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Postado em 14-05-2009
Arquivado em (Artigos) por vitor em 14-05-2009 19:57

Labirintos da capital
capital

CRÔNICA/ CIDADES

PELAS RUAS DE BRASÍLIA

Marcelo Torres*

De repente, cá estava eu nesta bela cidade de retas e curvas, endereços lógicos, cartesianos, cheios de siglas e números; endereços que chegam a dar tédio e raiva de tão lógicos, racionais, exatos.
Ao chegar aqui e me deparar com setor disso, setor daquilo – tudo certinho, bonitinho, organizado, sem precisar perguntar um ponto de referência para chegar a algum endereço -, não sabia se era a cidade que era estranha ou se eu é que era um estranho no pedaço.

O brasiliense costuma dizer que sua cidade é normal, estranhas são as outras. Dependendo do referencial, ele tem razão. Aqui, depois que se acostuma, você vê que isso tudo faz sentido – e como faz.

Familiarizado com as ruas personalizadas da Bahia de todos os santos, eu me senti um capiau na capital futurista do eterno país do futuro. Senti-me um estranho numa cidade estranha aos meus olhos.

Seria a identificação na estranheza? Acho que sim, eu viria saber depois..

A verdade é que, antes de chegar aqui, eu nunca havia parado para imaginar o que seria uma cidade sem rua, sem avenida, sem praça, sem travessa, sem esquina, sem bairro. É isso mesmo! Brasília não tem nada disso!

Nunca pensei que pudesse ir a um endereço desconhecido sem perguntar “é perto de quê?” ou “Qual é o ponto de referência?” Sim, porque em Salvador o endereço ou fica perto de uma igreja, ou é vizinho de um supermercado, ou fica na subida de uma ladeira, ou depois da sinaleira à esquerda.

Em Brasília, não. Basta uma sigla, um número, uma letra e outro número e pronto! SQS 304 E 205. Todo brasiliense já nasce sabendo que se trata da quadra 304 Sul, bloco E, apartamento 205.

Pequeno, 10 caracteres, incrivelmente um endereço completo, exato, preciso.. Mais fácil do que saber o nome do edifício. Aliás, em Brasília todo edifício tem nome, mas ninguém sabe – nem mesmo o morador – e não precisa saber.

Nos lagos Sul ou Norte, basta SHIS QI ou QL e quatro dígitos que o endereço estará completo e absolutamente achável. Ninguém tem dúvida do que seja um endereço tipo “SHIS QL 21-2-3” ou “SHIN QI 10-7-6”.

Trata-se de endereços do Lago Sul e Lago Norte, respectivamente. SHIS significa Setor de Habitações Individuais Sul, ou seja, Lago Sul. SHIN é a mesma coisa, sendo que o N é de Norte (Lago Norte). QL é Quadra do Lago e QI é Quadra Isolada. E os números indicam, pela ordem, a quadra, o conjunto e a casa.

Com um mês e pouco aqui, você acaba aprendendo e achando tudo muito fácil também, você começa o batismo, entra nos eixos, começa a virar candango. E ai do filho de Deus que não aprenda logo essas coordenadas…

Se você perguntar “É perto de quê?”, a pessoa pode lhe achar um ET, um louco, um debilóide. Aliás, em Brasília outra coisa difícil é alguém parar outrem na “rua” para perguntar endereço.

Mas Brasília tem seus pontos de referências, que saem na ponta da língua de todo e qualquer morador. É um tal de Eixão pra lá, eixinho pra cá, W3, L2, L4, essas esquisitices de letras, siglas e números.

O problema é que a explicação é sempre complicada. O morador de Brasília acha que tudo é muito fácil – e óbvio -, mas o visitante não entende bulhufas do turbilhão de informações que lhe são passadas em um quase bombardeio..

“De um lado tem as pares, duzentas, quatrocentas, seiscentas, oitocentas”, explica o anfitrião. “Do outro, as ímpares, trezentas, quinhentas, setecentas e novecentas”, conclui, crente de que se fez por entender.

Pela explicação, você pensa que de um lado só tem par e do outro só tem ímpar, e não é assim. De um lado ficam as quadras que começam com dígito par (de 201 a 216, de 401 a 416…) e do outro ficam as que começam com dígito ímpar (de 101 a 116, de 301 a 316…).

Se você levar ao pé da letra, ou melhor, ao pé dos números, constará que tanto num lado como no outro há pares e ímpares. Outra coisa engraçada é que os anfitriões falam a seqüência completa das pares, mas não completam as ímpares.

Quando eles falam das ímpares, dizem “novecentas, setecentas, quinhentas e trezentas”, e aí, na levada, você fica esperando eles dizerem centas e eles não dizem.

Mas é muita informação para um baiano só. Era muita coisa para minha cabecinha, tudo de uma vez. Eu ficava sem nem saber por onde começar, não sabia nem o que perguntar…

A esta altura da explicação eu já estava pensando em voltar. Não pra Bahia, mas para o ensino fundamental. Sem saber da minha angústia, o anfitrião me deu um golpe de misericórdia: “Não tem erro, é tudo muito fácil”. E aí eu fiquei pensando: se tudo é muito fácil, eu sou um burrico.

Quadras comerciais e residenciais, entrequadras, superquadras, blocos, asas, eixos, eixão, eixinhos, setores, números pares e ímpares… Em meio a tudo isso, no terceiro dia aqui, estava eu procurando uma quadra 309 Norte.

– É nas ímpares – orientou ela.

Entrei na Asa Norte e fui seguindo placa e mais placa, até chegar até a 209. Da 209, um número ímpar, caí direto na 409, outro número ímpar, sem passar pela 309, que na minha idéia ficaria no meio das duas – mas não ficava.

Depois de rodar feito um doido, parei perdido e liguei para baiana brasiliense que me convidara.

– Onde cê tá? – ela atendeu.
– Passei pela 209, já tô na 409 e não vi a 309…
– É do outro lado, cê tá nas pares…
– Não, eu tô nas ímpares.
– Entenda, Marcelo, aí ficam as pares…
– Ué, mas 209, 409 não são ímpares, não?
– Não, 209 é par, fica nas duzentas…
– Peraí, em qualquer lugar, 209 é ímpar…
– Não, aqui em Brasília é par, é a lógica da cidade…
– Que lógica é essa?

E ficamos nesse é par, é ímpar, é par, é ímpar – até a bateria do celular descarregar e eu voltar para casa, desistindo do encontro. Não sei como acertei voltar para a quitinete onde estava. Solitário, não tive ninguém para perguntar.

No dia seguinte, porém, a primeira coisa que falei pros colegas de trabalho foi a minha odisséia entre quadras pares e ímpares. Eles juntaram uns dez não só para rir como também para explicar tudo, tin-tin-tin por tin-tin-tin, quadra por quadra.

E foi assim que fui entender essas “lógicas” brasilienses. Aí, liguei para Flavinha e acertamos os ponteiros, fizemos as pazes, entre risadas pares e ímpares.

*Marcelo Torres é jornalista, baiano, radicado em Brasília .

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