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Postado em 11-05-2009
Arquivado em (Artigos) por vitor em 11-05-2009 10:47

Olhos e ouvidos atentos para o segundo texto de José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, sobre os bastidores da gripe suina, nascida na América do Norte, e que espalha pelo mundo.

Em Salvador, um norte-americano, 43 anos, está internado desde às 19h30m de domingo (10) no Hospital Octávio Mangabeira, no bairro de Pau Miúdo, com suspeita de ter contraído a gripe suína, segundo informa o Jornal da Mídia (www.http://jornaldamidia.com.br).

“O homem, que não teve sua identidade revelada, está na Área de Isolamento do hospital. Ele chegou na última quarta-feira a Salvador, procedente de Washington, nos Estados Unidos.

Ao ser internado, ele apresentava os sintomas da gripe suína, como febre alta, diarréia, dor de cabeça e delírio.

A Secretaria de Saúde da Bahia deverá encaminhar ainda hoje (11) à Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, o material de exame coletado do paciente.

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Medica alemã pesquisa gripe/Reuters
epidemia

GRIPE SUINA (2)

José Saramago ( http://caderno.josesaramago.org)

“Continuemos. No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a “produção animal em granjas industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo de que a contínua circulação de vírus, característica das enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de aparecimento de novos vírus, por processos de mutação ou de recombinação, que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”.

A comissão alertou, também, para o fato de que o uso promíscuo de antibióticos nas fábricas porcinas – mais barato que em ambientes humanos – estava proporcionando o auge de infecções estafilocócicas resistentes, ao mesmo tempo que as descargas residuais geravam manifestações de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou milhares de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).

Qualquer melhoria na ecologia deste novo agente patogénico teria que enfrentar-se ao monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e ganadeiros, como Smithfield Farms (suíno e vacum) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática das suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas umas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento dos investigadores que cooperaram com a comissão. Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas.  Assim como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre o seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do surto da gripe suína esbarre contra a pétrea muralha da indústria do porco. Isso não quer dizer que não venha a encontrar-se nunca um dedo acusador: já corre na imprensa mexicana o rumor de um epicentro da gripe situado numa gigantesca filial de Smithfield no estado de Veracruz. Mas o mais importante é o bosque, não as árvores: a fracassada estratégia antipandémica da Organização Mundial de Saúde, o progressivo deterioramento da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industralizada e ecologicamente sem discernimento.

Como se observa, os contágios são muito mais complicados que entrar um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de escrúpulos das grandes empresas. Tudo está contagiando tudo. A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez. Mas poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional? Quem nos acode?

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Comentários

Velho Ti on 11 Maio, 2009 at 13:20 #

Interessante o ponto de vista de Saramago.
Vale lembrar também outro caso de influência direta do homem na produção animal em escala industrial, a encefalopatia espongiforme bovina, ou, na sua denominação mais famosa, a doença da vaca louca. A utilização de farinha de carne e ossos na ração dos bovinos tem sido apontada como a principal vilã no desencadeamento da doença – que por sinal também apresentou sua variação humana…
É mais um infeliz exemplo da capacidade auto-destrutiva do homem, movida a ganância e falta de escrúpulos.


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