mas cumprir um dever de preservar a memória de nosso País”. Ao ministro Jorge Hage coube o arremate essencial ao falar do histórico, do conteúdo e da relevância do projeto.

“Há o natural receio do mau uso da informação divulgada, da distorção dolosa por alguns setores de oposição ao governo. Isto é real. Mas a solução não está em deixar de divulgar, em esconder a informação verdadeira, e sim em insistir nela, enfrentando o debate político e apostando em que a verdade em fim prevaleça”. Mais direto impossível.

O autor do livro referido no começo assinala: “a fotografia de informação, considerada por muito tempo simples prova, se transformou até converter-se em testemunho jornalístico, relato, visão de um homem. Pode traduzir a consciência do testemunho privilegiado e opinativo que transforma a imagem em meio de luta. Esta atitude pode ter outra cara e este compromisso transformar-se em propaganda”. Cabe então guardar as imagens, cuidar (e cobrar) para que a segunda hipótese não aconteça.

“Vida que segue”, diria o saudoso ex-colega do JB, João Saldanha.

Vitor Hugo Soares é jornalista.
E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Lena on 16 Maio, 2009 at 18:17 #

Realmente tem-se falado pouco das tantas tragedias dos nordestinos que tanto sofreram e ainda sofrerao pelas perdas de tudo, que lhes custaram uma vida de trabalho duro e quando nao perderam um ente querido tambem. Ate a solidariedade que povos do centro-sul enviaram a essa gente…que dificuldade pra enviar!! Qto aos furduncios no senado, por conta do pedido de CPI da Petrobras, nao se pode culpar a oposiçao por toda esta confusao. Ate meu bichinho de estimaçao sabe que na Petrobras esta havendo muitas falcatruas, utilizaçao errada da grana publica em muitos desses eventos das festas de S. Joao,etc,e precisamos investigar mesmo. Se os governistas, especialmente Lula e PT nao se importassem tanto com o que ha pra se investigar, provavelmente as confusoes nao tomariam essa dimensao toda e talvez nem tivesse os 30 senadores apoiando a tal CPI. Mas o panico gerado nos governistas deixou-me tambem curiosa. Mas triste mesmo, foi ver esta mulher, petista ou nao, mas uma mulher, com cancer e em tratamento, ter que se expor desta forma, falar de politica e ter que sorrir diante de tantos, sem poder demonstrar sua provavel dor e preocupaçao com sua saude.Desejo sinceramente que ela fique boa mesmo, que nao haja metastase e que saia desta muito bem.


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