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Postado em 05-05-2009
Arquivado em (Artigos) por bahiaempauta em 05-05-2009 10:30

Dona Cecília sobre Floyd:”merecia uma homilia para acompanhar”

CRÔNICA DE PAULO AFONSO

A CANÇÃO AINDA PULSA

Janio Ferreira

Foi só Chico Buarque dizer que a canção, pelo menos do modo como a conhecemos, pode ter se esgotado e em breve poderá encerrar o seu ciclo, que um alvoroço danado se instalou entre estudiosos e admiradores das velhas baladas, boleros e rock’n’roll. Prova disso é que o tema anda circulando por aí, e até virou uma série de aulas-shows ministradas pelos músicos e professores, Arthur Nestrovski e Zé Miguel Wisnik, que, para desapontamento dos coveiros de graves, agudos e acordes dissonantes, afirmam que a canção brasileira ainda resiste.

Acho que Chico quis dizer que hoje, com essa diminuição de novos talentos e todas essas informações via internet, a coisa anda meio fora de ordem. Cito o exemplo de Malu Magalhães – essa garota meio esquisita que parece ter saído de um cruzamento de algum membro da Família Addams com Gugu Liberato -, que começou no You Tube e foi parar no Faustão. Se ela tem talento ou não, é outro papo. Mas isso mostra que se neguinho postar na internet qualquer som que se pareça música, acompanhado de várias palavras que se acham letras, pode acabar virando um exemplo de vida para bajuladores travestidos de apresentadores de programas dominicais.

Eu sou do tempo em que a inspiração transbordava da fronte do artista e o rádio era o principal meio de divulgação de suas músicas. Quando Tom Jobim, Beatles, Roberto, Chico, Stones, Tom Zé, Caetano, Gil e afins lançavam os seus LPs, a gente podia ter a certeza de que nos dois lados do vinil estariam prensadas algumas canções geniais. Lembro que antes de eles chegarem às lojas eu vivia com um velho rádio procurando emissoras que tocassem esses lançamentos em primeira mão. Como aconteceu naquela noite chuvosa de 1975, em que o locutor Big Boy tocou pela primeira vez, na Rádio Mundial, o LP Wish You Were Here, do Pink Floyd.

Eu estava jantando, quando de repente um som de um órgão Hammond invadiu a cozinha de uma maneira tal, que até a deliciosa paçoca de carne assada batida no pilão ficou quietinha na travessa, talvez pensando que iria sair dali com vida. Até mesmo minha mãe, Cecília, católica fervorosa e alheia ao assunto, comentou: “que som lindo, meu filho, merecia uma homilia para acompanhar!”.

Se a canção está com seus dias contados, eu não sei. Só sei que toda vez que eu vou limpar meus discos – arrumados em ordem alfabética – e vejo Antonio Carlos Jobim, ao lado de Adriana Calcanhoto e Arnaldo Antunes; Lupicínio, junto com Lenine e Lô Borges; Milton e Moraes, tricotando com Marisa Monte e Mariana Aydar; Roberto Carlos, com Roberta Sá; Vinicius, paquerando Vanessa da Matta, que só quer saber de Vitor Ramil; Zeca Baleiro, papeando com Zeca Pagodinho, na presença de Zé Ramalho e seus vizinhos da pesada – que saíram para dar uma voltinha e nunca mais voltaram para as suas letras -, Raul e Sérgio Sampaio; e Gismonti, Armandinho e João Donato, dando as boas vindas ao Maestro Spock, Yamandu, Hamilton de Holanda e contemporâneos do mesmo naipe, eu sinto que vai demorar um bocado para que a nossa boa e velha canção caia do galho, dê um suspiro e repouse no sono eterno das notas findas.

Janio Ferreira, escritor e cronista, é secretário de Cultura da cidade de Paulo Afonso (BA). Especial para Bahia em Pauta.

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Comentários

Regina on 9 Maio, 2009 at 14:34 #

Presado Janio:
A canção nao morreu nem vai morrer jamais enquanto você, eu e muitos mais, como nós, mantivermos esse arsenal que temos em casa, escutando todos os dias e deixando nossos filhos escutar e passar adiante para os filhos deles. O que acontece eh que os tempos mudam e eh precisso aceitar isso. Abrir os ouvidos e a mente para o novo eh uma condição de vida ou sobrevivencia para os que preferem “nao se adaptar”…


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